luizsperry http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Mon, 20 May 2019 07:00:08 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Ansiedade pode surgir em diversas situações; saiba mais sobre ela http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/20/ansiedade-pode-surgir-em-diversas-situacoes-saiba-mais-sobre-ela/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/20/ansiedade-pode-surgir-em-diversas-situacoes-saiba-mais-sobre-ela/#respond Mon, 20 May 2019 07:00:08 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=776

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A ansiedade é sem dúvida o sintoma psiquiátrico mais presente nas pessoas. E aí podemos elencar tanto as pessoas que sofrem de algum transtorno mental quanto as pessoas que não os têm. Muitas pessoas têm sintomas mas não tem uma patologia de fato estabelecida, ouso dizer a maioria.

Mas não existem os chamados Transtornos de Ansiedade? Sim, essa é uma confusão possível. Existe um grupo de doenças mentais que é chamado de Transtornos de Ansiedade, entre os quais os mais importantes são: Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Transtorno do Pânico e as fobias (como Fobias Específicas ou Fobia Social). Nesses quadros a ansiedade não apenas é um sintoma presente como ela em geral é o elemento central da doença.

Isso não quer dizer que ela não apareça em outras situações. Depressão quase sempre traz junto bastante ansiedade, psicoses idem. Perturbações do sono são causa (ou consequência) de muita ansiedade, assim como distúrbios alimentares. E o que seria a fissura dos dependentes químicos, senão uma ansiedade brutal relacionada à falta da droga?

Pois bem, mas como eu ia dizendo, a ansiedade também aparece em outras situações que não são necessariamente relacionadas com doença. Mesmo situações positivas, como a expectativa pela chegada de um bebê, ou a iminência de uma viagem podem ser fatores desencadeantes. Além dos óbvios e prosaicos perrengues do dia a dia, como problemas de grana, trânsito ou trabalho.

Mas esse sintoma é o que exatamente? Como podemos definir ansiedade? A ansiedade é um grande deslocamento da nossa energia para um, ou mesmo vários, objetos específicos. E isso não é necessariamente ruim. No caso da viagem, por exemplo, se você não se preocupar o suficiente com ela, você corre o risco de perder a hora do vôo, esquecer ítens básicos e botar tudo a perder. Ou seja, uma certa quantidade de ansiedade é fundamental para que a gente consiga ter uma boa qualidade de vida.

Mas se esse deslocamento de energia é grande demais, o nosso sistema psíquico não consegue dar conta e a energia meio que transborda. Quando a energia transborda ela começa a ter efeito no corpo. Por isso que os assim chamados transtornos de ansiedade têm como característica marcante uma grande quantidade de sintomas físicos, acompanhados claro, de uma angústia mental intensa.

É muito frequente a confusão do que é angústia e do que é ansiedade. Via de regra podemos dizer que a angústia é o sofrimento psíquico por excelência. E ela pode surgir inclusive sem nenhum sinal de ansiedade, assim como uma ansiedade intensa ou prolongada pode levar à sensação de angústia em graus variados. Já a ansiedade é uma forma do sujeito interagir com a realidade, com aquilo que está em volta da gente.

Não deixa de ser digno de nota a percepção de que as doenças antigamente tinham um enfoque muito maior na questão da angústia, enquanto hoje em dia vemos um recorte que leva em consideração a ansiedade como fator principal. Seria isso resultado da superficialização das relações e da subjetividade de nosso tempo?

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A paquera virtual substitui a angústia do rompimento pela do desencontro http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/a-paquera-virtual-substitui-pela-angustia-do-rompimento-pelo-desencontro/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/a-paquera-virtual-substitui-pela-angustia-do-rompimento-pelo-desencontro/#respond Mon, 13 May 2019 07:00:46 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=762

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Dizia o Tweet: “uma coisa que nunca consegui entender direito; como é que o homem hétero tranca o Instagram, sai xavecando estranhas e acha que vai comer alguém?”. Confesso que quando li isso fiquei um pouco confuso. Perguntei para a autora da postagem se era exatamente isso que ela queria dizer, o lance de “trancar o Instagram”, cadeadinho e tal, e ela disse que era isso mesmo. Processei a informação: homem hétero precisa ter Instagram aberto se quiser comer alguém.

Isso vem de encontro com um fenômeno que tenho percebido no meu consultório. Nos últimos anos tem sido muito difícil estabelecer uma relação qualquer à margem das redes sociais. Meus pacientes mais jovens, mas não só eles, têm se queixado cada vez mais que não conseguem conhecer ninguém fora das redes sociais. E quando as pessoas acabam por se conhecer ao vivo o resultado, evidentemente, é muito decepcionante. 

O resultado disso parece ser uma quantidade de gente cada vez mais à margem de um relacionamento afetivo legal. Temos que convir que os novos meios digitais possibilitam uma série de encontros que antes seriam inusitados. Mesmo com os desencontros decorrentes disso, a própria busca já tem um efeito que por si só é benéfico, que é justamente afastar a pessoa da solidão. Mais que as perdas e o sofrimento, é a solidão que realmente faz a gente adoecer. Mas essas novas relações tem algumas peculiaridades que muitas vezes impedem que o romance siga em frente.

