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Blog do Luiz Sperry

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Nunca faz o que deveria? Veja como a resistência atrapalha seu dia-a-dia

Luiz Sperry

24/09/2018 04h00

Crédito: iStock

Você conhece alguém que precisa ir muito ao médico ou ao analista mas simplesmente não vai? Você mesmo já passou por uma situação assim? Ou ter de fazer alguma coisa de suma importância e também não fazer? Essas situações tão óbvias são muito mais comuns do que você pode imaginar. A resistência faz parte das nossas vidas.

O que a gente chama de resistência é um conceito psicanalítico. Vamos supor que você tem uma neurose qualquer, por exemplo, obsessiva. Você tem medo de contaminação e lava as mãos dezenas de vezes por dia. Isso atrapalha bastante, porque além de perder um tempo precioso, suas mãos vão acabar corroídas pelo sabão e pelo álcool gel. E ainda por cima você vai ter que se policiar sobre onde anda botando essas mãos sujas. Quando a gente resolve tratar esses sintomas, medicamente ou psicologicamente, você vai necessariamente entrar numa zona de desconforto. Porque você sabe que o objetivo é eliminar toda aquela água e aquele sabão e ter que suportar as mãos do jeito que elas estão.

Uma parte da gente entende que tudo bem, isso vai ser melhor, as coisas não podem ficar assim. No entanto existe outra parte que não se conforma, sofre com essa mudança, se apega ao sintoma. Pensamos o que vamos fazer, porque é agora que os germes vão tomar conta de tudo mesmo. E o que a gente vai fazer com aquele monte de Phebo que a gente comprou na promoção? E deu ainda por cima a maior briga em casa, porque a esposa detesta o Phebo, mas a gente sabe que ele é insubstituível.

Às vezes um pensamento ganha, a gente toma os remédios, vai para a terapia, vai dando nas coisas o jeito que dá para dar e seguimos em frente. Por vezes o outro lado ganha, e a gente se entrincheira no banheiro com nossos sintomas. Ou ainda, marcamos psiquiatra, e não tomamos os antidepressivos. E claro, a situação quase anedótica de tão clássica, quando esquecemos da terapia ou não conseguimos chegar a tempo. Somente para chegar, envergonhados na sessão seguinte e ouvir: "você está resistindo ao seu progresso".

Claro que sim, a gente resiste ao progresso e ao regresso. Todo mundo tem uma certa quantidade de masoquismo que adora se colocar numa situação desfavorável para poder curtir a fossa e a lama. Muitas vezes a resistência está ligada a um sentimento de culpa e, consequentemente, de uma necessidade de punição. Continuar sofrendo seria uma maneira, um tanto dolorosa, de conseguir fazer uma certa justiça.

A resistência não aparece apenas na análise. Aparece em uma série de situações da nossa vida nas quais nos sentimos como que contidos por uma grande mão invisível que nos impede de agir. Para renovar a CNH, pendurar aqueles quadros na parede que você ficou de pendurar há meses (anos?) ou mesmo aquela dieta que sempre começará na segunda feira seguinte.

Chega a ser tão comum e tão frequente que me pergunto se seria possível existir alguém que não resistisse à nada, nunca. Toma todos os remédios, nunca falta à terapia, CNH na mão, quadros na parede, dieta nem precisa porque come tudo direito. Não sei a impressão de vocês, mas essa pessoa, hipotética, me parece bastante estranha.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.