luizsperry http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Sat, 04 Apr 2020 07:00:55 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Coronavírus: como o isolamento está mudando as pessoas http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/04/04/coronavirus-como-o-isolamento-esta-mudando-as-pessoas/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/04/04/coronavirus-como-o-isolamento-esta-mudando-as-pessoas/#respond Sat, 04 Apr 2020 07:00:55 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1099

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Na semana passada ressaltei como estava grande a moral dos profissionais de saúde, por conta do enfrentamento à epidemia de covid-19. Isso é um fato, porque há um reconhecimento, real de que quem trabalha com isso está incorrendo num grande risco de infecção e morte. Dessa forma, não posso comparar o meu trabalho, no desconforto do meu lar, comparável ao trabalho do front. Sendo assim, é da retaguarda que faço minhas observações.

A quarentena segue, sem previsão de terminar. Mais uma semana que passou rápido para uns, devagar para outros. Parece que a percepção do tempo foi a primeira vítima, os dias de semana tem cara de final de semana e vice-versa. Entrou abril e tudo ainda está com cara de março. Fiz aniversário e nem cantei parabéns. E a notícia ruim é que não tem prazo para acabar, a curva está embicando para cima, vai embicar mais quanto mais pessoas forem testadas. Não existe nenhum epidemiologista sério que possa estabelecer, nesse momento, um prazo para o pico e a queda do número de casos. As pessoas estão ficando asfixiadas pelo desemprego de agora e pela recessão que certamente virá.

Mas existem também, pasmem, as notícias boas. Porque se no começo foi o baque, aquela percepção de “isso não pode estar acontecendo”, agora parece que as ideias e os afetos vão se assentando aos poucos. A minha impressão, pessoal, é que o baque é mais forte porque ele vem justamente numa era onde as questões narcísicas e individuais estão no ápice. Querendo ou não, vivíamos a ilusão de que tudo estava ao nosso alcance. O futuro nos apresentava um horizonte distante, mas possível. 

De repente o desejo pessoal foi completamente solapado e o futuro se tornou radicalmente incerto. Quem estava lá em cima foi arrancado das alturas e jogado numa realidade confinada, em nome do coletivo, algo que estava fora de moda desde o século passado. Até desavenças políticas até então intransponíveis foram colocadas de lado por ora, em nome do bem comum. Dia após dia o ser humano vai mostrando porque triunfou nesse planeta, mostrando sua capacidade assombrosa de adaptação. O desespero inicial que nos tomou de surpresa vai dando lugar a uma resignação áspera, mas adequada. Como disse o quase onipresente Drauzio Varella, “esquece sua vida normal, vai demorar muito tempo para voltar”.

Adapto-me também eu. No início acreditei que seria muito difícil dar conta de toda minha clínica psiquiátrica e psicanalítica à distância. Mais uma surpresa; a demanda aumentou, inclusive de casos novos. Pessoas que vinham de uma situação de fragilidade considerável demonstraram ser capazes de se adaptar à situação de modo invejável. As pessoas estão sendo colocadas à força em contato com seus próprios sentimentos, e quem já faz isso em análise parece que tem estado um passo à frente. 

Agora o Ministério da Saúde resolveu nos convocar, preciso fazer um cadastro. Talvez eu precise ir de fato para o front, todo paramentado de cabo a rabo, atender covid-19 num hospital de campanha improvisado. Cada vez mais pacientes, cada vez menos médicos, a ponto de um psiquiatra ter que atender uma insuficiência respiratória. Que Deus nos proteja.

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Considerações sobre a quarentena: o que observo como psiquiatra nesses dias http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/30/consideracoes-sobre-a-quarentena-o-que-observo-como-psiquiatra-nesses-dias/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/30/consideracoes-sobre-a-quarentena-o-que-observo-como-psiquiatra-nesses-dias/#respond Mon, 30 Mar 2020 07:00:05 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1093

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Não seria possível falar de outra coisa, preso aqui em casa pela necessidade maior de isolamento. Todo psiquismo, o meu, o teu, o de todo mundo, está focado numa coisa só: o que vai acontecer com a gente. Só posso fazer algumas considerações, médicas e mentais, que acho importantes.

Primeira consideração: o confinamento já está deixando as pessoas desesperadas. Essa semana já observei alguns colapsos entre os pacientes que atendo. Gente que estava bem, com pouca medicação ou nenhuma, que tombou devido ao isolamento. Recebi mensagens de madrugada de gente perguntando se podia voltar a tomar o remédio ou fazer quarentena na casa da mãe. Gente se acabando de chorar por mais uma semana sozinho em casa. Isso me faz recordar um ensinamento que aprendi da grande professora Eliane Berger, alguns anos atrás. A gente consegue lidar com as perdas; dói, mas passa. O que adoece a gente, mesmo, é a solidão.