As angústias da relação, dos rompimentos e reconciliações são substituídas cada vez mais pelas angústias dos desencontros. O que era para ser um elemento que ia permitir uma quantidade maior de encontros e, consequentemente, de amor, muitas vezes vira fonte de decepções em sequência.

A velha dança do acasalamento, que começava por uma conversa banal do tipo : “oi, vem sempre aqui?” foi substituída por um jogo pós-moderno cheio de nuances ocultas. “Ele adicionou meu Insta, curtiu três fotos, mas quando chamei ele no privado demorou HORAS para me responder. Aí fiquei revoltada, porque vi que ele ficou online VÁRIAS vezes e ainda por cima curtiu o story da minha prima. Dei unfollow na hora!”. Pesado.

Não sou tão antigo assim, mas confesso que para quem nasceu nos anos 70 ainda é um pouco estranho que as relações passem tão distantes da linguagem falada. Quando eu pergunto porque ela ficou horas esperando ele responder uma mensagem e não ligou simplesmente para a pessoa para saber se ela estava interessada em fazer alguma coisa o resultado é geralmente algo entre o espanto e a incredulidade. Como se eu tivesse sugerindo que ela cortasse uma orelha e mandasse pelo correio como prova de amor.

Mas mesmo os colegas de labuta não estão livres desse drama do nosso Zeitgeist. Não tem muito tempo uma colega psicanalista, brilhante sob todos os aspectos, com mestrado e tudo, estava se descabelando por conta da falta de qualidade dos homens com os quais tinha se encontrado num aplicativo. Quando sugeri que talvez fosse o caso de tentar encontrar homens de outra maneira, ela virou uma fera:

-E onde tem homem hoje em dia que não no aplicativo?

O engraçado é que antes de existir o aplicativo essa mulher era bastante desenvolta socialmente e nunca se queixou de dificuldade para encontrar quem quer que fosse. Pelo menos para ela, deu certo. Logo encontrou um cara maravilhoso, no aplicativo, namoraram e casaram. Estão esperando seu primeiro filho. Como vocês podem ver, às vezes funciona.

Mas sem dúvida essa realidade impõe novos desafios; em parte para mim, que preciso entender como as pessoas se relacionam. Mas principalmente para vocês leitores, que precisam ir além do Instagram bloqueado para encontrar alguém que valha a pena de verdade.

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Maconha é inofensiva? Estudos a relacionam com esquizofrenia http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/06/maconha-e-inofensiva-estudos-a-relacionam-com-esquizofrenia/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/05/06/maconha-e-inofensiva-estudos-a-relacionam-com-esquizofrenia/#respond Mon, 06 May 2019 07:00:03 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=757

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Não foi sem polêmica que surgiu um vídeo do Dr. Drauzio Varella sobre o uso de maconha e seus prejuízos. Na verdade é uma série de vídeos chamada Drauzio Dichava, em que ele faz uma série de entrevistas e considerações sobre aquilo que ele chama de uso adulto da maconha. Não demorou para surgirem entre os médicos e outros especialistas diversas desavenças a respeito, como era de se esperar. Como poucos assuntos, a maconha consegue despertar paixões contra e a favor.

Aproveito para fazer uma reverência ao Dr. Drauzio. Oncologista de formação, destacou-se já nos anos 1980, na epidemia de HIV/AIDS. Inicialmente no rádio, mostrou sua capacidade de comunicação na TV, jornal e agora na internet. Num ambiente eminentemente conservador e muitas vezes reacionário, que é o ambiente médico, defendeu corajosamente posições progressistas como o direito de aborto e a diversidade em geral. Não concordo com tudo que ele fala, mas minha admiração só cresceu através dos anos.

Voltando à questão da maconha, posso dizer que sou de uma geração que cresceu nos anos 1990 escutando o Planet Hemp cantar que “uma erva natural não pode te prejudicar”. Isso obviamente não se sustenta. É público e notório que ervas naturais podem prejudicar ou mesmo matar. Uma quantidade enorme delas é venenosa e é exatamente por isso que a gente não sai por aí comendo ou fumando toda planta que vemos pela frente. Na verdade se a gente pensar bem, só consumimos uma fração bem pequena de todas as plantas que conhecemos.

Mesmo assim não é raro se escutar esse tipo de argumento hoje em dia. Parte do argumento contra a proibição tende a minimizar os efeitos nocivos da maconha. E parte dos argumentos a favor da proibição se apoiam justamente nos mesmos efeitos nocivos da maconha. E quais são esses efeitos?

Apesar de existirem alguns estudos que apontam um risco aumentado de doenças pulmonares e alguns tipos de câncer em quem fuma maconha, o mais importante é o risco de doenças mentais, em especial, esquizofrenia. E como podemos estabelecer essa relação? Bem, a relação entre as doenças só pode ser estabelecida através de estudos científicos, que podem ser realizados de algumas maneiras diferentes. Isso requer atenção a algumas questões técnicas e a outras questões éticas. Por exemplo, no caso da relação entre uso de Cannabis e esquizofrenia, talvez fosse interessante pegarmos dois grupos de adolescentes e darmos uma quantidade de maconha variável a apenas um desses grupos e fôssemos, ao longo dos anos, contabilizando os casos de doença mental e relacionando exatamente à quantidade e frequência desse uso. Seria talvez o melhor jeito de estabelecer uma relação de causa e efeito entre o hábito e a doença.

