luizsperry http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Mon, 21 Oct 2019 06:00:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Meditação veio para ficar porque funciona mesmo http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/10/21/meditacao-veio-para-ficar-porque-funciona-mesmo/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/10/21/meditacao-veio-para-ficar-porque-funciona-mesmo/#respond Mon, 21 Oct 2019 06:00:03 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=937

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Podemos dizer que a meditação está na moda novamente. O que é algo estranho de se colocar, pois as práticas meditativas, originárias da Índia, já têm uma história de mais de seis mil anos. Da Índia foi para China, Japão e, em algum momento, espalhou-se pelo ocidente.

Sempre existiram momentos de aproximação e afastamento entre as culturas orientais e ocidentais. Lembrando de cabeça, sem nenhum rigor histórico, lembro que Alexandre, quando expandiu o seu império às portas do subcontinente indiano, assimilou vários elementos da cultura oriental à cultura grega. Depois, na Idade Média, os cruzados quebraram o imobilismo feudal em suas tentativas de conquistar a Terra Santa. As viagens de Marco Polo à China, assim como as rotas marítimas para o Oriente, botaram a Europa novamente em contato com esses elementos culturais.

A última que me vem à cabeça é o movimento hippie nas décadas de 1960 e 1970. O que era algo de fato underground, ligado a círculos muito restritos, ganhou proporções de fenômenos de massa. Ioga, tai chi e diversas outras práticas se tornaram quase comuns em grande parte do mundo ocidental. Eventualmente com algum conflito, como se pode ver na série Wild Wild Country, mas em geral houve uma boa assimilação. É evidente que grande parte das pessoas permanece cética a esse respeito, mas algumas resolveram pesquisar o que poderia justificar o efeito dessas práticas, ou não.

Aquilo que chamamos de meditação é uma série de práticas que tem como finalidade estabelecer uma situação de concentração profunda e autoconsciência, geralmente associada a exercícios posturais e respiratórios. Com essa história tão longa é evidente que existam diversas vertentes, em geral ligadas a preceitos religiosos, mas na prática há pouca variação entre elas. Como me disse um professor certa vez: “Meditar é sentar e ficar quieto”. E por mais que pareça meio besta, só quando a gente tenta que percebe que é relativamente complicado. Porque o corpo senta, mas a cabeça não para. Aí que entra a tal da técnica, para fazer com que a cabeça vá aquietando também.

O que a ciência ocidental fez foi padronizar tudo com o nome de mindfulness, de modo que os estudos sejam mais facilmente comparáveis, além de dar um apelo comercial maior para aqueles que possam ter alguma aversão a orientalismos. E os resultados são, de fato, surpreendentes.

As conclusões mostram eficácia em diversos quadros de doenças mentais (ansiedade, depressão) ou tabagismo. Mesmo em questões difíceis de se abordar, como a prevenção do suicídio, houve evidência positiva na eficácia de mindfullness.

Estudos de imagem mostram que mesmo um processo breve de oito semanas de mindfulness pode causar alterações estruturais em regiões cerebrais de maior importância, como o córtex pré-frontal, a ínsula e o hipocampo; percebe-se um aumento no volume dessas regiões. Em outras palavras, o cérebro fica “marombado”.

É um pouco assustador para nós médicos imaginar que um exercício de poucos minutos diários possa modificar não só o funcionamento como a própria forma do cérebro, um órgão que, em princípio, só vai atrofiando e piorando sua função ao longo dos anos. Não é por acaso que o mercado de meditação nos EUA movimente uma fortuna, havendo, inclusive, uma série de aplicativos para ajudar na prática de meditação e relaxamento.

Isso sem falar nos benefícios físicos, como controle de doenças cardiovasculares, dores crônicas e doenças inflamatórias. Parece que a moda dessa vez vai demorar para passar.

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Psicanálise serve para quê? Método investiga o inconsciente http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/10/14/psicanalise-serve-para-que-metodo-e-o-unico-que-investiga-o-inconsciente/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/10/14/psicanalise-serve-para-que-metodo-e-o-unico-que-investiga-o-inconsciente/#respond Mon, 14 Oct 2019 07:00:50 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=928

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Para quem tem um olhar atento, não é difícil perceber dentro dos meios psicanalíticos libelos e manifestos “em defesa da psicanálise” ou ainda “a resistência da psicanálise” contra sabe-se lá o que a possa estar atacando. Alguns são muito bem elaborados, como as colocações da sempre afiada Elisabeth Roudinesco. Outros, nem tanto. Mas, utilizando as palavras dela mesma, para que a psicanálise?

