luizsperry http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Mon, 15 Jul 2019 07:00:42 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Depressão pós-parto: porque muitas vezes os sintomas são menosprezados http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/07/15/depressao-pos-parto-porque-muitas-vezes-os-sintomas-sao-menosprezados/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/07/15/depressao-pos-parto-porque-muitas-vezes-os-sintomas-sao-menosprezados/#respond Mon, 15 Jul 2019 07:00:42 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=839

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Não tenho inveja da maternidade
Nem da lactação
Não tenho inveja da adiposidade
Nem da menstruação
Só tenho inveja da longevidade
E dos orgasmos múltiplos.

Não foi à toa que Caetano cantou essa bola. A maternidade não é para qualquer um, muito menos para homens. Diversas mudanças que acontecem dia após dia, com um bebê dentro de você, te impondo de saída uma série de restrições antes mesmo de nascer. É sabido que gestantes são muito sensíveis. Mas eventualmente as coisas ficam piores.

Provavelmente por conta das gestantes serem consideradas sensíveis que os quadros de humor relacionados à gestação e ao pós-parto são complexos. Grande parte dos sintomas são menosprezados como se fosse esperado que a mulher sofresse em decorrência da gestação e, principalmente, das demandas do recém-nascido. Mas a depressão pós-parto, quando ocorre, pode ser devastadora.

Existe uma grande quantidade de fatores que estão relacionados com depressão pós-parto, como: baixo nível sócio-econômico, dificuldades durante a gestação e no parto, dificuldades de relação com familiares ou com o pai da criança, gravidez indesejada, antecedentes de depressão e outros. Somando-se a essas condições as demandas físicas do parto e pós-parto, as variações hormonais intensas causadas pela gestação e aleitamento, surgem os quadros de depressão.

Voltamos então para a velha questão de depressão não é tristeza, depressão não é cansaço. Existe um quadro, chamado de baby blues ou blues puerperal que ocorre em até 80% das mães. Existem alguns sintomas de depressão, como fadiga e/ou irritabilidade, mas não todos para se definir a depressão de fato. Esse quadros podem evoluir para a depressão, que é mais grave e pode impactar na relação mãe-bebê e levar a prejuízo no desenvolvimento da criança.

Por isso é importante estar atento e tratar. Os antidepressivos, apesar de passarem para o leite, são bastante seguros de uma maneira geral. Lembro uma vez, logo que saí da residência, fui trabalhar num posto. Assustado que era, tratei de proibir todas as mães que tomavam antidepressivo de amamentar. Não passou uma semana e as pediatras me esculacharam. Fui pego pelo braço e levado para uma sala onde elas falaram da dificuldade que era para elas conseguir convencer as mães a amamentarem seus rebentos. E eu estava botando tudo a perder. Botei o rabo entre as pernas e pedi desculpa. Ficou a lição de que antidepressivo não é motivo para, necessariamente, interromper a amamentação. E ficou um certo trauma também. Com pediatra não se brinca.

Bem recentemente foi lançado nos EUA a brexanolona, uma medição endovenosa específica para esses casos. Trata-se exatamente de um hormônio sintético, que viria e atenuar os efeitos da variação hormonal intensa após o parto; a ver.
Importante lembrar que talvez o melhor jeito de evitar a depressão na gravidez e pós-parto seja justamente cuidar da mãe e do bebê. Tem coisas que só a mãe pode fazer, mas tem coisas que não necessariamente. Estejamos atentos a isso.

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Por que não podemos simplificar o suicídio? Fatores importantes sobre isso http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/07/08/por-que-nao-podemos-simplificar-o-suicidio-fatores-importantes-sobre-isso/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/07/08/por-que-nao-podemos-simplificar-o-suicidio-fatores-importantes-sobre-isso/#respond Mon, 08 Jul 2019 07:00:11 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=829

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Durante um evento em Aracaju, com a presença do governador de Sergipe e do Ministro de Minas e Energia, o empresário Sadi Gitz ergueu-se da plateia e bradou: “Governador, o senhor é um grande mentiroso!”. Dito isso, sacou uma arma, apontou para a própria cabeça e disparou.

O evento, como não podia deixar de ser, foi amplamente divulgado pela imprensa. Apesar de suicídios ocorrerem a todo momento, não é comum toda essa dramaticidade no desfecho. E foi igualmente rápida a resposta das pessoas, sem nenhum pudor em dizer que o caso era uma “consequência do desespero do empresariado em decorrência da política econômica do governo”, assim como obviamente relacionaram a morte a “quinze (sic) anos de governo petista”. Houve ainda quem tirasse sarro e dissesse algo na linha “coitadinho do empresariado brasileiro”. Em todos os casos é notável como o suicídio, uma vez consumado, gera uma inquietação estranha nas pessoas e as leva a falar essa quantidade enorme de bobagens.

Tenho cá algumas teorias. Em geral as pessoas tendem a se sentir desconfortáveis frente ao inexplicável. A dificuldade das pessoas em manter a boca fechada parece estar relacionada com a inclusão do suicídio nessa categoria. Porque em geral as pessoas têm várias impressões incorretas sobre o suicídio, a ver.