Mas obviamente está fora de questão, por motivos éticos, que uma pesquisa ofereça maconha para qualquer pessoa, ainda mais adolescentes. Então um outro jeito de se analisar é observar quem fuma e comparar com um grupo que não fuma e ver se tem diferença. Nesse segundo caso entram outros fatores, já que a pessoa vai fumar quantidades variáveis de tipos variáveis, pode misturar com outras drogas e eventualmente mentir ou esquecer. Ou seja, o controle do pesquisador é menor. O que não quer dizer que o estudo seja inválido.

Foi um estudo assim, publicado no final dos anos 1980, que chamou atenção dos pesquisadores. Realizado entre recrutas suecos, mais precisamente 45.570, o estudo mostrou que quem fumava maconha tinha uma chance aproximadamente 6 vezes maior de ter esquizofrenia do que quem não fumava. E já mostrava que quem fumava muito tinha uma chance maior do que quem fumava pouco.

Pois bem, fui atrás então de dados atuais, para ver se os dados são ainda válidos. Achei uma bela revisão de 2018 tratando do assunto. Esse estudo compara 23 estudos prévios e conclui que o risco de esquizofrenia entre usuários de maconha é o dobro de não usuários. Outros trabalhos recentes relacionam também fortemente a quantidade do uso e a incidência da doença. Ou seja, faz diferença sim fumar pouco ou fumar muito.

A partir daí entramos numa outra área. Uma substância deve ser proibida porque tem relação com dano ou doença? Porque AAS tem relação com úlcera, omeprazol e corticoides com osteoporose, benzodiazepínicos com Doença de Alzheimer, anti-inflamatórios com úlcera, anticoncepcionais com AVC, tabaco com câncer, paracetamol com hepatites tóxicas, álcool com cirrose e cardiopatias. Tudo isso legalizado.

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Por que a psiquiatria não olha tanto para o combate ao tabagismo? http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/29/por-que-a-psiquiatria-nao-olha-tanto-para-o-tabagismo/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/29/por-que-a-psiquiatria-nao-olha-tanto-para-o-tabagismo/#respond Mon, 29 Apr 2019 07:00:10 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=749

Crédito: Mari Casalecchi/Arte UOL VivaBem

Apesar do tabagismo ser em última instância uma dependência de substância psicoativa (nicotina), poucas vezes ele é encarado pela equipe de saúde mental como algo a ser combatido frontalmente. Em comparação aos cardiologistas e pneumologistas, estes sim na vanguarda do combate ao tabagismo, os psiquiatras poucas vezes se debruçam sobre a questão com afinco.

Quando eu era jovem, antes do governador José Serra instituir por aqui a lei que proibia que se fumasse em ambientes fechados, era comum que eu chegasse em casa empesteado com cheiro de cigarro. Meu pai torcia o nariz e lamentava o cheiro “de hospital psiquiátrico”. Só fui entender a expressão alguns anos depois, quando de fato passei a frequentar hospitais psiquiátricos. A primeira coisa que me chamou a atenção na velha enfermaria psiquiátrica foi que havia um isqueiro preso a uma enorme corrente no balcão de enfermagem, e os pacientes fumavam continuamente.

Hoje os pacientes não fumam mais livremente, principalmente em locais fechados. Mesmo assim, continuam fumando durante as internações. E existe uma razão para isso. Apesar de reconhecer o tabagismo como algo evidentemente danoso, ele não pode ser abordado em qualquer momento do tratamento de uma doença mental. O tratamento da dependência de nicotina é bastante difícil e muito frustrante. As taxas de recaídas e desistências são enormes.

Soma-se a isso o fato de que se você interromper o consumo de nicotina o paciente provavelmente vai ter um período de aumento importante da ansiedade e piora do estado de humor. Se a pessoa já está com um problema de humor ou ansiedade você vai piorar sua condição de base e colocar todo o tratamento em cheque. Por isso é recomendável abordar o tabagismo somente quando os demais problemas psiquiátricos –como ansiedade, depressão, psicose ou mesmo dependência de outras substâncias estiverem razoavelmente controlados.

Por outro lado, o arsenal terapêutico para se tratar o fumante contumaz não é de todo estranho à nossa prática clínica. Antidepressivos tricíclicos, como amitriptilina e nortriptilina já eram usados antigamente, com resultados modestos. Mais recentemente a bupropiona, outro antidepressivo, tem ocupado papel de destaque. Principalmente se aliada a terapias de reposição de nicotina, geralmente adesivos ou chicletes, chegam a uma eficácia de até 35% em um ano, não é pouco.

Mas o melhor remédio continua sendo a vareniclina, que é uma substância que bloqueia os receptores cerebrais de nicotina. Sua taxa de sucesso não chega a 50% mesmo assim, além de ser bem mais caro que os outros tratamentos. Ou seja: não tem tratamento milagroso para parar de fumar. Mas é importante saber que se houver algum outro problema mental associado, a luta fica bem mais difícil.