Bem, já me foi pedido inúmeras vezes um post que falasse de todas as psicoterapias e suas principais diferenças. Estou escrevendo nesse espaço há dois anos já e ainda não fiz a tal postagem, entre os motivos porque não me sinto confortável para escrever de outras linhas de psicoterapêuticas que não a psicanalítica. Eventualmente sou criticado, com muita razão, por não fazer o devido alarde sobre as maravilhas do behaviorismo ou outro método terapêutico qualquer. De fato, não é minha especialidade e se não comento é mais por ignorância que por maldade.

Pairam sobre a psicanálise críticas em várias frentes. Suas hipóteses não seriam comprováveis. Seus modelos não podem ser amplamente replicados. Seus efeitos não são suficientemente objetivos. E são críticas fundamentadas. Mas a vantagem maior do método psicanalítico é propor um método de investigação único de algo que é fundamental no funcionamento humano, que é o inconsciente.

O inconsciente está presente em nossas vidas o tempo todo. Somos fortemente influenciados por questões inconscientes nas nossas decisões, desde as mais corriqueiras até as mais solenes. E essas questões, por serem em princípio inconscientes, obviamente nos escapam numa leitura mais superficial. 

Mas a psicanálise se desenvolveu em torno justamente de como encontrar os traços sutis do inconsciente nas pegadas daquilo que percebemos, ou seja, o consciente. O inconsciente se manifesta, ele chega a gritar. Ele aparece nos sonhos mais bizarros, ele aparece na doença mental e seus sintomas, ele aparece nos hábitos repetitivos. Pode surgir também no senso de humor e nos curiosos atos falhos, quando a gente troca uma palavra e entrega o pensamento que queria esconder.

A investigação não para por aí; ela avança e recua no tempo, coisas que considerávamos esquecidas muitas vezes ressurgem de outra forma e adquirem um novo significado. Daí sem dúvida que surge aquela figura caricata do analista que fala ao paciente: “Conte-me da sua infância”. Na verdade ele não precisa falar isso; se estiver atento, vai perceber que a infância sempre teima em aparecer no processo de análise. Ou em alguns casos, teima em ser escondida.

O inconsciente aparece inclusive nas relações, com pai, mãe, namorado e claro, analista. Ninguém é poupado. Sabe aquela mania de se relacionar sempre com o mesmo tipo de pessoa? Então, é o inconsciente operando, procurando algo sem saber exatamente o quê. 

Mesmo assim, é um método incerto, errático, trabalhoso, demasiadamente humano, enfim. 

A leitura psicanalítica cabe inclusive fora do ambiente de consultório. Podemos fazer leituras psicanalíticas da sociedade, das outras ciências, de praticamente tudo.

Numa época em que tudo que é ciência humana vem sofrendo ataques e sendo sistematicamente desvalorizado, não é de se estranhar que essa área peculiar, pendurada entre as ciências humanas e a clínica médica, venha a ser questionada duramente. Em sua defesa podemos dizer que o que ela faz ninguém mais faz. Se existe um método de investigação do inconsciente ou é psicanálise ou é derivado dela.

E não, não vou escrever sobre todos os métodos terapêuticos.

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Antidepressivos funcionam? A pergunta é mais complexa do que parece http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/10/07/antidepressivos-funcionam-a-pergunta-e-mais-complexa-do-que-parece/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/10/07/antidepressivos-funcionam-a-pergunta-e-mais-complexa-do-que-parece/#respond Mon, 07 Oct 2019 07:00:53 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=923

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A ciência médica é baseada em dogmas, assim como a ciência psicanalítica. Acreditamos que certos pressupostos são verdadeiros para podermos executar nossa prática em direção ao outro. Mas se não questionássemos com certa regularidade esses pilares do conhecimento não teríamos ido muito além da teoria dos humores de Hipócrates, com seus fluídos coloridos de mais de 2000 anos atrás.

Hoje em dia chega a ser herético o questionamento da eficácia dos medicamentos psiquiátricos. Eu mesmo não consigo de fato me imaginar exercendo a psiquiatria sem o meu arsenal de substâncias tão preciosas. Por outro lado não é demais pensar que estamos sob pressão constante da indústria farmacêutica para prescrever mais remédios e remédios mais caros, muitas vezes para pessoas que simplesmente não precisam deles.

Pois bem, um novo trabalho científico da Dinamarca torpedeou seriamente um pilar central dessa estrutura. O artigo, publicado no conceituado British Medical Journal, questiona o quanto os antidepressivos são de fato mais eficientes do que o placebo. Como se sabe, para se provar se determinado remédio serve ou não, muitas vezes ele é testado em comparação com pílulas falsas, sem a substância dentro. Como o paciente não sabe se existe a medicação de fato, muitas vezes ele melhora somente por acreditar que está tomando o remédio. Esse é o chamado “efeito placebo”. E ele é tão poderoso que muitas vezes acaba por ser equivalente à própria medicação que está sendo testada.