Segunda consideração: essa angústia bate mais forte nos idosos, que são quem mais sai de casa e fura a quarentena. Todo mundo que saiu para ir no bar, mercado, restaurante ou banco disse que só via os idosos em todos esses lugares, principalmente nos bancos. O que é de certa maneira assustador, já que é meio que um consenso que as formas mais graves da doença incidem justamente sobre essa parte da população. Quando a ficha cair talvez seja tarde demais.

Terceira consideração: existe uma certa dicotomia entre saúde versus economia no debate por esses dias. Essa discussão é falsa, ela já ocorreu na Itália há 30 dias e o resultado está aí. Colocações pueris, como colocadas por gente de grana que não quer perder dinheiro (Justus, Hang, Durski) flertam com a possibilidade, delirante, de que é possível afrouxar um pouco as restrições agora para que a economia não sofra tanto. O governo ainda tenta se agarrar a isso. Como se fosse possível haver um controle sobre a disseminação do vírus. A Itália tentou fazer isso, os EUA também, hoje são os países com os dados mais graves da epidemia. Obviamente os resultados econômicos vão ser muito piores lá também.

Quarta consideração: sobe muito a moral dos profissionais de saúde e educação entre a população. Os profissionais de saúde pelos motivos óbvios, de estar a frente num combate a uma epidemia sobre a qual pouco se sabe, além do fato de que é doença altamente contagiosa e pode causar um tipo de pneumonia fatal numa parte dos casos. O risco para médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros profissionais envolvidos é muito alto. Já os professores tem sido louvados por uma questão mais prosaica. O convívio forçado dos pais com os próprios filhos por um período prolongado, além de tentativas de educar os pequenos em casa, tem nos mostrado o quão difícil e trabalhoso é educar um ser humano (se é que isso é realmente possível).

Quinta e última consideração: não sabemos quanto tempo isso vai durar. E epidemia evolui de maneiras diferentes nos diferentes países. Em geral tem se mostrado grave e fatal, mais fatal que todas as última desde a gripe espanhola, numa época em que nem havia UTI, ventilação mecânica e inúmeros recursos que temos hoje. Em tempos de crise, vale a prudência.

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5 estratégias que a mente usa para se proteger em tempos de coronavírus http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/23/5-estrategias-que-a-mente-usa-para-se-proteger-em-tempos-de-coronavirus/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/23/5-estrategias-que-a-mente-usa-para-se-proteger-em-tempos-de-coronavirus/#respond Mon, 23 Mar 2020 07:00:30 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1087

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É como se todo mundo fosse jogado num grande experimento, sem consentimento prévio. Aquilo que nós víamos como algo próprio da ficção – a corrida por mantimentos, as ruas vazias- agora faz parte do nosso dia a dia. As reações não tardam, cada um à sua maneira, tendo que lidar com as duras limitações que se impõe a todos nós. Nosso Ego incansável lança mão de suas armas, a ver.

A primeira está muito evidente para todos. Quando a realidade nos é desfavorável, ela pode ser estranhamente ignorada, como se a potencial ameaça não houvesse. Parte-se então para minimizar o fato como “mais uma gripe”, “histeria coletiva” ou o risível “o medo é pior que o coronavírus”. Esse fenômeno tem um nome particular. Chama-se recusa. No caso o que está sendo recusado é a própria realidade. É um mecanismo primitivo, muito frequente em casos de psicose ou de perversão. O problema é que ao negar a realidade o sujeito não consegue ter meios para lidar com ela, se afundando cada vez mais no problema.

Uma outra defesa possível, muitas vezes confundida com a recusa é a negação. Na negação, a realidade consegue ser apreendida e internalizada, mas por mais que a pessoa acesse isso, ela não consegue admitir que reconhece o que está acontecido, o que está negado é o sentido daquele objeto. Vamos a um exemplo. “Eu entendo que essa é uma doença muito grave, mas acho que isso tudo serve a um projeto maior e no final será bom para todos!”. É até discutível se essa frase é verdadeira ou não, mas a pessoa está tentando lidar, da maneira que pode, com um profundo pavor perante a tempestade que surge no horizonte. Percebe-se que a negação já é algo um pouco melhor que a recusa, no sentido que a realidade não está tão deturpada, e por conseguinte, é mais fácil de lidar com ela.

Está bastante na moda agora a racionalização. “Se todos ficarem em casa agora, mas os serviços básicos funcionarem normalmente a taxa logarítmica de crescimento da epidemia mostra que os casos vão dobrar apenas a cada 72 horas”. A análise está correta, mas então qual o problema? O problema é que a racionalização faz com o componente emocional da questão a mesma coisa que a recusa faz com o componente real: apaga. A grande questão dessa epidemia não está contemplada, e ela é: vamos todos morrer? Se não todos, quantos? Os números e probabilidades não têm respostas para isso.