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Por que começar a fazer análise? Veja alguns motivos e benefícios http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/22/por-que-comecar-a-fazer-analise-veja-alguns-motivos-e-beneficios/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/22/por-que-comecar-a-fazer-analise-veja-alguns-motivos-e-beneficios/#respond Mon, 22 Apr 2019 07:00:42 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=743

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Estreou recentemente como colunista da Folha a genial Flavia Boggio. E começou justamente falando de um tema tão próximo do meu dia a dia que nem cheguei a falar dele aqui: o fim da análise. Quando a análise embala de verdade é sempre uma dificuldade terminar; a gente se vale dos mais variados pretextos para poder cair fora. Como ela bem coloca na crônica, parece fim de namoro. Passei por isso diversas vezes enquanto paciente, outras muitas como analista, claro. Mas pensei que talvez mais pertinente seja justamente pensar: quando começar uma análise?

Bem, por análise podem incluir aqui todas as psicoterapias, desde as psicanalíticas, de onde eu falo com mais propriedade, até as terapias cognitivas e behavioristas,  que não são análise strictu sensu, mas são psicoterapia à sua maneira. As pessoas vão procurar uma análise, em geral, quando estão com algum problema na vida. Muitas vezes quando estão doentes, da cabeça ou do corpo. Ou simplesmente quando todos os nossos truques, espertezas, habilidades e afins se mostram insuficientes para resolver todo o tipo de tretas mundanas onde nos metemos.

A análise serve para um monte de coisa. No dizer de Contardo Calligaris: “Serve para diminuir ao mínimo possível o sofrimento neurótico e o sofrimento banal, ou seja, reduzi-los ao que é totalmente inevitável; serve para tentar reorientar ou desorientar a vida da gente –desorientar é uma maneira de orientar! Enfim, serve para tornar a experiência cotidiana muito mais interessante. Pensando bem, quase tudo se inclui nessas três coisas”.

Eu incluiria aí também o desenvolvimento de uma série de habilidades tão propriamente humanas, que permitem que a gente consiga tornar nossa existência mais interessante. Não é incomum que a gente reaja às provações da vida de modo um tanto animalesco. E os animais tendem a responder às provações de duas maneiras: ou saem correndo, ou entram numa luta desesperada pela sobrevivência. É luta ou fuga, e essas habilidades persistem no ser humano. Temos um senso de preservação enorme, assim como brigamos mais e melhor que qualquer outro ser vivo que já habitou este planeta. Mas em geral nossa vida fica muito ruim se a gente só consegue brigar ou fugir.

Começa a ficar melhor quando a gente adquire outras habilidades. Fazer alianças, pedir ajuda, ameaçar, blefar, mentir, estabelecer acordos, celebrar, simbolizar, produzir, imaginar, seduzir, convencer e tantas outras coisas são coisas que só o ser humano faz, e é isso que nos torna diferentes dos outros bichos. E a análise é sem dúvida um método fantástico no sentido de desenvolver essas habilidades emocionais.

Claro que tem seus contratempos. Cada dia é mais complicado na logística das grandes cidades, o ir e vir que em princípio a análise exige. É um processo muitas vezes dispendioso e demorado. Mas encerro com um pequeno diálogo que ocorreu certa vez em que fui ao analista. Eu era recém-formado, sem grana pra nada. Ele, um psicanalista renomado, custava os olhos da cara. Não sem constrangimento comentei esse inconveniente. Ele me olhou sério, sem piscar, e disse:

– E o preço de não fazer análise?

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Comunidades terapêuticas podem ser perigosas e não trazer resultados http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/15/o-perigo-das-comunidades-terapeuticas/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/15/o-perigo-das-comunidades-terapeuticas/#respond Mon, 15 Apr 2019 07:00:33 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=735

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Tenho utilizado este espaço com alguma frequência para comentar as mudanças nas políticas de saúde mental que vêm ocorrendo nos últimos anos. Na contramão de parte dos meus colegas, elogiei a reestruturação das unidades de internação psiquiátrica, como elemento necessário ao atendimento clínico. Também defendi a regulamentação da eletroconvulsoterapia (ECT), elemento ainda hoje imprescindível quando se pretende oferecer um serviço de excelência da população. Um elemento porém nas novas diretrizes me deixou com uma pulga atrás da orelha, que foi a questão das comunidades terapêuticas. E o tempo vem provando que infelizmente eu tinha razão.

O governo está anunciando uma mudança na política de combate às drogas. Supostamente o governo estaria baseando sua política de tratamento da dependência química na proposta de redução de danos. Isso é uma meia verdade, já que a implementação de políticas de saúde se faz geralmente em nível municipal, levando a uma série de medidas efetivas bastante variadas. O secretário Nacional do Cuidado e Prevenção às Drogas do Ministério da Cidadania, Quirino Cordeiro Junior diz que essas medidas não vêm apresentando resultados: “Veja o número de pessoas dependentes”.

E até aí tudo bem. Existe, em relação ao tratamento das dependências químicas, uma certa disputa entre aqueles que defendem um maior rigor em relação ao uso de substâncias, que seriam os defensores da abstinência total, e entre aqueles que defendem a chamada redução de danos, que acreditam na possibilidade do paciente ainda usar eventualmente. Não existe nada em literatura médica que comprove que um método seja melhor do que o outro; cada um tem suas vantagens e desvantagens.