Não é de hoje que sabemos que os antidepressivos nunca tiveram vida fácil em comparação com o placebo. Os benefícios só começam a ficar evidentes em grandes estudos com grande quantidade de pacientes testados. O que o estudo agora mostra é que mesmo nos grandes estudos a diferença talvez seja muito pequena ainda. Entre vários possíveis vieses, saliento aqui dois deles.

Em primeiro lugar uma crítica em relação à suposta superioridade do placebo é a respeito do que é chamado de “placebo run-in”. O que seria isso? É uma fase antes do estudo começar, onde os pacientes recebem placebo por um curto período de tempo e, se melhorarem, são eliminados do estudo. Isso mesmo, só entra no estudo quem não mostrou uma resposta ao placebo antes. Isso obviamente pode levar a uma distorção dos resultados a favor da substância testada e contra o placebo.  Não é uma norma; pode ser utilizado ou não a critério do pesquisador.

Outra crítica importante é que muitas vezes as pesquisas que mostram pouca efetividade do remédio testado simplesmente não são publicadas. É muito mais interessante publicar “novo remédio trata depressão” do que “nova molécula fracassa e empata com placebo”. Desse modo, quando fazemos as grandes revisões científicas, aparecem muito mais trabalhos positivos do que negativos na literatura.

Mesmo com todos esses vieses, a diferença encontrada entre o placebo e os antidepressivos foi de 1,97 pontos numa escala de 52. Isso mesmo, em 52 pontos possíveis pela escala de depressão, os antidepressivos chegaram menos de dois pontos à frente. Isso é muito pouco, digno de VAR para se tirar a dúvida, meia chuteira à frente.

Isso não significa que eu vá parar de prescrever antidepressivos, nem inclusive parar de trabalhar com a psicanálise, mais carente ainda de evidências científicas que a psiquiatria. Mas é bom para a gente manter o senso crítico e pensar se de fato estamos fazendo a escolha certa em cada caso.

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A doença imaginária pode ser um transtorno real http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/30/a-doenca-imaginaria-pode-ser-um-transtorno-real/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/30/a-doenca-imaginaria-pode-ser-um-transtorno-real/#respond Mon, 30 Sep 2019 07:00:33 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=915

Eu tinha mais ou menos uns 10 anos quando fui assistir ao Doente Imaginário de Moliére. Já era um evento coberto de expectativas, pois era uma peça encenada pelo bombástico Grupo Ornitorrinco, que alguns anos antes havia provocado um tsunami na minha geração infantil com o sucesso estrondoso de Ubu Rei alguns anos antes.

A peça não decepcionou. Era sobre Argan, um senhor assombrado por problemas de saúde intermináveis e, consequentemente, sua relação com os médicos que tentam ajudá-lo ou lhe passar a perna. Ainda me lembro do grande momento onde Argan desce à platéia em busca do seu olho, que foi perdido. Revira as bolsas das senhoras até que exclama triunfante: Achei meu olho! 

O Doente Imaginário é talvez a maior expressão de um transtorno mental que chamamos de hipocondria. Na hipocondria, via de regra, a pessoa acredita que tem alguma doença ou algum problema de saúde que simplesmente não existe. E isso obviamente leva a uma busca por profissionais e serviços de saúde incessante, além de causar um grande desgaste físico ou emocional para o paciente e para a família.

Nem todas as hipocondrias são iguais; enquanto alguns se fixam numa doença específica, outros passam por diversos sintomas e prováveis diagnósticos. Ou então enquanto alguns são bastante sem sentido e quase pueris, outros são muito convincentes e de fato confundem até mesmo os médicos mais experientes. Inclusive porque o hipocondríaco pode inclusive ter alguma doença real, que vai se misturar com a hipocondria e levar a um quadro bastante complexo.

Podemos dizer que quanto à sua estrutura, as hipocondrias seguem duas vertentes. A primeira é mais obsessiva, onde o paciente não consegue conviver com a possibilidade da dúvida de uma certa doença. Um exemplo que acho bastante ilustrativo é um quadro que podemos chamar de “disforia sorológica”, muito frequente em populações com alta vulnerabilidade para HIV e outras ISTs. A pessoa realiza testes sorológicos de forma compulsiva porque sempre acha que pode ter se contaminado mesmo tendo tomado todas as precauções cabíveis para evitar o risco. O diálogo improvável fica mais ou menos assim: 

-Acho que posso estar com HIV, estou com medo.

-Mas você transou sem camisinha?

-Não! De jeito nenhum!

-Chupou, algo assim?

-Não Dr!

-Você não está inclusive tomando PREP?

-Estou.

-Esqueceu algum dia?

-Não.

-…

-Mas doutor…vai que…

Aí está. Mesmo a chance sendo zero a pessoa não consegue se livrar da dúvida, e essa dúvida a corrói por dentro.

