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Por que o fim da paciência também é o fim da quarentena

Luiz Sperry

29/06/2020 04h00

Crédito: iStock

Tenho visto algumas pessoas com um novo transtorno mental. É o Transtorno de Ansiedade Terceirizada Pandêmica. São pessoas que ficam extremamente angustiadas pelo desrespeito da quarentena por terceiros, partindo-se do princípio, evidente, de que elas cumprem todos os rituais do isolamento social preconizados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pela mídia em geral. Acabam por ficar demasiadamente amargas e sentindo-se absolutamente impotentes, tendo em vista que o isolamento está cada vez menos isolado, ao que parece.

Antes que eu me esqueça: não existe Transtorno de Ansiedade Terceirizada Pandêmica. É um termo que eu inventei, mas poderia existir, pois hoje em dia as doenças mentais surgem assim. Você vê algo acontecer várias vezes, inventa um nome, mostra que melhora com algum remédio e voilà: aí está a nova doença. Mas não é a minha intenção criar doença nenhuma, nem acho que isso seja uma doença de fato, são apenas pessoas sofrendo por causa de agruras que acontecem na vida de todo mundo. No caso da pandemia, literalmente todo mundo.

O problema é que a gente não tem como dar conta das questões que são do outro. Cada um sabe o quanto aguenta e o quanto deixa de aguentar. Quem me ensinou isso foi uma analista minha, anos atrás. Cheguei pra fazer análise, babando, mais louco que o Batman e perguntei: "quantas vezes por semana preciso vir?" Ela respondeu: "quantas vezes você quiser, cada um sabe o quanto aguenta". Fiquei maravilhado com a frase e já comecei a babar menos naquele momento. Isso serve não só para a análise, mas também para outras coisas na vida. Trabalho, barulho, encheção de saco e -por que não?- quarentena.

Eu, por exemplo, que tenho uma esteira em casa, consigo atender por vídeo e até receita eletrônica consigo fazer. Posso aguentar meses ou até mesmo anos nessa pegada. Não que eu ache propriamente gostoso, longe disso, mas não quero pegar coronavírus e morrer. Por outro lado tem gente que não aguenta, e não é só pela condição econômica, é pela condição emocional. Quando falaram que haveria um tsunami de transtornos mentais eu duvidei disso e até escrevi sobre o assunto. Não que eu não ache que o isolamento possa desencadear crises, porque de fato ele pode. Mas porque a opção é simplesmente sair do isolamento.

É o que tem acontecido. Essa saída afobada é o resultado em grande parte justamente dessa incapacidade das pessoas continuarem quietas dentro de suas casas. Claro que existe uma pressão considerável por parte das pessoas cujos negócios foram arruinados pela pandemia. E então ficamos nesse isolamento meia-bomba que, sob certo ponto de vista, foi um sucesso. Como assim sucesso? Bem, é só olhar os gráficos de incidência e mortalidade: nós conseguimos "achatar a curva". Todos os países tiveram uma escalada muito mais rápida que o Brasil, seguidos por medidas de lockdown e queda, mais lenta, dos casos. A nossa curva sobe mais devagar mas, como não tivemos em nenhum momento o tal isolamento acima de 70%, talvez nem tenhamos chegados ao pico ainda. 

Só que enquanto isso a paciência das pessoas acabou. É gente voltando a trabalhar, tem paciente exigindo minha presença pois não aceita teleconsulta, é festinha, churrasquinho e quando a gente para pra ver, essa semana abrem bares e restaurantes aqui em São Paulo. No Rio já teve futebol na semana passada. Com tantos casos ativos e mais gente circulando por aí é claro que vai haver um aumento de casos e de mortes por covid-19. 

E é aí que ressurgem as pessoas com Transtorno de Ansiedade Terceirizada Pandêmica. Como profetas do Apocalipse bradam para quem quiser ouvir: "Eu falei!!! Eu não disse???" Sim querido, você disse, você avisou. Mas o problema é que não é por falta de aviso, não. Todo mundo, nessas alturas do campeonato, já sabe exatamente o que tem que fazer, como lava a mão, onde bota o sapato, como faz com a máscara e por aí vai. Mesmo quem diz que não acredita, que a Globo mente, que é um exagero, no fundo, sabe exatamente qual é a real. 

Agora tem uma coisa. Não é porque você não aguenta que é um liberou geral. Não adianta sair na porralouquice por aí gritando: "Eu não aguento! Eu não aguento!". O fato de cada um ter as suas limitações não te torna menos responsável pelos seus atos. Todo mundo tem que pensar também o quanto de risco se está disposto a correr, porque a fatura chega para todos. Para todos.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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