Em geral o suicídio é creditado como uma consequência mais grave de alguém com depressão. Isso não é exatamente incorreto, mas é apenas uma das possibilidades de apresentação do fenômeno. Apesar da forte correlação entre suicídio e doença mental, (principalmente transtornos de personalidade, transtornos do humor e abuso de substâncias), cerca de 10% dos suicidas não apresentam nenhum antecedente psiquiátrico.

Outro dado normalmente desconhecido é que o suicídio ocorre mais em idosos que em pacientes mais jovens. E também é mais frequente em homens do que em mulheres. Os homens inclusive tem preferência por métodos mais violentos e eficazes como enforcamento e uso de arma de fogo (quando disponível). E sim, armas de fogo em geral aumentam o risco de morte por suicídio.

Mas a incidência costuma variar muito de um lugar para outro. Na Grécia a incidência de suicídio é de aproximadamente 5 para cada 100.000 habitantes enquanto na igualmente europeia Lituânia chega quase a 40 casos para os mesmos 100.000 habitantes. Já no Cazaquistão é algo em torno de 30 para 100.000 enquanto no vizinho Irã tende quase a zero. Para efeitos de comparação, no Brasil está em 5/100.000 e a média mundial é de cerca de 15/100.000 (os dados foram compilados em estudo da revista científica The Lancet).

Podemos perceber que há uma grande quantidade de perguntas sem resposta. Ou seja, ainda sabemos muito pouco sobre o assunto. Os dados inclusive não são totalmente confiáveis, pois em muitas culturas o suicídio é visto como algo desonroso, de modo que os dados estão sempre subnotificados. E mesmo nos grupos com alto risco, como pessoas com transtornos de humor, transtorno de personalidade ou com antecedente de automutilação, as medidas de prevenção estão longe de serem satisfatórias.

Suporte psicológico, controle dos meios de suicídio (como armas de fogo ou veneno em casa), acompanhamento médico ajudam, apesar de suas limitações. Políticas públicas, como proteção física em pontes e viadutos ou controle da informação de suicídio em linhas de trem e metrô também estão associados à diminuição da incidência de casos. O uso de medicações psiquiátricas pode ter benefício em alguns casos, como o uso de lítio em pacientes bipolares, mas em alguns podem eventualmente aumentar o risco de suicídio, como o uso de antidepressivos em adolescentes. Ou seja, sair medicando todo mundo indiscriminadamente não é uma boa medida de controle de suicídio, ok?

O suicídio nunca é decorrente de uma única causa. Estão relacionados com a genética, a gestação, a infância, a estrutura familiar, o ambiente social, a cultura, enfim, com toda história de vida da pessoa. Querer simplificar a questão apenas vai levar a mais erros e medidas ineficazes.

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Quando o efeito colateral de um remédio é a alteração do humor http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/07/01/quando-o-efeito-colateral-de-um-remedio-e-a-alteracao-do-humor/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/07/01/quando-o-efeito-colateral-de-um-remedio-e-a-alteracao-do-humor/#respond Mon, 01 Jul 2019 07:00:26 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=823

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Não é todo mundo que sabe, mas antes de ser psiquiatra eu quase fui infectologista. Até hoje tenho uma especial admiração pela arte de caçar e matar os micro-organismos hostis. Inclusive trabalhei alguns bons anos, já como psiquiatra, no mitológico Instituto de Infectologia Emílio Ribas, onde eu podia conciliar as duas paixões.

É interessante pensar nisso retrospectivamente porque foi justamente no Emílio Ribas, durante a residência de doenças infecciosas, que eu provavelmente tive o insight de que a frente de batalha era de fato outra. E é inegável o quanto uma doença física é capaz de adoecer a mente, em especial doenças infecciosas como a AIDS.

Além disso é importante ressaltar que muitas vezes o que fazia mal para a mente da pessoa era o tratamento. Naquela época, no começo do século, o nosso principal vilão era o interferon. Era o tratamento para a hepatite C, longo e sofrido. Os pacientes entravam na sala chorando já. Dores pelo corpo, perda de apetite, insônia. E tudo isso para, ao final de um ano, cerca de um terço dos pacientes não responder ao tratamento e ter que fazer tudo de novo.

Eu pensava então que em breve olharíamos para trás e contaríamos para os novos que “antigamente a gente tratava isso com interferon”. Pois bem, esse dia chegou. Desde 2017 o protocolo de tratamento do Ministério da Saúde adotou os novos tratamentos e o interferon está deixando a vida de quem tem hepatite C para entrar na história. As novas medicações antivirais (como o sofosbuvir, por exemplo) são muito menos prejudiciais e ainda por cima mais eficientes que os tratamentos anteriores. E duram no máximo 6 meses.