Já nas vertentes psicóticas o quadro é dominado por uma grande certeza. A pessoa tem certeza de determinada doença e em geral tem uma explicação para isso. Lembro-me bem de uma senhora que vivia às turras com um “bicho” que haveria supostamente se alojado atrás de seu ombro e teimava em lhe causar um grande desconforto. Num dia de humor mais sombrio perdeu a paciência e resolveu tirar o bicho a qualquer custo. Pegou uma faca de cozinha e partiu em sua busca através da própria carne. Após retalhar o próprio ombro, desistiu e foi ao PS ser socorrida e tomar vários pontos para fechar o talho. Mas nem por isso se deu por vencida. Creditou o fracasso não a um equívoco anterior, mas sim à esperteza do bicho, “que se escondeu quando viu a faca”. 

Hoje em dia a classificação vigente abandonou o termo hipocondria, que inclusive quer dizer “embaixo da cartilagem” e de fato não ajuda muito no esclarecimento da doença. Foi substituído então por Transtorno de Ansiedade por Doença que é mais específico mas ainda pode dar margem a interpretações outras.

Ironia do destino, gostei tanto da peça que hoje cuido justamente dos hipocondríacos. Não posso falar pelo pobre Argan, mas eu de fato achei meu olho.

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Serotonina é famosa por trazer bem-estar, mas também possui outras funções http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/23/neurotransmissores-sao-conhecidos-por-uma-funcao-mas-tambem-possuem-outras/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/23/neurotransmissores-sao-conhecidos-por-uma-funcao-mas-tambem-possuem-outras/#respond Mon, 23 Sep 2019 07:00:41 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=908

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Existe uma imagem, muito popular na internet, que mostra o que seria uma vesícula cheia de serotonina sendo carregada através do neurônio por uma proteína transportadora. Não sei se de fato a imagem original de fato tem essa finalidade, mas a imagem da proteína transportadora de serotonina é chamada de “a imagem da felicidade”.

Em geral a gente, quando pensa em neurotransmissores, tende a relacionar cada um a um tipo de função que ele exerce no cérebro. Isso nos leva a algumas distorções, pois não é bem assim que a coisa funciona. Existem muitos neurotransmissores, que são em geral moléculas que servem para os diferentes neurônios se comunicarem entre si. Nós temos bilhões de neurônios que fazem trilhões de conexões entre si. Ou seja, não é um exagero você imaginar que as relações dos neurônios no cérebro sejam tão complexas quanto todas as relações humanas no mundo em que vivemos.

Dada essa complexidade imensa, conseguimos ter acesso a apenas uma parte desse funcionamento e é virtualmente impossível mapear todos neurônios e cada conexão que eles fazem. Provavelmente nosso conhecimento sobre o assunto está mais próximo do tosco que do avançado na maior parte das áreas neuropsíquicas.

Mas após meio século de desenvolvimento intenso das neurociências, algumas funções dos neurotransmissores estão bem estabelecidas. A serotonina é um transmissor importantíssimo na regulação do humor e do afeto, assim como a noradrenalina é fundamental em respostas primitivas de luta ou fuga e outras funções vitais. Não é de se surpreender que o cérebro de cães selvagens apresentem um predomínio de vias adrenérgicas, enquanto cães domésticos, praticamente idênticos geneticamente, tenham um predomínio relativo de vias serotoninérgicas.

Já a dopamina está mais relacionada a estados de euforia e de prazer, ao chamado ciclo de prazer-recompensa. Isso é um conhecimento que se deve em parte ao fato de muitas drogas de abuso que conhecemos serem drogas com efeito dopaminérgico, como cocaína, MDMA, metanfetamina e afins. As medicações para o TDAH, tão em voga hoje em dia, também são dopaminérgicas.

Só que a dopamina também é o neurotransmissor ligado a certos tipo de movimento, assim como à produção de prolactina e consequentemente, leite materno. Assim como a serotonina pode estar ligada à digestão e às funções sexuais. De modo que medicações antipsicóticas, que são bloqueadoras dopaminérgicas, podem causar tremores e surgimento de leite; medicações antidepressivas, que são serotoninérgicas, podem causar vômitos ou disfunção sexual.

Freud dizia nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, que o objeto do desejo sexual não é pré-determinado e sim variável. É assim também a função de um neurotransmissor. Por mais que em determinado lugar ele sirva para determinada função, nada impede que em outro local ele tenha outra função, ou mesmo uma função inversa à função original.

Ou seja, os neurotransmissores não estão ligados a uma função cerebral fixa; eles estão ligados a várias funções diferentes em diferentes lugares, são como um tipo de língua. Você pode pensar no português como “a Língua de Camões” ou no latim como a língua das sagradas escrituras. Mas o português serve para várias coisas que não os versos, assim como o latim serve para várias coisas que não a Bíblia. Bem, na verdade nem tanta coisa assim, mas já serviu em outros tempos, não?