Não podemos deixar de pensar na identificação. Talvez a primeira mudança concreta a se observar nessas primeiras semanas seja um forte espírito comunitário, que a bem da verdade estava cada vez mais difícil de se ver. Em plena Era da Individualidade, estão se formando correntes solidárias potentes de um dia para o outro. Desde ações em grande escala, como a construção de um hospital em Gaza por Israel ou a doação de milhares de equipamentos e mão de obra entre as nações, até situações mais comezinhas, como a revolta popular contra cidadãos que tentam monopolizar bens de primeira necessidade, como álcool gel ou máscaras de proteção. O coletivo está tendo primazia sobre o individual pela primeira vez em muito tempo.

Por outro lado podemos observar que alguns maus sentimentos se afloram, como era de se esperar. A velha mania de botar a culpa no outro pelas nossas mazelas, ligada a um mecanismo que chamamos de identificação projetiva. É um jeito de o Ego exilar de si algo muito cruel ou violento. Se isso está no outro, não pode estar em mim. Ao contrário da identificação, que estabelece um traço de irmandade entre as pessoas, a identificação projetiva marca uma falsa diferença. Aí começa a paranoia, de achar que existe um complô, que é culpa dos chineses e outras imbecilidades do gênero.

Uma boa semana e muita saúde a todos vocês. Fiquem em casa e lavem bem as mãos.

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O caso do psiquiatra que não era um psicopata http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/16/o-caso-do-psiquiatra-que-nao-era-um-psicopata/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/16/o-caso-do-psiquiatra-que-nao-era-um-psicopata/#respond Mon, 16 Mar 2020 07:00:58 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1081

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O caso do Dr. Fallon é muito interessante. Ele é um pesquisador na Califórnia, há décadas dedicado à pesquisa em neurobiologia. Até que um dia, ao analisar imagens cerebrais, achou que os seus colegas haviam lhe pregado uma peça. Entre imagens que eram para ser supostamente normais, havia uma com alterações profundas, que sugeriam ser um caso grave de psicopatia. Foi conferir de qual paciente era e viu que eram imagens dele mesmo.

A pesquisa era o seguinte. Ele queria comparar o cérebro de pacientes psicopatas com o cérebro de pessoas normais, ou pelo menos não psicopatas. É o que chamamos em pesquisa de grupo controle. Como é comum nesses casos, ele usou como controle imagens de voluntários da família dele, inclusive o próprio. Só que na hora da análise, deu no que deu. Das duas uma, ou havia algo errado com a teoria, ou havia algo errado com ele. Como ele, o respeitável Dr. Fallon, pai de família, cidadão de bem, poderia ser um psicopata? O professor bonachão passou a se analisar sob esse novo ponto de vista e concluiu: sou um psicopata prossocial!

Você deve a este momento estar se perguntando: que raio seria um psicopata prossocial? É o seguinte: a psicopatia é o nome mais popular de um transtorno de personalidade, a saber o transtorno de personalidade antissocial. As pessoas com esse transtorno em geral compartilham algumas características psicológicas e comportamentais. A principal característica psicológica talvez seja a falta de empatia em relação aos outros. Dificilmente mudam seu jeito de ser, mesmo com punições severas, raramente sentem culpa. Quanto ao comportamento, não vêem muito sentido em obedecer regras e normas sociais, que são quebradas de acordo com a conveniência, daí o nome antissocial do transtorno.

O tal do psicopata prossocial seria alguém que tem algumas características psicológicas do psicopata antissocial mas não tem as alterações antissociais de comportamento. Seria um psicopata que segue as regras e normas da sociedade. Mas existe isso? Não! Pelo diagnóstico vigente, para ser um psicopata de verdade você tem que ter o combo completo: alterações psíquicas e comportamento antissocial.

O que o Dr. Fallon fez foi tomar o exame como prova definitiva do diagnóstico, e isso ainda não existe em psiquiatria. O que não quer dizer que a pesquisa do Dr. Fallon seja desimportante ou incorreta. Na verdade ele acabou por confirmar que as alterações observadas -diminuição de substância cinzenta no córtex pré-frontal e diminuição das amídalas cerebrais- têm uma forte correlação com psicopatia. Ele investigou a história de sua família e descobriu que havia sete assassinos ou suspeitos de assassinato entre seus antepassados. Um tataravô matou a própria mãe. Uma prima foi acusada, e absolvida, de matar o pai e a madrasta com um machado. Uma família violenta ao que parece.

