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MD e dipirona: a psiquiatria busca novos remédios em velhas substâncias

Luiz Sperry

29/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Sexta-feira, um jovem comum se prepara para sair de casa. Já combinou com os amigos que vai sair para a balada à noite, depois da faculdade. Pega a carteira e a mochila, onde estão bem guardadas duas pílulas de metilenodioximetanfetamina, vulgo MDMA, também conhecido como MD, bala, ecstasy e afins. Enquanto isso, na mesma casa, a mãe desse jovem abre a gaveta do banheiro e toma dois comprimidos da mesma metilenodioximetanfetamina, só que prescritos pelo seu médico.

Essa cena um tanto inusitada pode se tornar realidade num futuro próximo. Como podemos perceber, existe uma certa entressafra no campo da psiquiatria. Tanto a psicofarmacologia quanto as psicoterapias, por mais que tenhas sofrido transformações nessas últimas décadas, não mostraram nada que seja de fato revolucionário, pelo menos ao alcance da massa.

As pesquisas então, ao menos no campo da psicofarmacologia, se voltaram em parte para substâncias já bem conhecidas. Primeiro foi a quetamina e sua versão inalatória, escetamina, recentemente lançada no mercado americano para a depressão. Para quem não se lembra a quetamina é um anestésico bastante potente, mas também é alucinógeno. Por isso também é usada como droga por aí e seu comércio é bastante restrito.

Não necessariamente depois, mas junto com isso, vem chegando a nova onda dos canabinoides, derivados de maconha que vem sendo estudados e aplicados em diversos transtornos mentais e neurológicos. Diferentes canabinoides como canabidiol ou mesmo o conhecido THC parecem ser efetivos, mas ainda existe uma grande quantidade de medicações comuns que hoje em dia sabemos que podem ativar o nosso sistema endocanabinoide, como por exemplo a boa e velha dipirona. Os novos estudos dizem que aquela sonolência e queda de pressão que tantas pessoas contam sentir quando tomam dipirona provavelmente é relacionada a esse efeito.

Pois bem, agora temos estudos com o MDMA e também com a psilocibina, que é a substância alucinógena presente em certos tipos de cogumelos alucinógenos bastante conhecidos por aí. São substâncias que vêm sendo já utilizadas há muitas décadas, entre liberações e proibições. O MDMA foi desenvolvido pela Merck Farmacêutica há mais de 100 anos e seu uso como tratamento foi bastante estudado nos anos 60 e 70, principalmente através dos trabalhos de Alexander Shulgin, na Califórnia. Mas em 1977 o MDMA foi banido e ressurgiu nos clubes de música eletrônica uma década depois, já como ecstasy. Voltou a ser estudado recentemente para transtornos de humor e estresse pós traumático, aparentemente com bons resultados.

A psilocibina por sua vez teve em Thimothy Leary seu grande incentivador. O professor de Harvard fez algum estardalhaço no começo dos anos 60 ao dar psilocibina para detentos, na penitenciária de Concord. Seus resultados, metodologicamente questionáveis, mostravam uma significativa queda na reincidência desses presidiários. Pouco depois disso Leary acabou sendo expulso de Harvard e se tornou mais famoso ainda, dessa vez por causa de suas pesquisas com o LSD, droga que ficou irremediavelmente associada ao seu nome. Por ter uma alta afinidade com receptores serotoninérgicos (assim como os antidepressivos) a psilocibina tem sido estudada para diversos quadros psiquiátricos, como depressão, TOC, ansiedade e tabagismo.

Não é demais lembrar que os efeitos alucinógenos e potencial de abuso tornam o uso dessas medicações em grande escala um grande desafio. Foram anos até que a quetamina pudesse ser administrada de forma mais segura e ainda há um longo caminho com essas duas substâncias.

Enquanto isso, aqui em baixo, a marcha ré é a regra. O ministro da Cidadania, Osmar Terra, afirmou que iria "fechar a Anvisa", caso o órgão insista em regulamentar o plantio de cannabis para fins medicinais. Espero que ele não leia esse artigo; capaz de querer proibir a dipirona também.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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