O problema é que o governo está propondo a expansão do seu convênio com as tais comunidades terapêuticas. E o que seriam as comunidades terapêuticas? O conceito de comunidade terapêutica surgiu na Inglaterra, nos anos 50. Idealizado pelo psiquiatra Maxwell Jones, era, e ainda é, um conceito extremamente revolucionário. Era um momento onde as instituições psiquiátricas faziam valer a alcunha de manicômios. Eram locais fundamentados em regulamentos rígidos e hierarquizados, cuja finalidade principal era justamente segregar o doente da sociedade. A comunidade terapêutica começou a dar voz aos próprios doentes e aos outros profissionais do serviço, promovendo uma democratização imensa no tratamento clínico. A proposta deixa de ser segregar e passa a ser reintegrar a doente na sociedade.

Pois bem, décadas se passaram, diversos projetos de comunidade terapêutica se espalharam pelo mundo, inclusive aqui no Brasil. Mas o que temos aqui que se denomina “comunidade terapêutica” (CT) não tem nada a ver com aquela comunidade terapêutica democrática. São basicamente pequenas unidades de internação, quase sempre em ambiente rural ou afastadas dos grandes centros. Muitas vezes ligadas a grupos religiosos, são focadas principalmente no tratamento de dependência química. Apesar de serem particulares, muitas vezes estabelecem convênios com o estado e recebem repasses de dinheiro público. Nesse ambiente muitas vezes se repetem os mesmos vícios das antigas instituições psiquiátricas.

O que me chama a atenção é que a regulamentação das CTs prevê que os pacientes se internem lá apenas em caráter voluntário. Ou seja, o dependente não pode ser internado em CT sem o seu próprio consentimento. E ele pode sair quando bem entender. E não pode ficar, em hipótese alguma, sem comunicação com a família. Ressalto esses pontos porque atendo todo dia gente que ficou internada nessas unidades e é muito comum ver gente dizer que foi internado involuntariamente nessas comunidades. Vejo muitas pessoas reclamarem que ficaram dias -eventualmente semanas- sem poder falar com as famílias. Ficaram sem assistência médica. Sem plano de tratamento. Dizendo que foram agredidas ou castigadas de formas absolutamente desumanas.

Não seria exagero afirmar que são pequenos manicômios funcionando sob o radar. Sem dizer que os pacientes não são tratados de fato. Saem da internação sem um mísero encaminhamento para continuar se cuidando. Obviamente recaem na primeira oportunidade e a clínica sugere outra internação. Importante ressaltar que a comunidade terapêutica não precisa ter necessariamente um médico responsável. Cada CT deve “manter uma equipe multidisciplinar com ao menos dois profissionais de diferentes graduações em ciências humanas ou de saúde, com experiência profissional comprovada na área de dependência química”. E mais, não há limite de pacientes. Não fossem entidades sem fins lucrativos seriam uma indústria altamente rentável.

A legislação existe e é bem clara. Falta fiscalização, que cabe ao Ministério Público e outros órgãos competentes. E também à sociedade como um todo. Enquanto muita gente se esgoela contra os hospitais psiquiátricos, as “comunidades terapêuticas” silenciosamente vão se instalando insidiosamente. E ninguém dá um pio.

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Remédios psiquiátricos podem engordar? Entenda como influenciam no peso http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/08/remedios-psiquiatricos-podem-engordar-entenda-como-influenciam-no-peso/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/08/remedios-psiquiatricos-podem-engordar-entenda-como-influenciam-no-peso/#respond Mon, 08 Apr 2019 07:00:58 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=730

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Tem vezes que não nos atentamos para pequenos detalhes da clínica cotidiana e ficamos presos a grandes questões. Tem um ditado meio besta que diz que tropeçamos em pedras, não em montanhas. E ficamos aqui pensando na gênese das questões psicopatológicas, em como as diversas áreas da saúde mental podem se integrar num sistema mais abrangente ou ainda se a psicopatologia seria algo externo ao Eu ou apenas uma questão quantitativa de algo que está presente em nós todos. Aí chega teu paciente na consulta, te olha sério e pergunta: – Doutor, esse remédio engorda?

E então a gente volta para o mundo real, onde as pessoas reais têm suas demandas reais (ou não). E essa questão de engordar ou não é dureza hoje em dia. A pessoa está mal, no fundo do poço, perdeu emprego, saúde e esperança. Mas ai de ti se lhe prescrever um remédio que engorda. Vai ouvir um monte e o paciente não vai tomar o remédio. E se quando o remédio é tomado direitinho o caminho já é tortuoso, sem tomar muitas vezes fica pior. Em última instância estamos falando de gordofobia, porque nesse dilema apresentado acima temos um silogismo que leva à conclusão: prefiro ficar doente e em última instância correr o risco de morrer, frente à possibilidade de engordar.

Pois bem, nessa hora a gente quer que a pessoa tome o remédio e melhore. Podemos responder, cinicamente, que o remédio não engorda mais que um grama por dia, que é o peso do comprimido. Não deixa de ser verdade, mas é uma meia verdade. Afinal, as medicações psiquiátricas engordam ou não?

