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Em tempos de coronavírus, o que realmente pode proteger nossa saúde mental?

Luiz Sperry

25/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Nesses dias, alguém lançou a questão: "Qual a cloroquina da sua profissão?"- entenda-se por "cloroquina" alguma substância ou procedimento que não tenha utilidade, mas mesmo assim seja alçado a um ponto central de discussão por algum outro motivo. Primeiramente pensei como médico e respondi: "cloroquina, claro". Mas logo veio a pergunta, mais difícil e por isso mesmo mais saborosa: o que é de fato que funciona ou não para a saúde mental nesse contexto de pandemia?

O que eu chamo de contexto de pandemia é uma situação onde se percebe um agravamento dos casos de doenças mentais já existentes, assim como o surgimento de novos casos em decorrência do estresse causado pela doença ou pelo isolamento social. Do ponto de vista epidemiológico existem indícios de um aumento da incidência de diversos transtornos, tanto no Brasil como em outros países. 

O que não é possível afirmar é a existência do chamado "tsunami mental", expressão que surgiu na Inglaterra nessas últimas semanas. Os britânicos previram a possibilidade de um aumento descontrolado do número de casos que ainda não ocorreu, nem aqui, nem lá. Mas se não houve esse transbordamento, fundamental para que a gente caracterize tsunami, sem dúvida houve um grande aumento, ao menos uma alta da maré. Os psicanalistas que, assim como os infectologistas e os economistas keynesianos, ocupavam lugares modestos nessa grande fila do pão que é à vida, foram promovidos a um protagonismo do qual não gozavam há um bom tempo.

O que quero dizer com isso? Explico: apesar de ter bastante trabalho, as pessoas não estão se jogando dos prédios ou inundando os serviços de emergência psiquiátrica. Não tem ocorrido um aumento desenfreado nas internações. E já existem algumas evidências do que pode funcionar e também do que não pode funcionar no que concerne essa questão especificamente.

O que tem aparecido como indicação de ponta, pasmem, é mesmo a psicoterapia. Não a nossa clássica e saudosa análise de transferência, pessoal, com divã e pagamento em dinheiro vivo. Mas a análise possível, por vídeo ou telefone, com wi-fi instável, sujeita a interferência de choro de criança, bateria acabando ou panelaços inesperados. Nesse sentido minha impressão confirma a literatura; quem pode fazer está segurando melhor.

Outro achado interessante é que simplesmente manter uma agenda de atividades e conversar com as pessoas já melhora nossa condição mental. Sem dúvida outras coisa que renasceu – além de psicanalistas, infectologistas e economistas keynesianos – foram os telefonemas. Atividade de comunicação em franco desuso, o telefonema estava fadado a se juntar ao telégrafo e aos sinais de fumaça enquanto método obsoleto. Mas eis que a epidemia de coronavírus nos levou à percepção de que a palavra falada tem um poder superior ao da palavra escrita. Tornaram-se comuns como não eram há muitos anos as antigas ligações de dezenas de minutos (tempo de espera em SAC de operadora não conta, ok?).

Outras recomendações que seguem talvez um princípio do bom senso precisam ser relembradas, inclusive porque o próprio bom senso está em se tornando algo obsoleto. Evitar excesso de álcool e outras drogas, fazer exercícios, evitar uso muito intenso de dispositivos eletrônicos (talvez o mais difícil de todos) e vejam só, procurar ajuda quando a gente precisa de ajuda, parecem recomendações simplórias, que inclusive eu já devo ter feito aqui, mas nunca é muito repetir aquilo que é boa prática.

Um último fator protetor que também já citei é a presença de crianças em casa. Quem tem criança fica menos doente da cabeça. Mesmo assim não sugiro que vocês resolvam ter um filho agora, vai demorar nove meses para nascer e até lá a quarentena já vai ter terminado. Ou não; oremos.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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