O erro dele foi um erro de método de pesquisa. O grupo controle estava fortemente enviesado e nunca poderia ter sido usado nessa situação. O que na verdade é uma questão desafiadora para toda pesquisa que se faz em saúde mental. Com quase 200 doenças catalogadas, é muito difícil achar indivíduos que não tenham nenhum dos problemas listados. Os normais não existem.

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Como o coronavírus mostra que tipo de pessoa cada um de nós é http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/09/como-o-coronavirus-mostra-que-tipo-de-pessoa-voce-e/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/09/como-o-coronavirus-mostra-que-tipo-de-pessoa-voce-e/#respond Mon, 09 Mar 2020 07:00:18 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1072

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O coronavírus chegou ao Brasil. Na verdade aqui para mim ele chegou há um tempo já, trazido pelo imaginário das pessoas horrorizadas com a possibilidade da epidemia. Claro, são apenas poucos casos ainda, mas o assunto está aí todo dia: álcool gel, espirro no braço, beija-não beija são todos tópicos que tem feito parte do nosso dia a dia. Mas para que tem martelo, tudo parece prego.

Tem dois tipos de pessoas. Gente que não está nem aí para o coronavírus e gente que morre de medo dele. Entre esses existem os realistas, claro, que se atêm mais aos fatos que às suas próprias fantasias. As pessoas que não estão nem aí para a doença em geral partem de um pressuposto fantasioso de uma certa imortalidade associada com invulnerabilidade. É um tipo de gente que come qualquer coisa em qualquer lugar, atravessa a rua sem olhar, toma leite com manga sem pestanejar. Podemos descrever sua estrutura psíquica como um tipo algo narcisista, onde o fortalecimento do eu se tornou um espaço de conforto.

Já as pessoas que morrem de medo do Covid-19, nome de registro do vulgo corona, tem outra estrutura. Acreditam na fantasia de que o corona vai olhar de longe a população, olhar para elas e falar: “Você!” Pronto, vão ser infectadas. Não adianta você falar que são cinquenta casos em duzentos milhões, que é mais fácil ganhar na Mega da Virada, nada disso. Para um verdadeiro temente epidemiológico, “o cálculo das probabilidades é uma pilhéria”, como dizia o poeta.

São descrições meio alegóricas, mas carregam um tanto de verdade. Porque descrevem dois jeitos de lidar com a realidade. Olhando mais atentamente, o que varia nestas posturas é justamente a questão: onde está o poder? O narcisista responde de bate-pronto: o poder está em mim! E aí você pode desfilar toda aquela lenga-lenga motivacional que está tão em moda nos últimos tempos. Você pode tudo! Tudo depende de você! E da sua vontade! Se você acredita nisso, sinto informar, mas você está errado. A realidade é soberana, de modo que às vezes você pode querer, tentar, espernear, fazer promessa, que o resultado não sai. Existem coisas que são impossíveis. E ponto.

Já a postura do temente é, sob esse ponto de vista, um pouco mais próxima da realidade. Você pergunta a ele onde está o poder e ele diz: em todos os lugares menos em mim! De fato, se pensarmos no mundo e em nós, não somos absolutamente nada. O problema do temente é que, nesse esvaziamento de poder, talvez até realista, ele acaba por precisar de salvaguardas e garantias infinitas para conseguir seguir em frente. É álcool gel (engraçado a questão do gel, como se qualquer álcool não funcionasse), espirro no braço, quarentena, cancela viagem, cancela baralho com as tias, cancela tudo. Nunca nada é o suficiente para suprir uma pessoa desempoderada de tudo.

O realidade é que não se pode tudo. Se deixar ao Deus dará, o bicho espalha para tudo que é lado, de modo que as medidas de contenção se fazem necessárias. No momento elas são basicamente medidas de higiene pessoal e contato entre as pessoas. Cabe aos serviços de saúde monitorar os casos, seus contactantes, observar e tentar restringir eventualmente o fluxo de pessoas relacionados a regiões e países com alta incidência da doença. Informação de fato não falta. Nunca vi tanto infectologista na TV, nem sabia que existiam tantos. O problema não é de ordem lógica.

O que tem ocorrido em alguns casos é a disseminação de uma histeria coletiva que se espalha ainda mais rapidamente que a própria epidemia. Na Ucrânia, um ônibus com pessoas que vinham da China foi apedrejado pela população. No Irã, uma multidão ateou fogo num hospital que supostamente estaria tratando desses casos. Aqui no Brasil, até aqui, ainda impera a nossa conhecida cordialidade. Até quando?