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Crises de pânico passam e não deixam sequelas, mas é preciso tratar a causa http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/16/crises-de-panico-passam-e-nao-deixam-sequelas-mas-e-preciso-tratar-a-causa/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/16/crises-de-panico-passam-e-nao-deixam-sequelas-mas-e-preciso-tratar-a-causa/#respond Mon, 16 Sep 2019 07:00:31 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=902

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A cena era frequente. Entrava uma mulher, jovem pela emergência, normalmente em maca ou cadeira de rodas, trazida por um acompanhante muito aflito que gritava com todos em volta reclamando da nossa falta de atenção. Era um Deus-nos-acuda no pronto socorro. Mas desde muito cedo a gente aprende a identificar, pelo bater das pálpebras e pelas mãos contraídas: era uma crise de pânico.

Em geral ficávamos, nós, tomados de um sentimento de ultraje. Estávamos no PS para “salvar vidas” e entrava a paciente causando aquele furor, como uma tempestade, sem deixar pedra sobre pedra na sala de emergência. Monitorizada a paciente, uma ampola de diazepam depois, tudo voltava ao normal.

Toca a gente a explicar que aquilo era uma crise de pânico e a pessoa, imediatamente mais calma, dizer que já tinham falado isso para ela, mas ela não acreditava, como é que podia, ela SENTIA o coração disparado. Ela inclusive já tinha ido em 400 cardiologistas, neurologistas e afins e feito TODOS os exames e tinham todos dado normais, como é que era possível.

Pois é, é assim mesmo. Os exames não mostram nada, mas a doença mostra tudo. 

Do ponto de vista neuropsiquiátrico existe um jogo entre duas regiões do cérebro. O córtex pré-frontal e a amídala. Essa amídala cerebral é o centro que dispara essas reações primitivas, de ansiedade extrema, que por sinal são muito adequadas a situações de fato extremas. Não confundir com a amídala que existe na nossa garganta e não serve para muita coisa além de proporcionar amidalites e fazer sofrer.

Já o córtex pré-frontal serve, entre outras coisas, para controlar essas respostas exageradas e conseguir planejar soluções menos radicais. Ou seja, durante uma crise de pânico temos uma diminuição da atividade pré-frontal e um aumento da atividade da amídala.

Essa resposta parece ter muitas vezes um sentido. Não é de se estranhar que a crise de pânico seja tão mobilizadora, ela é um pedido muito determinado de ajuda. Sendo assim, não faz sentido passar despercebida ou ser discreta. A crise obriga a pessoa a parar de fazer tudo que está fazendo e procurar um serviço médico. Ela vem carregada da simbologia mais forte que existe: um risco iminente de morrer. Causa um incômodo que podemos comparar com o choro de um bebê. Se os bebês chorassem baixinho ninguém viria acudí-los.

A parte boa da estória é que a crise de pânico não mata ninguém. Apesar do desconforto imenso, ela passa sem deixar sequelas. Geralmente responde bem ao tratamento com antidepressivos, mas atenção! Ela tem uma causa, que deve ser tratada. Não adianta tomar o remédio e continuar fazendo as mesmas coisas do mesmo jeito. Senão ela volta.

Ao menos hoje em dia quando vejo uma crise de pânico a minha reação é bem mais simpática. Penso que vai passar e, em última instância, aquela vida vai ser salva.

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Em tempos de fake news tão enraizadas, a recusa da realidade se torna comum http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/09/em-tempos-de-fake-news-tao-enraizadas-a-recusa-da-realidade-se-torna-comum/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/09/em-tempos-de-fake-news-tao-enraizadas-a-recusa-da-realidade-se-torna-comum/#respond Mon, 09 Sep 2019 07:00:54 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=894

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Uma das questões centrais do debate social e político que temos acompanhado é aquela que se dá a respeito da verdade. Lembro de uma fala genial de Arnaldo Jabor, anos atrás, que falava que “hoje não há mais respeito, não digo pela verdade, mas não há respeito nem pela mentira!”. Foi profético. Mal sabia ele que a verdade e a mentira jamais seriam as mesmas.

Em geral as pessoas mentem o tempo todo. Nosso comportamento civilizatório exige que nós filtremos nossos pensamentos e desejos o tempo todo para que possamos conviver entre os nossos semelhantes de maneira harmônica, ou ao menos aceitável. Isso em si não é necessariamente um problema, embora seja importante a gente considerar que,  toda vez que a gente mente, a gente enlouquece um pouco as pessoas. Porque elas vão acabar tomando por verdade algo falso e isso em algum momento vai se chocar com a realidade. Por exemplo, se você fala com a pessoa “estou chegando” e na verdade você está saindo, passado um certo tempo a pessoa pode começar a ficar angustiada porque você ainda não chegou. Pode pensar que houve um acidente, assalto, desmaio e sabe-se lá o que mais. 