Como acontece com toda pergunta mais ou menos complexa, a resposta é: depende. Em primeiro lugar é preciso saber que “remédios psiquiátricos” compreende diversas substâncias diferentes entre si e não se pode tratá-las como se fossem uma coisa só. Em segundo lugar é preciso saber que existem diferentes mecanismos de ação farmacológica que levam ao aumento de peso e esses fatores variam imensamente de pessoa para pessoa.

Pois bem, as medicações por si não engordam, claro, mas podem levar ao ganho de peso principalmente por três motivos. Elas podem diminuir o consumo metabólico em repouso. Ou seja, quando você está parado você passa a consumir menos energia que o usual. Você pode ter uma lentificação do trânsito intestinal, com aumento da absorção de nutrientes. E também pode levar a um aumento do consumo de calorias, num processo chamado de sugar craving, que em tradução livre significa fissura por açúcar.

Dentro de uma mesma classe de medicamentos os efeitos podem variar bastante. Entre os antidepressivos, sabemos que os antigos antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina, estão relacionados a um ganho de peso importante, enquanto os novos antidepressivos seletivos, como fluoxetina ou venlafaxina não estão. Mesmo assim não é aconselhável o uso de fluoxetina com a intenção de perda de peso porque em geral os pacientes não perdem peso com fluoxetina (exceto talvez no primeiro mês e em geral recuperam adiante).

Entre os antipsicóticos acontece o contrário. As substâncias mais antigas, como haloperidol e clorpromazina não tinham impacto relevante no peso. Mas tinham efeitos bem mais graves, como os temidos sintomas extra-piramidais, que são basicamente alterações de movimento semelhantes à Doença de Parkinson. Foi então desenvolvida uma nova classe de antipsicóticos que consegue contornar esse problema mas…engorda. As medicações de ponta no tratamento da esquizofrenia hoje em dia, como clozapina e olanzapina são reconhecidamente associadas com grande ganho de peso e contornar isso no dia a dia é bastante desafiador.

Parte desses antipsicóticos mais modernos é utilizada ainda como estabilizadores de humor. Associado a isso o fato de outros estabilizadores de humor como lítio e valproato serem também medicações que podem engordar, temos novamente uma situação complicada no tratamento do Transtorno Bipolar e afins.

Pode reparar que tenho o cuidado de não ser muito categórico no que diz respeito a: “esse remédio engorda, aquele não”. Isso se deve ao fato de que esses efeitos adversos serem extremamente variáveis de pessoa para pessoa. Quando dizemos que um remédio engorda significa que foram analisadas milhares de pessoas que tomaram a substância e elas, na média, apresentaram algum ganho de peso. Conheço gente que engorda um monte com fluoxetina ou escitalopram (outro antidepressivo que não leva a ganho de peso, em princípio) mas também o caso de um paciente querido com esquizofrenia que toma clozapina em dose máxima e não engordou um grama sequer. Voltou a estudar, se formou e está feliz da vida.

Não existe outro jeito de acertar que não tentando. Lembrando ainda que existem diversos métodos de tratamento dos transtornos mentais que não envolvem medicações. Podem usar à vontade, recomendo e faço muito gosto. Não engordam e em alguns casos até emagrecem. Voltemos então às grandes questões.

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Dormimos cada vez menos, e isso traz implicações para a saúde http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/01/dormimos-cada-vez-menos-e-isso-traz-implicacoes-para-a-saude/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/04/01/dormimos-cada-vez-menos-e-isso-traz-implicacoes-para-a-saude/#respond Mon, 01 Apr 2019 07:00:30 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=723

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O sono é o primeiro a ser sacrificado. Entre os estímulos vertiginosos que se apresentam na contemporaneidade, cada vez mais no virtual e menos no real, é bem verdade, o sono vai sendo encurtado por ambas as bordas. Nunca se dormiu tão tarde, embora já se tenha madrugado mais. De fato não vivemos numa época propícia para se dormir.

Não deixa de ser curioso que isso ocorra justamente numa época em que as pessoas saem tão pouco de casa. As supostas comodidades, como os serviços de streaming, tornaram hábitos como o cinema deveras obsoletos. E mesmo um passado próximo, como as locadoras que abundavam até o final do século passado, parece há anos-luz de distância da nossa realidade atual. A cena em que a Capitã Marvel despenca dentro de uma loja da Blockbuster me trouxe uma nostalgia assustadora.

E mesmo a noite, que era uma criança, envelheceu. Os mais novos, que sempre tiveram mais energia e menos compromissos, já não saem tanto como antes. Alguns dizem que a balada está morrendo e a culpa, claro, é dos millenials. Mas estas questões envolvem uma série de fatores sociológicos que as rixas geracionais sempre simplificam de maneira porca. A começar pelo modo que as pessoas se conhecem e interagem entre si. Há pouco mais de 10 anos era muito improvável que as pessoas se conhecessem através da internet ou por aplicativos de celular. Nem havia propriamente aplicativos. Se você queria conhecer alguém tinha que ser na raça. E isso demandava um monte de tempo, dinheiro e álcool. Hoje em dia é impensável sair, beber e dirigir como minha geração fazia. A civilização sempre cobra um preço.