No tratamento da infecção por HIV observa-se um fenômeno semelhante. O tratamento de primeira linha durante mais de uma década foi feito com efavirenz. Esse sim um querido da infectologia, já que quando surgiu era muito superior aos tratamentos de sua época. Mas o ponto fraco do efavirez sempre foi sua propensão a causar justamente alterações de humor. A mais comum era transitória, no começo do tratamento. A pessoa muitas vezes relatava pesadelos intensos ou uma instabilidade emocional excessiva. Diferente do interferon, que derrubava as pessoas quase que literalmente, o efavirenz causa em geral mudanças mais sutis, que muitas vezes não são detectadas pelo médico cuidador.

E é justamente agora que surgiu um novo remédio mais potente como primeira linha (o dolutegravir) que fica mais evidente o quanto essas pessoas ficaram deprimidas ao longo desses últimos anos (ou mesmo décadas). As novas diretrizes para o tratamento de pessoas vivendo com HIV permite a mudança para esquemas com dolutegravir mesmo em pacientes com carga viral indetectável.

Claro que isso não é igual para todo mundo. Tem gente que não sente efeito adverso de nada. Como o Sr. Antônio, que era paciente meu no Emílio Ribas. Certa vez perguntei para ele se havia sido muito difícil o tratamento com interferon. Ele já de pé deu risada e disse, vaidoso:

– Que nada doutor, fiquei ótimo! Até o meu cabelo ficou mais liso!

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Antipsiquiatria diz que saúde mental é mito: não concordo, mas faz sentido http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/06/24/antipsiquiatria-diz-que-saude-mental-e-mito-nao-concordo-mas-faz-sentido/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/06/24/antipsiquiatria-diz-que-saude-mental-e-mito-nao-concordo-mas-faz-sentido/#respond Mon, 24 Jun 2019 07:00:30 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=817

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“Saúde Mental é um mito”. Quem diz isso é a professora Bonnie Burstow, da Universidade de Toronto. Ela é uma das principais personalidades de um movimento de décadas chamado de Antipsiquiatria. E ela não tem pudores em dizer que a psiquiatria tem que ser banida.

O que vem a ser a antipsiquiatria? Em última instância é um movimento de crítica à psiquiatria tradicional, que ganhou força principalmente nos anos 1960. Entre as críticas estavam principalmente o uso da psiquiatria como forma de controle social, o poder totalitário das instituições psiquiátricas sobre seus pacientes e a eficácia questionável de seus métodos. Ainda que a professora Burstow não negue a existência do sofrimento psíquico, ela diz que essa classificação e o manejo das supostas “doenças mentais” seria arbitrária e ineficiente.

Talvez seja importante salientar que não compartilho dessa opinião. Mas sem dúvida existe fundamento em uma grande parte das críticas que a antipsiquiatria faz da psiquiatria.

Em primeiro lugar, a psiquiatria é usada, sim, como forma de controle social, ainda hoje. Basta estar atento ao noticiário para ver que a nova legislação de “saúde mental” (olha ela aí) facilita a internação involuntária de pacientes. Considerando-se que não há igual fomento para as outras modalidades de tratamento, fica evidente que a política é de esvaziar as Cracolândias e não fornecer um tratamento de fato para a questão do sujeito. É a psiquiatria fazendo papel de polícia higienista.

Outra questão importante é a da medicalização da psiquiatria. O número de diagnósticos cresceu tanto que hoje em dia é muito difícil se conseguir alguém que não tenha diagnóstico nenhum. Anos atrás, num estudo importante da USP, uma professora precisou de um certo grupo de pessoas consideradas normais para testar uma medicação. O caso virou uma epopeia, pois foram testadas mais de mil pessoas para se conseguir um pequeno grupo de normais, e ficou tão famoso que virou o grupo de “normais” da psiquiatria e todo estudo que pretendia comparar com “normais” passou a utilizá-lo.

Obviamente todas as pessoas por conseguinte anormais são clientes em potencial, podendo ser medicadas e movimentando uma indústria que envolve bilhões de dólares por ano. Mas ninguém naquele momento pensou: se preciso de milhares de pessoas para separar 50 normais meus critérios devem estar errados. Inclusive o foco que é dado aos tratamentos medicamentosos tende a ser muito maior que a tratamentos não medicamentosos. Sabemos que exercícios regulares três vezes por semana ou exposição ao sol diária são tão eficazes quanto antidepressivos, mas quantos psiquiatras de fato prescrevem esses tratamentos?

Inclusive serve de motor para críticas antipsiquiátricas esse exercício de fé que a psiquiatria demanda ao falar genericamente de “doenças orgânicas”. Ora, o que temos até agora são arremedos de princípios orgânicos surrupiados da farmacologia (bloqueio D2 melhora psicose, aumento de serotonina melhora ansiedade e depressão) mas com lacunas enormes que não podem dar corpo a nada que se pretenda a ser científico de fato.

Lembrando inclusive que próprio fundador do movimento da antipsiquiatria, Ronald Laing, rejeitou o termo. Dizia ele que praticava então a “verdadeira psiquiatria”.