Essas pequenas mentiras tem como finalidade quebrar certos galhos no curto prazo, são “pedaladas mentais” que, se utilizadas com muita frequência, podem obviamente trazer outros problemas, como a perda da sua credibilidade a falta de paciência das pessoa em ter você por perto.

Mas a mentira atual, profetizada por Jabor há mais de 10 anos, é de outra natureza. É a mentira colocada de forma tão categórica que abala a nossa própria certeza da realidade. Isso acontece porque o nosso Eu tem que lidar com pressões diversas, vindas de todos os lados. Para isso o Eu utiliza diversos recursos, os chamados “Mecanismos de Defesa do Ego”. E um dos mecanismos que está mais voga hoje em dia é a Recusa.

A recusa é um processo no qual o Eu, confrontado com uma ameaça proveniente da realidade, recusa a própria existência da realidade. Incapaz de aceitá-la, que é sempre dura e nos impõe limites muitas vezes insuperáveis, o Eu simplesmente apaga os traços da realidade que lhe são dolorosos. Hoje em dia, é comum ver pessoas falando abertamente em ideias delirantes que incluem “marxismo cultural” e “ideologia de gênero”. São exemplos óbvios de pessoas que têm uma profunda dificuldade de aceitar que a realidade de 2019 é muito diferente daquilo que elas imaginaram que deveria ou poderia ser. Apagam então a realidade e a substituem por um complô bizarro (que sempre acaba passando por George Soros e terraplanismo em algum momento).

Quando alguém fala “mas e o PT?”, está num processo de recusa, porque essa frase significa: considerando-se que a cada dia o governo se demonstra mais desastroso, eu vou ignorar todos os fatos e falar do PT para desviar o assunto. Assim como o reverso da moeda é igualmente verdadeiro. Quando o PT, confrontado com diversas evidências de corrupção gritava: “mas é só caixa dois!”, também estava num processo de recusa (como se caixa dois não fosse crime).

E vemos ao vivo o preço de se utilizar a recusa de modo insistente e exaustivo: perda de credibilidade e falta de paciência das pessoas em te ter por perto.

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Amazônia e você, tudo a ver: natureza é aliada de nossa saúde mental http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/02/amazonia-e-voce-tudo-a-ver-natureza-impacta-nossa-saude-mental/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/09/02/amazonia-e-voce-tudo-a-ver-natureza-impacta-nossa-saude-mental/#respond Mon, 02 Sep 2019 07:00:31 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=888

Queimadas na Área de Proteção Ambiental Jamanxim, em Novo Progresso (PA) – Foto: Victor Moriyama / Greenpeace

Fogo na Amazônia! Não se falou de outra coisa nessas últimas semanas. Dessa vez a questão extrapolou as fronteiras nacionais e virou uma questão internacional, tema de reunião do G-7 inclusive. Disso podemos imaginar que a questão da relação do homem com a natureza seja algo bastante relevante em qualquer situação.

O ser humano vive em desarmonia com a natureza desde sempre. É muito difícil para nós, com a nossa consciência e cultura, lidar com um elemento da realidade que carregue esse grau de imprevisibilidade. Originalmente, em condições mais primitivas, morríamos de medo desses fenômenos. Era comum o sacrifício de animais e até mesmo de humanos, no intuito de tentar apaziguar os desígnios insondáveis da natureza.

Logo depois, fomos ficando mais ousados. Passamos a desafiar a natureza, e o que antes era ameaçador passou a ser algo a ser derrotado. Ainda hoje milhares de pessoas se dedicam ao esporte de matar animais que antes nos eram ameaçadores, como em safaris na África, touradas em Madri ou mesmo na nossa Farra do Boi.

Por outro lado, procuramos sempre intuitivamente estar perto da natureza. Nas férias em geral acabamos viajando para a praia ou para o campo. Ou mesmo na cidade, observamos que as áreas mais arborizadas ou próximas a parques públicos são sempre mais valorizadas que as regiões mais cinzentas.

Ao menos do ponto se vista de saúde mental, isso faz bastante sentido. Uma bela pesquisa feita na Universidade de Exeter mostrou que o contato das pessoas com a natureza está relacionado com a sua saúde mental. Mais que isso, com a saúde como um todo. As pessoas que tinham um contato com a natureza de ao menos duas horas semanais mostravam não só menores níveis de depressão e ansiedade, mas também menos problemas de hipertensão ou diabetes. Os benefícios referentes à saúde mental inclusive continuam aumentando conforme aumenta o tempo de contato com a Mãe Natureza.

Esses estudos vão de acordo com a estatística geral, que mostra que os níveis de doença mental nas grandes cidades em geral é maior que aqueles do campo. O que não quer dizer que o contato com a natureza por si só resolva todos os problemas de saúde mental. Um exemplo nesse sentido é a altíssima taxa de suicídio entre algumas populações indígenas aqui mesmo no Brasil.