As cidades se tornaram grandes e o transporte não acompanhou. Tudo é um pouco mais longe e mais difícil do que era antes. Mais cheio, mais caro. Não é de se estranhar que as pessoas fiquem cada vez mais tempo dentro de casa. Mas também estão quase sempre conectadas. O fato de passarmos a maior parte do tempo olhando para uma tela bem de pertinho acabou por afetar nosso funcionamento biológico e comportamental. Quase todas as pessoas desenvolveram algum grau de miopia funcional em decorrência do uso prolongado (excessivo?) de dispositivos eletrônicos que fazem com que nossos olhos passem o tempo todo fixando pontos muito próximos a eles.

O nosso sono também se prejudica por isso. Sabemos que a luminosidade no período noturno inibe a nossa produção de melatonina, que é o principal hormônio regulador do sono e do ritmo circadiano. A melatonina é importante não apenas no adormecer, mas também no despertar. De modo que o uso desses aparelhos muito frequentemente leva a uma desorganização da estrutura do sono. Porque não basta dormir. O sono deve ter todas suas fases, incluída ai a fase REM, onde ocorrem os sonhos. Além de dormir, é preciso sonhar.

Sabemos que a produção de melatonina diminui com a idade. Não é de se estranhar pois, que os idosos durmam menos. Não é de se estranhar pois, que com o envelhecimento da população, a qualidade do sono em geral venha piorando. Uma evidência a esse respeito é o consumo brutal de medicações para dormir. E inclusive, suprema graça, da própria melatonina que já não produzimos de forma suficiente. Estamos nos tornando velhinhos insones, ligadaços na tela do celular. E isso não é culpa dos millenials.

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E se a psiquiatria estiver errada e suas doenças não forem só cerebrais? http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/03/25/e-se-a-psiquiatria-estiver-errada/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/03/25/e-se-a-psiquiatria-estiver-errada/#respond Mon, 25 Mar 2019 07:00:19 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=716

Crédito: iStock

“E se a psiquiatria estiver errada?” Esbarrei esses dias nessa provocação deliciosa e pertinente. Apesar de ser crítico da psiquiatria (e não só dela, mas de tudo que há entre o céu e a terra), talvez eu não tivesse me perguntado exatamente sob esse viés mais radical. A questão que se faz é justamente: e se as premissas neuropsiquiátricas da psiquiatria de que as doenças mentais são em última instância doenças cerebrais estiverem, fundamentalmente, erradas?

Essa não é uma questão propriamente nova. A possibilidade de se considerar ou não doenças mentais como doenças cerebrais já vem de longe. É meio que ponto pacífico que nossas emoções e sentimentos são decorrentes em última instância do nosso funcionamento cerebral. Mas a teoria neuropsicológica das doenças mentais pressupõe que cada doença decorra de um (ou vários) processos biológicos específicos que poderiam ser medidos quimicamente ou em última instância por um exame de imagem. E a partir daí, corrigidos com um fármaco específico.

É uma teoria bastante ousada, mas já contemplada por Freud no “Projeto para uma Psicologia Científica” em 1895. Freud não sabia, nem tinha como saber, uma fração mínima do que se sabe do funcionamento neurológico atualmente. Tanto que não conseguiu dar sequência ao seu trabalho, indo por outros caminhos diferentes da neurociência. Hoje em dia o conhecimento do funcionamento de neurônios ( e outros componentes igualmente importantes do nosso sistema nervoso) evoluiu de forma surpreendente. Mas ainda assim é impossível se estabelecer o conceito de doença neuropsiquiátrica como almejado pela psiquiatria atual.

Isso leva a um impasse. Por um lado a psiquiatria excluiu qualquer hipótese psicopatológica que não o conceito de que “doença mental é doença cerebral”. Por outro lado não consegue estabelecer nenhuma correlação mínima de cérebro e doença, substituindo por uma crença quase que mística de que “deve ser orgânico”, “deve ser neuronal”.

É nesse contexto que me deparei com um livro genial “Our Psychiatric Future” (Nosso Futuro Psiquiátrico) de Nikolas Rose, editora Polity Press, ainda não lançado no Brasil. Ele levanta questões que eu acredito serem fundamentais no que se refere às políticas de saúde mentais atuais. Uma das questões principais seriam: com essa quantidade imensa de diagnósticos, que atingem praticamente todas as faixas etárias, bilhões gastos em pesquisa e medicações, milhões de pessoas tomando remédios todos os dias, podemos dizer que chegamos a uma situação melhor atualmente? Se considerarmos que o número de suicídios continua aumentando, será que estamos indo de fato no caminho certo?

Outra coisa que sempre digo, é o fato de, mesmo após bilhões de dólares serem gastos, não há nada nos últimos 30 anos que seja realmente novo na psicofarmacologia. Medicações novas lançadas com algum estardalhaço, como vortioxetina, lurasidona ou a escetamina,  apesar de terem seu valor, estão longe de serem de fato revolucionárias.

E aí entra sem dúvida a questão econômica já que uma quantidade enorme de tratamentos não-convencionais são via de regra relegados a um segundo plano. A ideia é sim de medicalizar e mais, farmacologizar as questões humanas. A resenha do livro cita uma reportagem muito oportuna, que comenta sobre a possibilidade de se criar uma pílula para se tratar a…solidão! É isso mesmo, a que ponto chegamos, não?