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Dá para viver com transtorno bipolar? História de boxeador é exemplo http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/02/da-para-viver-com-transtorno-bipolar-historia-de-boxeador-e-exemplo/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/03/02/da-para-viver-com-transtorno-bipolar-historia-de-boxeador-e-exemplo/#respond Mon, 02 Mar 2020 07:00:57 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1066

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Uma das muitas coisas que herdei do meu pai foi gosto pelo boxe. Passava noites em claro esperando Mike Tyson destruir os adversários madrugada adentro. Eventualmente tinha um Adílson Maguila no domingo, menos demolidor, mas bastante divertido. Depois disso, lá pelos anos 1990, o boxe caiu em desuso aqui nessas terras tropicais, ao mesmo tempo em que o MMA despontava como arte marcial mais importante.

Pois bem, na semana passada houve um terremoto no mundo do boxe. Talvez a luta de pesos-pesadas mais comentada desde a fatídica luta entre Tyson e Holyfield, a famosa luta da mordida. De um lado o campeão invicto, o americano Deontay Wilder, conhecido como “The Bronze Bomber”, dono de um dos golpes mais poderosos da história. Do outro o ex-campeão, também invicto, o britânico Tyson Fury, “The Gypsy King”, um cigano gigantesco de 2,06 de altura. E sim, ele se chama Tyson em homenagem a Mike Tyson. Ambos haviam se enfrentado no final do ano passado e a luta terminara empatada.

Se você prestou atenção deve estar se perguntando como um lutador que nunca perdeu pode ser um ex-campeão. É aí que entra a questão psiquiátrica na questão. Fury foi diagnosticado com transtorno bipolar. Entrou numa crise depressiva pesada, não conseguiu defender o título. Entrou numa depressão pesada e passou a fazer uso pesado de álcool e cocaína. Engordou até chegar quase aos 200 kg de peso. Ficou de 2015 a 2018 sem lutar e foi, consequentemente, considerado perdido para o esporte.

Na verdade os problemas mentais de Fury começaram mais cedo. Seu pai dizia que já com 10 anos de idade ele já tinha variações de humor muito intensas. Estava feliz num momento e em seguida entrava em estado de tristeza profunda. O próprio pai, John Fury, tem problemas mentais crônicos e toma medicação há décadas.

O fato de ser um caso tão precoce é um pouco atípico, não é comum encontrarmos sinais de transtorno bipolar em crianças e pré-adolescentes. Em geral surgem um pouco mais tarde, no final da adolescência ou após os 20 anos de idade. Agora o pai com um diagnóstico de transtorno bipolar bem definido é certamente um fator de risco bem estabelecido. Pessoas com parentes de primeiro grau com transtorno bipolar têm um risco bastante aumentado para desenvolver a doença em algum momento da vida.

Outro fator de associação que observamos no caso Fury é o abuso de drogas. Pacientes bipolares têm uma probabilidade bem grande de fazerem uso abusivo de substâncias e se tornarem dependentes. Isso ocorre principalmente nas fases maníacas, mas pode persistir também nos períodos de depressão.

Ainda podemos citar o estigma da doença mental como mais um fato presente nesse combate. O campeão Wilder não deixou passar despercebido o problema de saúde de seu adversário e resolveu fazer troça: “Eu te tirei do buraco! Quando te encontrei você estava afundado na cocaína, do tamanho de uma casa, pensando em se matar! Você deve essa chance a mim!”. O clima pesou tanto que a famosa encarada que precede as lutas teve que ser feita a metros de distância para que os lutadores não saíssem na mão antes do combinado.

Pois bem no dia da luta não deu outra; Fury derrubou Wilder duas vezes antes do córner do americano jogar a toalha no 7º round. Fury era campeão novamente. Com justiça, dedicou a vitória “a todos aqueles que sofrem com doenças mentais. Eu ganhei essa por vocês. Se consegui voltar de onde eu estava, vocês também podem. Então dê a volta por cima, nós vamos fazer isso juntos, como uma equipe!”. E arrematou ainda se reconciliando com o adversário e cantando American Pie com a torcida.

Não é sempre que a volta por cima é possível. Inúmeros atletas tiveram suas vidas ou carreiras encerrados por problemas mentais. Mas é alentador olhar pelo outro lado, como um garoto, já com problemas mentais tão precoces, consegue chegar ao topo de uma carreira, descer ao inferno e emergir novamente triunfante. A vida, às vezes, vence.  

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Existe um momento em que dinheiro demais reduz a felicidade: saiba quando http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/02/24/existe-um-momento-em-que-dinheiro-demais-reduz-a-felicidade-sabia-quando/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/02/24/existe-um-momento-em-que-dinheiro-demais-reduz-a-felicidade-sabia-quando/#respond Mon, 24 Feb 2020 07:00:55 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1057

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Hoje estava vindo trabalhar e escutei no rádio uma notícia que não me surpreendeu muito. Era um subprocurador da República se lamentando para o procurador geral que o seu salário era baixo demais; a saber, R$ 42.000 por mês. Digo que não me surpreendeu muito porque não é a primeira vez, em tempos recentes, que essa gente vem a público se queixar de seus salários e benefícios infindáveis. Mas por outro lado, algo em mim ficou a se perguntar o quanto um cidadão desses precisaria receber para ficar mais ou menos contente.