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Você sabe a diferença de impulsividade e compulsão? http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/06/17/voce-sabe-a-diferenca-de-impulsividade-e-compulsao/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/06/17/voce-sabe-a-diferenca-de-impulsividade-e-compulsao/#respond Mon, 17 Jun 2019 07:00:25 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=811

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Hoje um paciente entrou na sala e disse para minha que tinha muitas compulsões. Como já o conhecia há algum tempo corrigi, dizendo que ele não era compulsivo, e sim impulsivo. Ele rebateu dizendo que era compulsivo sim e acabou havendo uma breve e acalorada discussão acerca dos termos utilizados. O que prova que eu estava certo e ele era, de fato, impulsivo.

Existe uma certa confusão conceitual quando tratamos daquilo que chamamos de compulsão. Muitas vezes estamos na verdade falando de algo que é referente não a uma compulsão, mas a algo relacionado a nossa impulsividade e vice-versa.

Não é uma diferença muito gritante, inclusive as palavras têm uma raiz etimológica comum. Ambas se referem inicialmente a uma alteração do comportamento, ou seja, são coisas que a gente faz. E ambas se referem a atividades sobre as quais nós não temos controle, pelo menos não totalmente. Pode-se dizer que são em alguma instância sintomas de perda de controle.

Mas existem diferenças. Quando falamos de compulsão, a primeira relação que fazemos, e não por acaso, é com o famoso Transtorno Obsessivo Compulsivo. Que é uma doença geralmente composta por uma série de pensamentos obsessivos que causam grande sofrimento (por exemplo “esqueci o gás ligado”) que leva a um comportamento compulsivo (nesse caso, checar inúmeras vezes se o gás está ligado ou não). Os pensamentos obsessivos podem ser extremamente variados e muitas vezes bizarros, com rituais muitas vezes longos e detalhados. O banho de um obsessivo pode demorar várias horas, já que para estar realmente limpo (segundo a lógica obsessiva) cada parte do corpo deve ser esfregada um certo número de vezes. Obviamente eles acabam por perder a conta no meio do banho e precisam iniciar o ritual tudo de novo.

Já a impulsividade funciona de uma maneira um pouco diferente. O que chamamos na psiquiatria de Transtornos do Impulso são uma série de transtornos diferentes onde a pessoa sente a necessidade urgente de fazer algo que em geral não é de fato adequado de antemão. São exemplos o Transtorno do Jogo, Impulsividade Sexual Excessiva ou Cleptomania. Pessoas que têm uma tendência a transar demais, arriscam muito no jogo e eventualmente correm o risco de serem presas roubando algo de que não precisam.

O leitor atento talvez já tenha percebido a diferença entre as duas situações. Se não entendeu a gente explica. Quando falamos de compulsão, estamos falando de alguém que está numa postura defensiva, tentando se proteger ou afastar algum risco que lhe parece iminente naquele momento. Importante notar que os obsessivos-compulsivos geralmente tem perfeita noção que esfregar quatro ou cinco vezes dá na mesma, ou que já checaram o gás diversas vezes. Mas são incapazes de conviver com a dúvida e o risco, por mais ínfimo que seja.

Os impulsivos por outro lado não conseguem se afastar do risco. Nesses casos, o risco está geralmente associado a uma grande quantidade de prazer. Mas o impulsivo sabe muito bem que seus prazeres desmedidos são ilegais, imorais ou engordam, de modo que frequentemente são seguidos de um sentimento de culpa intenso e mesmo auto-punição.

Não é sempre que as coisas na vida real são tão bem separadas assim como nesses exemplos. Muitas vezes os sentimentos de culpa, medo e prazer estão presentes em ambos os casos, e tudo isso pode aparecer ainda dentro de outro quadro maior, como uma depressão ou uma crise maníaca. Na dúvida, pergunte ao seu psiquiatra e reze para ele não escrever um textão como eu só para provar que tinha razão.

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Entenda porque a felicidade é um conceito superestimado http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/06/10/entenda-porque-a-felicidade-e-um-conceito-superestimado/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/06/10/entenda-porque-a-felicidade-e-um-conceito-superestimado/#respond Mon, 10 Jun 2019 07:00:00 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=804

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Recentemente tive a felicidade de saber que foi relançada toda a coleção do “Príncipe Valente”, pela editora Planeta DeAgostini. É uma obra de quadrinhos finíssima, que marcou minha infância, de modo que li e reli cada volume compulsivamente ao longo desses anos. Quando releio essas histórias consigo lembrar exatamente do que senti nas outras vezes em que as li, décadas atrás.

Mas aí você talvez esteja se perguntando porque o blog de psiquiatria está nessa nostalgia de velhos quadrinhos. É que tem uma história em particular que tem tudo a ver com psiquiatria, mais ainda com psicanálise. É uma história na qual o Valente se mete com a bruxa Horrit, que é meio que sua amiga, mas nem tanto. A bruxa resolve ler seu futuro e diz que enxerga muitas aventuras e acontecimentos grandiosos, mas nenhuma felicidade. Para alegria da bruxa, que era um pouco sádica, Valente sai do casebre dela sem eira nem beira, perturbado pelas previsões de infelicidade.

