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Pandemia mostra como certas características mentais também têm um lado bom

Luiz Sperry

01/06/2020 04h00

Crédito: iStock

Com os eventos pelos quais temos passado nos últimos meses, podemos observar uma mudança interessante. Pessoas que antes eram mais adaptadas à antiga realidade tendem a sofrer mais do que pessoas que antes eram desadaptadas. Traços psicológicos como introversão e alguns comportamentos neuróticos passaram a ser adaptativos, enquanto uma alta sociabilidade, por exemplo, se tornou talvez uma fraqueza. Os obsessivos e os hipocondríacos estão vivendo o seu grande momento.

Penso eu que alguns traços psicopatológicos sejam, de certa maneira, úteis para a sociedade. Se pensarmos numa tribo primitiva qualquer, seria interessante ter um obsessivo que checasse compulsivamente a integridade de lanças e flechas antes de cada caçada. Ou um paranoico que montasse guarda dia e noite. Os hipocondríacos, claro, sempre atentos às doenças e aos possíveis tratamentos, ainda que tenham sido bastante rudimentares até recentemente.

Podemos ir além. Que homem se lançaria no meio do Oceano Pacífico, há centenas de anos, numa canoa, guiado apenas pelas estrelas? Um tipo de bipolar maníaco-depressivo, sem dúvida. A frieza e crueldade dos psicopatas sempre esteve marcada nos livros de história, através de militares e governantes impiedosos. Até mesmo aos psicóticos, que escutam e enxergam coisas, muitas vezes foram reservados papéis de destaque como sacerdotes e líderes religiosos.

O problema é que a doença mental não é, quase nunca, benéfica sob o ponto de vista do sujeito doente. Em geral ela causa sofrimento em diversos graus, além de incapacidade, levando a um outro custo social. Mas muitas vezes temos que imaginar que ela possa, num determinado contexto, trazer algum benefício. O que vai dar essa medida é justamente a realidade, que está sempre mudando.

Se a gente for pensar bem, "os paranoicos também têm inimigos, assim como os hipocondríacos também ficam doentes". Essa frase, brilhante e preciosa, é de autoria da professora Maria Lucia Baltazar. 

Isso quer dizer que então, se eles têm inimigos ou doenças, eles não são doentes? Justamente o contrário. Eles continuam doentes, mesmo e apesar de, em algum momento, terem razão. Porque a doença mental, o transtorno, ele acontece dentro da nossa cabeça, não fora. Quando o de dentro está comprometido, a coincidência com o de fora não passa disso, de uma coincidência.

Voltando à questão da pandemia, temos um exemplo histórico que é bastante ilustrativo. Em Viena, em meados do século XIX, o lendário médico Ignaz Semmelweiss notou que havia uma relação entre a morte de gestantes pós-trabalho de parto e as aulas de anatomia. As gestantes assistidas pelos estudantes que saíam da aula de anatomia tinham um índice de mortalidade muito maior do que aquelas que eram assistidas por parteiras. Apesar de na época já se conheceram os microorganismos, não se creditavam a eles um papel nas infecções e doenças.

Semmelweiss concluiu mesmo assim que devia haver relação entre aquilo que ele chamou de "partículas cadavéricas" e a morte das gestantes. Importante notar que até então não havia relação nenhuma entre sujeira e doença. Os médicos dissecavam cadáveres, podres, sem luvas, e daí iam realizar outros procedimentos. Assim era feito tudo no hospital, cheio de sangue, pus, fezes, urina e catarro. 

Claro que as pessoas morriam muito. O que eles propôs foi que simplesmente os estudantes lavassem a mão com um desinfetante entre a aula e o parto. A mortalidade então caiu de 18% para 2%, quase dez vezes, apenas com esse procedimento. Deveria ser aclamado como um gênio revolucionário, mas na verdade foi duramente criticado por seus colegas que o ridicularizavam e o tratavam como um louco. Inclusive porque para o establishment médico era de certa forma incômodo considerarem que eles próprios eram responsáveis pela morte das pacientes por conta de suas patas imundas. Então preferiram continuar matando as pacientes, mesmo contra as evidências, porque lhes parecia melhor assim. Assustador, não?

Nos dias de hoje, onde ainda acontece algo semelhante, mas ao menos as pessoas lavam mais as mãos, fica a dúvida. Estamos exagerando? Em sua coluna, Luiz Felipe Pondé diz acreditar que "os paranóicos e hipocondríacos venceram". Sob certo ponto de vista, sim, como eu afirmei lá em cima, eles vivem seu grande momento. Mas não no sentido de vitória, porque não há uma disputa a ser vencida, mas pela possibilidade de desfrutar do prazer de realizar essas taras de conflito (os paranóicos) e de limpeza e doença (os hipocondríacos). Repito: o fato da doença existir não faz a hipocondria se tornar sanidade.

Mas até quando? Temos por aqui pouco mais de dois meses de isolamento e as pessoas já fervilham de um lado para o outro. A própria angústia sobre quando e como isso tudo termina demonstra que o foco está mais lá, no prazer do porvir, do que aqui, no prazer neurótico da pandemia. Vejo muita gente ansiosa por furar a quarentena, ou mesmo furando, como a Flor do Asfalto, de Drummond, que "furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio". A vida sempre vence.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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