Lembrei-me então de um estudo mais ou menos famoso que correlaciona a renda da pessoa à sua felicidade. Foi feito há alguns anos, com dados americanos, mas tive a agradável surpresa de descobrir que havia sido refeito, agora com dados de todos os continentes. É importante ressaltar que estudos que tratam de “felicidade” me deixam um pouco com a pulga atrás da orelha, porque o que se chama felicidade de fato não existe. É uma abstração tão abstrata que não cabe num trabalho efetivo. Prefiro seguir acreditando na máxima que somente uma tartaruga sob o sol sabe o que é realmente ser feliz.

E de fato o estudo é um pouco mais complexo que isso. A chamada “felicidade” é uma medida de bem-estar subjetivo. E esse bem-estar está relacionado a três áreas: sentimentos positivos, sentimentos negativos e satisfação com a vida. Os sentimentos positivos estão relacionados à quantidade de prazer que uma pessoa consegue ter em sua vida, e os sentimentos negativos estão associados ao quanto a gente consegue evitar a dor e o sofrimento. Já a satisfação com a vida é isso mesmo, o quanto você está satisfeito com você, família, trabalho, etc…

Pois bem, quanto mais aumenta a renda da pessoa, maior é a quantidade de prazer, menor a quantidade de desprazer e maior é a satisfação com a vida em suas diferentes dimensões. Mas o ponto que eu acho mais interessante e precioso desse estudo é que a curva não vai subindo para sempre. Existe um ponto onde ganhar mais dinheiro não vai fazer você ter mais prazer ou menos desprazer. Na verdade, ao passar desse ponto, pode-se inclusive piorar a sensação subjetiva de bem estar.

Obviamente que as diferentes dinâmicas econômicas nos diferentes lugares fazem com que a quantidade de dinheiro para se chegar no chamado ponto de satisfação varie bastante. A média global é de US$ 95.000 ao ano (o que dá US$ 7.916 por mês, R$ 34.675 na cotação de sexta-feira). O mais baixo é justamente o da América Latina. Por aqui basta você ganhar por mês a bagatela de R$ 12.275  que você está no auge da felicidade. O mais alto é na Austrália e Nova Zelândia; por lá o salário onde a felicidade é plena seria equivalente a R$ 45.000.

É interessante notar que as dinâmicas regionais influenciam também na percepção de prazer e desprazer. Em geral as curvas de prazer e desprazer chegam ao ponto máximo com uma quantidade um pouco menor de dinheiro. Aqui na nossa realidade, a partir de R$10.950 ao mês não se obtém mais prazer nem menos desprazer. É uma diferença bem pequena, diferente de outros lugares do mundo, onde em geral, mesmo sem se conseguir mais prazer/menos desprazer, ainda assim a satisfação com a vida segue aumentando mais conforme a renda aumenta.

Considerando-se que no Brasil quem ganha acima de R$ 5.200 ao mês está entre os 10% mais ricos, esse salário ideal de R$12.275 não pode ser considerado pouca coisa. Mas não é uma cifra astronômica totalmente fora da realidade. Por isso eu sugiro ao subprocurador, que talvez seja o caso de diminuir o próprio salário. Esqueça esses benefícios, auxílio-moradia, auxílio-paletó. Parece que o excesso de dinheiro está fazendo mal ao senhor. R$ 12.275 é um bom número.

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Tratamento psiquiátrico precisa de aliança entre médico e paciente http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/02/17/tratamento-psiquiatrico-precisa-de-alianca-entre-medico-e-paciente/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/02/17/tratamento-psiquiatrico-precisa-de-alianca-entre-medico-e-paciente/#respond Mon, 17 Feb 2020 07:00:53 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1049

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Quando eu falo aqui ou em qualquer outro espaço sobre algum tipo de doença, acabo sempre focando em algum aspecto técnico. Ou é um remédio ou alguma técnica terapêutica, ou ainda mesmo em alguma correlação entre um problema e um fator ambiental qualquer, como dieta ou trabalho. Mas nunca me passou pela cabeça o fato de eu nunca ter falado da aliança terapêutica.

Não é pelo fato de eu ser particularmente esquecido, o que de fato eu sou mesmo. É que essa condição é algo tão óbvia e corriqueira na nossa prática que acabamos por não falar dela, nem ao menos nomeá-la. Ela está ali, acontecendo, mas em geral a gente não pensa: “muito bem, vamos estabelecer uma aliança terapêutica”. 