Por conta disso, o príncipe vai bater na porta de ninguém menos que Merlin, que como sempre é o cara. Conta para ele as previsões e solicita uma ajuda, um contra-feitiço ou algum conselho que consiga salvá-lo dessa sina terrível. Merlin, psicanaliticamente, dá de ombros. O príncipe insiste, e o mago perde a paciência: “Felicidade! Felicidade! Todos querem felicidade, mas apenas uma tartaruga deitada ao sol sabe realmente o que é felicidade!”.

Ou seja: você é um cavaleiro, o que mais você pode querer senão glória e eventos grandiosos? Felicidade pra que? Não foi à toa que essa sequência permaneceu gravada na minha memória por tantos anos. Uns anos atrás me lembrei dela numa sessão de análise, quando meu analista, que era um tipo de Merlin me cortou dizendo: “Luiz, o conceito de felicidade não serve para muita coisa aqui nesse espaço”.

Mas que diabo seria essa felicidade que todos querem e não serve para nada? A não ser talvez, para as tartarugas? Não é uma pergunta qualquer, é possível passarmos um longo tempo discutindo esse conceito. Existe um ramo da psicologia que é justamente a ciência da felicidade. Eles tentam avaliar quais são as dimensões do bem estar e em que medida elas estão ligadas àquilo que podemos chamar de “felicidade”.

Mas se a gente olhar de perto, sempre vamos voltar no ciclo de falta, angústia, desejo, satisfação. Por exemplo, pense numa pessoa infeliz. A imagem emblemática de pessoas tristes muitas vezes é associada a alguém que perdeu alguém ou algo. Alguém que tem um amor não correspondido, por exemplo. A infelicidade se dá nesse momento pela falta. Essa falta gera um processo de angústia, de sofrimento. Esse sofrimento leva ao desejo de estar com a pessoa, para que o sofrimento diminua e, se de fato dá certo (com essa pessoa ou com outra) temos uma situação de satisfação que talvez se assemelhe a uma experiência de felicidade. Ou seja, o que chamamos de felicidade é, em parte, realização de desejos.

Volto então à imagem da tartaruga ao sol. Essa tartaruga, via de regra, tem apenas um desejo, que é se manter quentinha, e ele está realizado. Do ponto de vista existencial, podemos dizer que a tartaruga tem todos os seus desejos realizados, isso sim seria a felicidade. E veja bem, ela só conseguiu porque é um só. Quando temos muitos desejos e metas diferentes, a chance de nos sentirmos muito incomodados e angustiados é muito maior, tendo em vista que estaremos sentindo falta de muito mais coisas. E essa é a pegada da nossa vida de hoje em dia: carro novo, celular 5G, corpo perfeito, bens de consumo, noites de sono, tantas possibilidades de sexo. Tanta coisa a um toque de distância, tanta coisa que não temos.

A resposta a isso é óbvia. Se tantos desejos levam a tanta frustração e a tanto sofrimento, não faria sentido diminuirmos nossa expectativa e reduzirmos o desejo a algo próximo da tartaruga, de modo que nos contentemos apenas com os raios de sol? Essa é uma mentalidade próxima do pensamento budista e de outras religiões orientais. Não é à toa a imagem do monge ascético meditando sorridente. Por outro lado o que nos mantém vivos e ativos é justamente nossa capacidade desejante. O que seria de nós, não fôssemos inconformados e sonhadores?

Porque existe apenas um momento no qual todas as angústias desaparecem, assim como todos os desejos. E a esse momento não chamamos felicidade. Esse momento chama morte. É a única hora na qual não precisamos de mais nada. E apesar de ser perturbador, é digno de nota saber que existe algo dentro de nós que nos leva para isso. Sabe quando a gente para pra pensar e percebe que estamos jogando contra nós mesmos? Então, é isso.

Pessoalmente, prefiro continuar com a humilde satisfação dos meus pequenos desejos. Histórias em quadrinhos, tocar violão, abraçar nossos filhos. E ok, um feito grandioso de vez em quando não faz mal a ninguém, certo?

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A psiquiatria é uma ciência e seu debate se faz com dados e com democracia http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/06/03/a-psiquiatria-e-uma-ciencia-e-seu-debate-se-faz-com-dados-e-com-democracia/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/06/03/a-psiquiatria-e-uma-ciencia-e-seu-debate-se-faz-com-dados-e-com-democracia/#respond Mon, 03 Jun 2019 07:00:41 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=796

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Existem algumas desavenças no campo científico que dividem quem trabalha com doenças mentais. Um exemplo claro disso é a origem dessas doenças. Quase todo mundo quer saber a causa, por que de uma hora para outra surgem as crises e o sofrimento. É um pouco desalentador dizer que a gente não sabe, mas na verdade a gente não sabe mesmo. Assim como a gente não sabe exatamente como surge a hipertensão, o diabetes e a grande maioria das doenças que nos aflige.