Embora uma grande parte das pessoas tenha já se atentado ao fato de que é insustentável viver nesse planeta produzindo tanto lixo e queimando combustível fóssil, ainda tem bastante gente que vive em algum lugar do século XX (ou seria XIX?), onde o progresso está relacionado a grandes indústrias queimando carvão e florestas derrubadas “em nome do progresso”. Somos agora oito bilhões de pessoas no planeta e o tempo de agir com irresponsabilidade ficou para trás; ao menos impunemente.

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As dificuldades de cada geração http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/08/26/as-dificuldades-de-cada-geracao/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/08/26/as-dificuldades-de-cada-geracao/#respond Mon, 26 Aug 2019 07:00:05 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=882

Não é de hoje que existe uma nova onda na psiquiatria. Existe uma quantidade assustadora de quadros graves, particularmente em pacientes jovens. E esses quadros por sua vez apresentam um funcionamento diferente do que seria o esperado. É como se essa atual geração pós-millenial, com todas as suas particularidades, também adoecesse de uma maneira igualmente peculiar.

Temos historicamente descrições de transtornos psíquicos muito antigas,  que ainda hoje podemos correlacionar com doenças atuais. No Papiro de Kahun, de 1900 a. C., os egípcios descreviam supostos casos de histeria e mais ainda: correlacionavam os sintomas a um suposto deslocamento do útero. Hoje sabemos que essa concepção está errada, mas ela perdurou por 3.900 anos até que pudesse ser refutada.

Mas o importante é que quadros atuais, como psicoses, depressões e histerias já estavam presentes na humanidade há milênios. Por outro lado, cada época acaba por propiciar, por questões culturais e ambientais, que uma doença se torne mais frequente enquanto outra se torna mais rara. Por exemplo, a própria histeria, que era muito frequente há pouco mais de um século, hoje em dia não se vê com tanta facilidade. Por outro lado, aquilo que hoje chamamos de Transtorno do Pânico vem se tornando mais e mais comum a cada ano.

Voltemos então aos pós-millenials, também chamados de Geração Z, que são basicamente pessoas nascidas entre 1995 e 2005. Os estudos demonstram que eles em geral têm mais problemas  de saúde mental que as outras gerações anteriores tiveram. São mais depressivos, ansiosos e insatisfeitos de uma maneira geral. Em alguns grupos a automutilação chega a níveis epidêmicos. E isso fica mais enigmático se a gente considerar que,  ao mesmo tempo, essa geração bebe menos, fuma menos e se droga menos que as gerações anteriores.

Não é preciso ser muito criativo para perceber que existe aí uma questão desadaptativa desse grupo. As condições no meio levam a uma mudança nos indivíduos, que em princípio, não estão adaptados para aquela determinada mudança. Mais um exemplo banal. Com os frequentes períodos glaciais e de aquecimento global, os humanos acabavam por migrar para o norte e para o sul, com o objetivo de fugir das temperaturas extremas, conforme migravam para o norte, a pele negra passava a ser uma desadaptação à nova realidade, pois atrapalhava a síntese de vitamina D e reduzia a fertilidade do grupo. Conforme migravam para o sul, passava a ser uma vantagem por proteger melhor do sol que a pele branca.

Mas isso é uma característica física que acabava por ser selecionada naturalmente ao longo de várias gerações. Como pode um grupo sofrer um processo desadaptativo de uma geração para a outra? Lembrei então de um livro chamado Geschichte eines Deutschen (História de um Alemão, sem tradução para o português), de Sebastian Haffner. Ele conta sua própria história, até fugir da Alemanha nazista nos anos 30. É muito interessante a descrição que faz da ascensão do Nacional-Socialismo, principalmente da adesão dos liberais ao movimento em nome do anticomunismo. Ele usa uma frase que diz que “nós somos formados como perfeitos cidadãos para uma época que já passou”. No caso dele, todos seus conhecimentos de um jovem burguês prussiano do início do século e sua formação como advogado pouco valor tinham frente aos horrores da guerra que se iniciava. 

Ou seja, a adaptação é muito mais cultural que biológica. Somos formados para uma época que passou. Eu mesmo, passei uma boa parte da minha infância treinando a minha letra em cadernos de caligrafia. Datilografia era um conhecimento específico. Pois bem, sou hoje essa criatura semi-adaptada. Se por um lado não passo a vergonha de certos colegas médicos com seus famigerados garranchos ilegíveis ( e a minha letra só foi considerada bonita umas duas ou três vezes na última década, por pacientes evidentemente perturbados), por outro digito com dois dedos de maneira bastante sofrível. Esse post, por exemplo, levou um tempo imenso para ser digitado, acredite você.