Quando é um processo de análise e psicoterapia, as coisas são mais cuidadosas; têm que ser. Precisa combinar horário, preço, presença, falta, marcação, remarcação, tudo nos conformes, inclusive porque o jeito que a pessoa vai lidar com tudo isso diz muito a respeito dela. Se vai chegar na hora, pagar no dia certo ou não, reclamar, barganhar, tudo isso são questões que podem ser analisadas e utilizadas para se resolver outras questões, fora do ambiente de análise.

Numa relação médico-paciente a situação costuma ser um pouco mais assimétrica, onde o paciente chega com uma demanda que deve ser resolvida. É o clássico: “o que eu faço, doutor?”. Nessa situação o médico fica com uma responsabilidade muito maior, enquanto o paciente tende a ser mais passivo. 

Daí podem incorrer dois problemas. O primeiro é um médico desatento, ou por falta de tempo, interesse, ou qualquer outro motivo. Se o médico não está genuinamente interessado em resolver o problema de quem o procura, a chance do tratamento surtir o efeito desejado diminui consideravelmente.

Não estou fazendo um julgamento moral no sentido de demonizar os médicos e mostrar como sou bonzão e diferenciado. Inclusive porque quando eu dava plantão noturno ou no final de semana, há um bom tempo atrás, a qualidade do meu serviço era evidentemente muito pior do que em dias normais, quando eu estava bem dormido e alimentado. Tive que parar, para felicidade de todos, minha e dos pacientes.

O outro problema é um paciente que não está comprometido com o próprio tratamento. Não toma o remédio, não vai na terapia, não bebe tantos litros de água, não faz a caminhada prescrita, não marca a consulta a tempo. Os motivos são vários, mas acabam sempre resvalando naquela tendência sombria, que existe em cada um de nós, inconfessável, de querer que tudo acabe. 

A gente precisa lutar contra essa força. Desistir não é uma opção. E o único jeito é através dessas alianças. A gente não trata uma doença sozinho, é sempre em dupla. Ou melhor, em grupo, porque tem que envolver quase sempre mais de um profissional. Tem que envolver família. A vida a gente vive junto com os outros.

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Conheça as principais emergências médicas psiquiátricas http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/02/10/conheca-as-principais-emergencias-medicas-psiquiatricas/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/02/10/conheca-as-principais-emergencias-medicas-psiquiatricas/#respond Mon, 10 Feb 2020 07:00:49 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1043

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Os serviços de atendimento de emergência quase sempre deixam a desejar no que se refere à psiquiatria. Quase nunca há um psiquiatra disponível e os médicos que não são psiquiatras dificilmente têm o conhecimento técnico para lidar com tais casos. Emergência psiquiátrica é cosa nostra, infelizmente. O resultado é que as urgências e emergências de saúde mental acabam sendo mal cuidadas. São quadros de difícil manejo e requerem respostas rápidas e precisas. Quais são essas situações?

Por definição, são situações que exigem respostas rápidas (as chamadas urgências), ou mesmo imediatas (as chamadas emergências). Ultimamente tenho visto que o termo “urgência” tem sido usado para quase que qualquer coisa. Esses dias cheguei ao cúmulo de ler: “Urgente! Gabigol renova com o Flamengo!”. Sério?

Uma emergência psiquiátrica é uma alteração do estado mental que exige uma resposta imediata pois ela coloca em risco a pessoa ou terceiros. O quadro mais emblemático e obvio é o risco de suicídio. Cabe aqui ressaltar que não é a mesma coisa que ideação suicida. Ideação suicida é quando a pessoa pensa em se matar. Muita gente pensa em se matar, isso é de fato um problema mas a grande maioria dessas pessoas não se mata, nem mesmo tenta. Em geral existe um processo entre pensar em se matar e passar essa ideia para a realidade. 

Certa vez recebi uma mensagem no meu celular: -“Doutor, o que acontece se eu tomar tantas caixas do antidepressivo X mais tantas caixas do calmante Y?

-Por que você quer saber?

-Porque eu já tomei.”

Aí é um Deus nos acuda, onde está, acha o pai, explica, chama SAMU, resgate, tudo e todos. Deu tudo certo no fim. Mas se tivesse demorado poderia ter dado tudo errado.

Nesse caso foi uma tentativa de suicídio consumada, mas existem outras situações. O surto psicótico por exemplo, é bastante comum. A pessoa passa a ouvir/ver/sentir coisas que não existem, por exemplo vozes, ou passa a acreditar em coisas que não são reais, por exemplo, um delírio de perseguição. Em decorrência disso pode se tornar agressiva ou se colocar em situações de risco extremo.

Outra situação bem mais corriqueira é a crise de pânico. A pessoa sofre de sintomas físicos intensos e acaba parando num pronto socorro médico. Não chega a ser uma emergência, porque se nada for feito a crise acaba passando. Mas é uma urgência na medida que requer uma atitude no curto prazo para controlar a situação, que sem tratamento pode se agravar bastante.