Mas podemos sem dúvida fazer teorias. A psicanálise, que tanto se debruçou sobre a questão da origem das doenças mentais, tem como teoria fundamental que as doenças surgem como resultado do processo de formação do aparelho psíquico. Ou seja, o sintoma vai surgir como uma resposta a um ou mais eventos geralmente relacionados à infância, onde o psiquismo ainda incipiente do bebê foi construído, principalmente através das relações que aquele bebê estabeleceu com os pais.

Para isso a psicanálise se valeu diversos estudos, principalmente de relatos de casos diversos. Isso instigou toda uma resposta contrária do meio científico, dizendo que relatos de casos seriam insuficientes para elaborar uma teoria que possa abraçar todas as doenças mentais. Hoje em dia temos inclusive a questão que nos parece tão óbvia da importância de determinantes genéticos, que eram quase que inexistente um século atrás, décadas antes da própria estrutura do DNA ser desvendada (mas não da genética como ciência, de fato).

À luz desses novos conhecimentos, perceberam-se novas possibilidades além das psicanalíticas (e tantas outras não-psicanalíticas que sempre existiram e ainda existem), que cito aqui exclusivamente por afinidade pessoal. O impacto da neurociência substituiu os mantras da psicanálise por um outro mais simples: é tudo orgânico. Segundo esse mantra a depressão teria uma causa orgânica, assim como a esquizofrenia, o TOC, a doença de Alzheimer ou a tricotilomania. Não se sabe exatamente o que seria isso, mas seria questão de tempo até que os bravos neurocientistas encontrassem a proteína ou o gene responsável por cada doença. E consequentemente o remédio que resolveria a praga de uma vez por todas.

Mas algumas décadas se passaram e mesmo com muitos milhões de pessoas ao redor do mundo tomando medicações psiquiátricas o número de suicidas continua aumentando. E não surgiu nenhum esclarecimento definitivo sobre o que de fato ocorre quando ficamos doentes. Continua sendo tudo achismo.

É claro que quando surge um trabalho que mostra que antidepressivos e ECT (eletroconvulsoterapia) podem de fato aumentar o número de sinapses no cérebro de pacientes com depressão e de fato restabelecer uma rede que foi rompida, isso deixa a gente animado. Mas isso é uma prova? Ainda não, isso é um indício, uma pista. Tem muito chão pela frente e é assim que a ciência evolui, a partir de dados e debates.

Daí sou obrigado a falar do assunto que eu não queria falar. Mas enfim, a culpa não é minha se quase toda semana o governo se comporta de forma grotesca, para dizer o mínimo. Voltou à pauta a questão do grande estudo feito pela FioCruz a respeito do uso de drogas no país. Como não é segredo para ninguém, o governo vem escondendo dados de uma pesquisa que foi encomendada por ele mesmo. Como não temos acesso à pesquisa toda, fica difícil debater o que de fato ocorre. Mas segundo Osmar Terra, ministro da Cidadania, pasta responsável pelas políticas de controle de drogas no país: “eles insistem em dizer que não há uma epidemia de drogas no Brasil”. Ou seja, o ministro toma uma posição pessoal sua como verdade, senta em cima do maior estudo já feito sobre o assunto no país, simplesmente para não admitir que sua posição não se sustenta cientificamente.

Isso é justamente o contrário do debate científico que venho falando. A ciência e o desenvolvimento surgem do debate aberto e democrático. Quando o debate é abafado para uma posição cientificamente insustentável prevalecer, não há mais ciência. É um funcionamento de seita, onde os dogmas e achismos preponderam sobre as evidências. Não me surpreende que esse mesmo ministro queira repassar 150 milhões de reais para as chamadas comunidades terapêuticas, instituições de tratamento de dependência química geralmente ligadas a instituições religiosas. Só não confunda isso com ciência.

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Tarja preta e vermelha: entenda por que os remédios são classificados assim http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/27/tarja-preta-e-vermelha-entenda-por-que-os-remedios-sao-classificados-assim/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/27/tarja-preta-e-vermelha-entenda-por-que-os-remedios-sao-classificados-assim/#respond Mon, 27 May 2019 07:00:37 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=782

Crédito: Arte UOL/VivaBem

“Nossa doutor, o senhor nem parece psiquiatra”. Já perdi a conta de quantas consultas começaram com essa frase. Nas primeiras vezes confesso que fiquei um tanto desapontado. Mas com o tempo percebi que era um possível elogio. No imaginário popular, parece que os psiquiatras têm uma aparência soturna e misteriosa, ostentam longas barbas brancas e falam pouco, geralmente de forma enigmática. Ah sim, e são desde sempre idosos.

Isso é um pequeno exemplo de como a prática psiquiátrica continua cercada de mistérios e tabus. Numa época em que a psiquiatria tem um enorme protagonismo na vida das pessoas e na saúde pública, ainda é assim. Mesmo com uma exposição midiática enorme, milhões de pessoas tomando medicações, suicídio em números quase epidêmicos, psiquiatras no rádio, TV e internet, uma parte enorme das pessoas ainda reluta em se consultar com esses profissionais e a usufruir de serviços de saúde mental em geral.