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Vivemos a “era do ego”, mas isso não é necessariamente ruim http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/08/19/vivemos-a-era-do-ego-mas-isso-nao-e-necessariamente-ruim/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/08/19/vivemos-a-era-do-ego-mas-isso-nao-e-necessariamente-ruim/#respond Mon, 19 Aug 2019 07:00:17 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=877

Crédito: iStock

Tem alguns anos já que me deparei com uma pichação curiosa no muro:

– MORTE AO EGO!

A palavra de ordem era forte. Tive que gastar alguns segundos na interpretação do chamado e cheguei a conclusão de que uma grande injustiça estava sendo cometida naquele espaço urbano. A culpa definitivamente não era do Ego.

O que o autor do picho provavelmente queria dizer era: “Morte a essa sociedade atual, onde o individualismo predomina sobre as relações humanas! Morte a essa sociedade onde o sujeito se fecha em condomínios e muros cada vez mais altos e intransponíveis, de modo a segregar o outro ao invés de celebrar a união! Morte a esse mundo onde os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade não são mais do que palavras ao vento ou cores em velhas bandeiras! Morte ao capitalismo burguês que coisifica as pessoas e as destrói, como meras engrenagens supérfluas de uma máquina monstruosa que não pode jamais parar!”. Mas provavelmente, por uma questão de concisão e pragmatismo, demonstrou todo seu poder de síntese e tascou: “Morte ao Ego” mesmo.

Em primeiro lugar, é importante dizer que o Ego não existe. Quero dizer, não existe concretamente, como as plantas, os tijolos ou seu pâncreas. O que chamamos de Ego é uma abstração, criada pela psicanálise e depois reproduzida por outras áreas das ciências. Inclusive Ego já é uma espécie de nome artístico, já que na descrição original em alemão o nome da coisa é Ich, ou seja Eu, em tradução literal.

No conceito psicanalítico, o Ego/Eu é um dos componentes do nosso aparelho psíquico, junto com o Id e o Superego (também chamados de Isso e Supereu, no original Es e Überich). Esses termos descrevem alguns tipos de locais na mente onde ocorrem determinados tipos de eventos psíquicos.

O Id por exemplo, é o local onde nascem os desejos inconscientes. Nem dá pra chamar exatamente de desejo, já que são sensações ainda muito primitivas. É como se fosse um grande balaio de sentimentos, sem forma e sem etiqueta. As coisas no Id não respeitam a nossa lógica nem a nossa temporalidade. Um jeito interessante de ilustrar isso é pensar no funcionamento do sonho. É mais ou menos essa a linguagem do Id. E é fundamental pensar que ele é inconsciente por excelência, conseguimos apenas vislumbrar o que se passa lá, mas não perceber realmente.

Já o Superego é uma instância em parte consciente, onde residem os ideais e valores morais. Ele tem a função de corrigir nossos comportamentos e conduta. Quando você pensa: preciso ser assim ou assado, tem o dedo do Superego aí. Quando você se culpa e se condena por determinada ação, é o Superego que te julga e ele é quem executa a pena. Interessante notar que uma parte dessas ações também se dá de forma inconsciente, como recalcamos pensamentos sem nem perceber.

E o Ego nisso tudo? O Ego tem que resolver esse conflito inevitável, entre o Id desejante, porra-louca e faminto e o Superego controlador e severo. Cabe a ele conseguir dar uma forma aos desejos para que eles possam ser realizados, na medida do possível. Isso sem pisar nas linhas traçadas pelo Superego, pois o castigo pode ser doloroso. Para isso o Ego é dotado das nossas tão celebradas capacidades de razão e lógica. É o Ego que consegue planejar e executar ações, pois é aqui que está nossa percepção de tempo e, claro, consciência da realidade.

Não é exagerado pensar que nós vivamos na Era do Eu. É, sem dúvida, a instância mais turbinada da realidade. O que é inconsciente e subjetivo está totalmente fora de moda, coisa de gente de humanas. O Superego, que já reinou em outros tempos, também não é o mesmo num tempo onde um dos imperativos é “você pode tudo”, “tudo está ao alcance de um clique”. O Ego, o grande burro de carga da psiquê, está com tudo hoje em dia. Um sinal disso é o sucesso de coaches e afins, que são em última instância, personal trainers de Ego.

Só que é também o Ego quem sofre. O Id não tem consciência e o Supereu não tem dó de ninguém. Existe uma frase célebre que diz que o Ego serve a três senhores tirânicos. O Id, o Supereu e, não podemos nos esquecer, a realidade. Sim esse Mundão-de-Meu-Deus, que não está nem aí para nossas neuroses e nos manda tempestades, acidentes, frentes frias e boletos para a gente ter que se virar. Quando eu digo a gente quero dizer novamente ele, sim, o Ego. Viva o Ego!!!

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