Mas, e se a psiquiatria, após todo o conhecimento de neurotransmissores, receptores, plasticidade neural, segundos mensageiros, inositol fostato, GSK 3 beta e o escambau, depois de tudo isso, não puder nos oferecer mais nada? Será que ela vai voltar, como era no início, a flertar com a psicologia, com a psiquiatria social e, quem diria, com a psicanálise, em busca de uma saída diferente?

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Massacre em Suzano, espancamentos e barbáries: afinal, de quem é a culpa? http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/03/18/massacre-em-suzano-espancamentos-e-barbaries-afinal-de-quem-e-a-culpa/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2019/03/18/massacre-em-suzano-espancamentos-e-barbaries-afinal-de-quem-e-a-culpa/#respond Mon, 18 Mar 2019 07:00:55 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=706

Crédito: Suamy Beydoun/Agif/Estadão Conteúdo

Vivemos num tempo difícil. Quando comentar o noticiário muitas vezes se confunde com um blog sobre saúde mental e afins, é certeza que algo incomum está acontecendo. Um espancamento aqui, um homicídio ali, um governante que sempre volta e meia fala algo insano. Agora foi o massacre de Suzano, a loucura na sua manifestação mais aberrante.

Por um lado facilita-me o trabalho de caçar pauta que seja do interesse do leitor. As abordagens são diárias: “você viu? o que eles tinham? Será que era culpa da mãe?”. Todo mundo começa a especular, porque é inadmissível para o ser humano deixar certas perguntas sem resposta. Nem que tenhamos que recorrer ao velho truque de culpar Deus ou o Diabo por aquilo que não nos faz sentido. O fato de duas pessoas entrarem numa escola, matarem todo mundo e se matarem no final não faz sentido.

Urge então encontrar uma justificativa para isso. Ouvimos de tudo por aí em poucos dias. A culpa é do Bolsonaro. A culpa é do desarmamento. A culpa é da família. A culpa é da falta de família. A culpa é da imprensa, que dá muito cartaz para esse tipo de evento. A culpa é do imperialismo americano, que exporta seu comportamento doentio pelo mundo. A culpa é do videogame, cada vez mais onipresente e violento. A culpa é da internet, que expõe as pessoas a conteúdos muitas vezes chocantes e doentios.

Podemos falar que todas alternativas estão certas em parte, mas todas estão erradas em parte. Porque o mais óbvio muitas vezes não é dito, que é o fato que a culpa do massacre é de quem realizou o massacre. Mas também é evidente que o comportamento dos assassinos é notoriamente doentio, tão doentio que eles mesmos não sobreviveram à sua própria loucura. E se existe algo que é fundamentalmente humano a que nós nos apegamos, mesmo nas condições de maior sofrimento, isso é nosso senso de autopreservação.

Mas sem dúvida há, na atualidade, um sentimento de violência que em parte é propagado pelo governo e seus apoiadores. Historicamente a extrema-direita (assim como a extrema-esquerda) sempre foi adepta de uso político da violência. O governo atual foi eleito com um discurso que enaltecia o uso da violência. Criou um pacote de medidas que entre outras coisas, justifica o homicídio em situações de “medo, surpresa ou violenta emoção”. Os autores desse massacre muito provavelmente acreditavam, na sua lógica distorcida, que estavam fazendo justiça. Mas culpar o discurso de ódio do governo de extrema-direita não explica tudo. Inclusive porque todas outras pessoas que vivem sob esse mesmo governo não cometeram massacre nenhum, ao menos não nesses moldes.

Nós também sabemos que a família estruturada e amorosa é um fator de proteção fundamental no desenvolvimento das pessoas. Assim como a exposição a cenas de violência, real ou virtual, abusos e afins, durante a infância, são fatores que predispõe a perpetuação dessa violência na idade adulta. O videogame (que de fato se tornou mais violento), o bullying (que já existia, mas mudou de nome e ganhou requintes de crueldade com o advento da internet) são questões que devem ser consideradas, mas estão longe de serem fatores determinantes numa tragédia dessas.

Os executores dos massacres, se repararmos bem, são sempre homens. Quase sempre jovens, quase sempre brancos. Em geral reclusos e quase sempre emocionalmente imaturos; sexualmente frustrados. O sentimento que relatam (em geral antes, pois é frequente que se matem ao final do ato) é muitas vezes de uma sensação de injustiça, como se o mundo não lhes provesse aquilo a que eles teriam direito. Por serem homens brancos simplesmente. Daí o discurso violento contra mulheres e minorias.

Se há algo que pode explicar, ainda que de maneira muito rudimentar o que se passa com essas pessoas é a própria natureza humana. Existe em cada um de nós uma grande quantidade de violência e destruição, que não some jamais. Ele nunca pode ser extinta, mas pode ser anulada com uma quantidade igual ou maior de amor, nas suas mais diferentes apresentações. Quase sempre nossa energia vital consegue suplantar nossos impulsos mortíferos. Mas tem vezes, devido a nossa vida, genética, família, internet, traumas e afins, que esse processo falha. Como diz a frase bela e terrível de Stephen King: “Monstros são reais, fantasmas também. Eles vivem dentro da gente, e às vezes, vencem”.

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