Um dos mitos mais frequentes diz respeito à medicação. Muitos pacientes têm pavor às famigeradas medicações de “tarja preta”. Como se esses remédios fossem necessariamente os mais fortes, reservados àqueles casos sem solução e esperança. Tomar medicação de tarja preta seria uma antessala do hospício, de onde então eles nunca mais voltariam.

Isso não é verdade. As tarjas são uma regulamentação das medicações por parte da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que é o órgão responsável pelo nosso controle farmacológico. Existem basicamente duas: as tarjas vermelhas e as pretas. Nas vermelhas está escrito: venda sob prescrição médica. A grande maioria das medicações psiquiátricas são de tarja vermelha, como antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores de humor. Em geral, são vendidos apenas se o paciente portar receita dupla e uma delas ainda fica retida na farmácia.

Já nas tais tarjas pretas pode-se ler: o abuso desta medicação pode causar dependência. Os principais representantes são, sem dúvidas, os benzodiazepínicos, como diazepam, clonazepam ou alprazolam. Mas ainda ostentam a tarja preta psicoestimulantes, como os moderadores de apetite anfepramona e femproporex, e mesmo medicações que a gente não usa na psiquiatria, como morfina e fentanil (que são analgésicos). São todas drogas que podem, em maior ou menor grau, causar dependência.

Entretanto, existem, curiosamente, drogas que escapam dessa classificação, por falta ou excesso de zelo. Alguns psicoestimulantes, como o metilfenidato e a modafinila não causam dependência, mas são de tarja preta.

Há alguns anos havia um antidepressivo chamado amineptina, vulgo Survector, que causava dependência e era controlado de tarja preta também. A sibutramina tem uma estrutura de antidepressivo, mas como é utilizada como moderador de apetite também recebeu o mesmo tratamento. Já a oxicodona, que é um opioide potente com diversos casos de dependência e mortes nos EUA (mas que não teve grande sucesso no Brasil), é de tarja vermelha. E o caso mais estranho de todos: o indutor de sono zolpidem. Em doses de 5mg, 6,25mg e 10 mg, é de tarja vermelha. Mas o comprimido de 12,5mg pede receita azul e leva a temida tarja preta.

Ironicamente, a enorme parcela de pacientes dependentes de remédios controlados é justamente a que mais se afasta do estereótipo de louco, segundo o senso comum. São pessoas que tiveram um problema de insônia ou ansiedade em algum momento da vida e foram medicadas de forma talvez pouco cuidadosa ao longo de anos a fio.

De minha parte, posso dizer: não temam os psiquiatras. Apesar dos meus esforços, a barba tem crescido grisalha e a aparência está de fato mais soturna. Mas é puro truque estético. Se há alguém que geralmente tem cautela com os remédios controlados somos justamente nós.

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Ansiedade pode surgir em diversas situações; saiba mais sobre ela http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/20/ansiedade-pode-surgir-em-diversas-situacoes-saiba-mais-sobre-ela/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/20/ansiedade-pode-surgir-em-diversas-situacoes-saiba-mais-sobre-ela/#respond Mon, 20 May 2019 07:00:08 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=776

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A ansiedade é sem dúvida o sintoma psiquiátrico mais presente nas pessoas. E aí podemos elencar tanto as pessoas que sofrem de algum transtorno mental quanto as pessoas que não os têm. Muitas pessoas têm sintomas mas não tem uma patologia de fato estabelecida, ouso dizer a maioria.

Mas não existem os chamados Transtornos de Ansiedade? Sim, essa é uma confusão possível. Existe um grupo de doenças mentais que é chamado de Transtornos de Ansiedade, entre os quais os mais importantes são: Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Transtorno do Pânico e as fobias (como Fobias Específicas ou Fobia Social). Nesses quadros a ansiedade não apenas é um sintoma presente como ela em geral é o elemento central da doença.

Isso não quer dizer que ela não apareça em outras situações. Depressão quase sempre traz junto bastante ansiedade, psicoses idem. Perturbações do sono são causa (ou consequência) de muita ansiedade, assim como distúrbios alimentares. E o que seria a fissura dos dependentes químicos, senão uma ansiedade brutal relacionada à falta da droga?

Pois bem, mas como eu ia dizendo, a ansiedade também aparece em outras situações que não são necessariamente relacionadas com doença. Mesmo situações positivas, como a expectativa pela chegada de um bebê, ou a iminência de uma viagem podem ser fatores desencadeantes. Além dos óbvios e prosaicos perrengues do dia a dia, como problemas de grana, trânsito ou trabalho.

Mas esse sintoma é o que exatamente? Como podemos definir ansiedade? A ansiedade é um grande deslocamento da nossa energia para um, ou mesmo vários, objetos específicos. E isso não é necessariamente ruim. No caso da viagem, por exemplo, se você não se preocupar o suficiente com ela, você corre o risco de perder a hora do vôo, esquecer ítens básicos e botar tudo a perder. Ou seja, uma certa quantidade de ansiedade é fundamental para que a gente consiga ter uma boa qualidade de vida.