Existem outras urgências e emergências psiquiátricas. E cada uma delas também precisa ser contextualizada de acordo com a vulnerabilidade de cada paciente. Por exemplo uma pessoa com um surto psicótico agudo ou mesmo com planejamento suicida, mas que está internada dentro de um serviço de psiquiatria qualquer está muito mais protegida que um idoso com uma outra psicose que está sozinho em casa.

Interessante que mesmo sendo cosa nostra, os próprios psiquiatras não têm muito interesse em trabalhar em serviços de emergência. Sem dúvida porque é trabalho pesado, com emoções intensas a cada dia.

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Depressão e fast-food: quem come “lixo” fica doente http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/02/03/depressao-e-fast-food-quem-come-lixo-fica-doente/ http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/2020/02/03/depressao-e-fast-food-quem-come-lixo-fica-doente/#respond Mon, 03 Feb 2020 07:00:19 +0000 http://luizsperry.blogosfera.uol.com.br/?p=1037

Crédito: Istock

Estava conversando com um paciente com depressão, ele me contando sua dificuldade para emagrecer. Pudera, desde a infância sua dieta circulava entre salsichas, nuggets de frango, molho de tomate industrial e outros dejetos da indústria alimentícia. Claro que tinha um arroz e feijão e uma salada de alface e tomate de vez em quando, mas a regra era trevas.

Não acredito que as pessoas fiquem deprimidas por causa de fatores estritamente biológicos. Acho que ter uma vida boa, se divertir, ter relacionamentos bons no trabalho e no amor são os principais fatores para a gente não ficar doente. “Muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão” escreveu mil vezes Jack, em “O Iluminado”. O personagem no caso não virou exatamente um bobão, ficou louco de pedra e tentou matar a família. É uma obra de ficção, mas a frase é muito válida. Se a pessoa come muito mal, dorme muito mal e vai se envenenando aos poucos isso com certeza vai contribuir para que ela vá parar no fundo do poço. 

As duas coisas estão ligadas. Em geral as pessoas dedicam cada vez menos tempo para o preparo e o consumo das refeições. Com onze milhões de desempregados no país, ninguém pode vacilar, porque tem fila para pegar a sua vaga. Com isso as pessoas se submetem a rotinas de trabalho cada vez mais pesadas e comem cada vez pior. Entre restaurantes por quilo, deliverys, bandeijões e dogões, as pessoas vão se desnutrindo a cada dia.

A gente tem em mente que a comida típica de um lugar é o que se come no dia-a-dia, mas isso não é verdade. Com a urbanização maciça do país, come-se parecido em quase todos os grandes centros. Come-se muita comida processada, e consequentemente, pouca comida fresca de qualidade. 

Em relação à depressão especificamente, sabemos que existem diversos nutrientes que têm relação com a doença. Pessoas com deficiências de certas substâncias tendem a ter mais depressão e a ter depressões mais graves. Entre essas se sobressaem os ômega 3, que são um tipo de gordura, as vitaminas do complexo B, sais minerais e alguns aminoácidos, que são os constituintes das proteínas.

Os ômega 3 são normalmente encontrados em peixes, mais em uns do que em outros (principalmente em peixes de água fria, como salmão ou sardinha). Populações com alto consumo de pescados apresentam menos depressão que populações com baixo consumo. O próprio ômega 3 entre 1,5 e 2g ao dia tem ação antidepressiva.

Os carboidratos são importantes porque são fundamentais no metabolismo do triptofano, que é o aminoácido que vai virar serotonina no cérebro. Por isso quem faz as famosas dietas low carb tem um risco maior de ficar deprimido.

O mesmo vale para proteínas. Como nós somos capazes de produzir apenas uma parte dos aminoácidos do nosso organismo, a outra parte tem que vir da dieta (os aminoácidos chamados essenciais). Por isso é importante ter uma dieta com proteína de diversas fontes, o que é um problema para quem tem uma alimentação vegetariana ou vegana.

E não para por aí. As vitaminas do complexo B, presentes numa grande variedade de alimentos, é muito importante para o funcionamento cerebral, em especial o ácido fólico, também conhecida por vitamina B9. Tenho utilizado um vários casos a sua forma ativa, o metilfolato de cálcio, que ajuda a potencializar o efeito dos antidepressivos e é muito seguro.

Enfim, dá para perceber que talvez a grande questão seja justamente esse papo de “grande variedade de alimentos”. Não existe super-alimento que vai suprir tudo. Não dá para comer a mesma coisa todo dia; nem arroz e feijão. E se te der uma vontade imensa de comer um hot dog, vá lá e coma. E não pense mais nisso nos próximos 30 dias.

Para saber mais: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2738337/

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