Mas se esse deslocamento de energia é grande demais, o nosso sistema psíquico não consegue dar conta e a energia meio que transborda. Quando a energia transborda ela começa a ter efeito no corpo. Por isso que os assim chamados transtornos de ansiedade têm como característica marcante uma grande quantidade de sintomas físicos, acompanhados claro, de uma angústia mental intensa.

É muito frequente a confusão do que é angústia e do que é ansiedade. Via de regra podemos dizer que a angústia é o sofrimento psíquico por excelência. E ela pode surgir inclusive sem nenhum sinal de ansiedade, assim como uma ansiedade intensa ou prolongada pode levar à sensação de angústia em graus variados. Já a ansiedade é uma forma do sujeito interagir com a realidade, com aquilo que está em volta da gente.

Não deixa de ser digno de nota a percepção de que as doenças antigamente tinham um enfoque muito maior na questão da angústia, enquanto hoje em dia vemos um recorte que leva em consideração a ansiedade como fator principal. Seria isso resultado da superficialização das relações e da subjetividade de nosso tempo?

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A paquera virtual substitui a angústia do rompimento pela do desencontro http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/a-paquera-virtual-substitui-pela-angustia-do-rompimento-pelo-desencontro/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/a-paquera-virtual-substitui-pela-angustia-do-rompimento-pelo-desencontro/#respond Mon, 13 May 2019 07:00:46 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=762

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Dizia o Tweet: “uma coisa que nunca consegui entender direito; como é que o homem hétero tranca o Instagram, sai xavecando estranhas e acha que vai comer alguém?”. Confesso que quando li isso fiquei um pouco confuso. Perguntei para a autora da postagem se era exatamente isso que ela queria dizer, o lance de “trancar o Instagram”, cadeadinho e tal, e ela disse que era isso mesmo. Processei a informação: homem hétero precisa ter Instagram aberto se quiser comer alguém.

Isso vem de encontro com um fenômeno que tenho percebido no meu consultório. Nos últimos anos tem sido muito difícil estabelecer uma relação qualquer à margem das redes sociais. Meus pacientes mais jovens, mas não só eles, têm se queixado cada vez mais que não conseguem conhecer ninguém fora das redes sociais. E quando as pessoas acabam por se conhecer ao vivo o resultado, evidentemente, é muito decepcionante. 

O resultado disso parece ser uma quantidade de gente cada vez mais à margem de um relacionamento afetivo legal. Temos que convir que os novos meios digitais possibilitam uma série de encontros que antes seriam inusitados. Mesmo com os desencontros decorrentes disso, a própria busca já tem um efeito que por si só é benéfico, que é justamente afastar a pessoa da solidão. Mais que as perdas e o sofrimento, é a solidão que realmente faz a gente adoecer. Mas essas novas relações tem algumas peculiaridades que muitas vezes impedem que o romance siga em frente.

As angústias da relação, dos rompimentos e reconciliações são substituídas cada vez mais pelas angústias dos desencontros. O que era para ser um elemento que ia permitir uma quantidade maior de encontros e, consequentemente, de amor, muitas vezes vira fonte de decepções em sequência.

A velha dança do acasalamento, que começava por uma conversa banal do tipo : “oi, vem sempre aqui?” foi substituída por um jogo pós-moderno cheio de nuances ocultas. “Ele adicionou meu Insta, curtiu três fotos, mas quando chamei ele no privado demorou HORAS para me responder. Aí fiquei revoltada, porque vi que ele ficou online VÁRIAS vezes e ainda por cima curtiu o story da minha prima. Dei unfollow na hora!”. Pesado.

Não sou tão antigo assim, mas confesso que para quem nasceu nos anos 70 ainda é um pouco estranho que as relações passem tão distantes da linguagem falada. Quando eu pergunto porque ela ficou horas esperando ele responder uma mensagem e não ligou simplesmente para a pessoa para saber se ela estava interessada em fazer alguma coisa o resultado é geralmente algo entre o espanto e a incredulidade. Como se eu tivesse sugerindo que ela cortasse uma orelha e mandasse pelo correio como prova de amor.

Mas mesmo os colegas de labuta não estão livres desse drama do nosso Zeitgeist. Não tem muito tempo uma colega psicanalista, brilhante sob todos os aspectos, com mestrado e tudo, estava se descabelando por conta da falta de qualidade dos homens com os quais tinha se encontrado num aplicativo. Quando sugeri que talvez fosse o caso de tentar encontrar homens de outra maneira, ela virou uma fera:

-E onde tem homem hoje em dia que não no aplicativo?

O engraçado é que antes de existir o aplicativo essa mulher era bastante desenvolta socialmente e nunca se queixou de dificuldade para encontrar quem quer que fosse. Pelo menos para ela, deu certo. Logo encontrou um cara maravilhoso, no aplicativo, namoraram e casaram. Estão esperando seu primeiro filho. Como vocês podem ver, às vezes funciona.

Mas sem dúvida essa realidade impõe novos desafios; em parte para mim, que preciso entender como as pessoas se relacionam. Mas principalmente para vocês leitores, que precisam ir além do Instagram bloqueado para encontrar alguém que valha a pena de verdade.

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