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A psicoterapia pode proteger as pessoas do suicídio

Luiz Sperry

18/06/2018 11h04

Crédito: iStock

Houve uma época na minha vida em que eu queria ser cirurgião. Andava para lá e para cá no centro cirúrgico e no pronto-socorro caçando o que fazer. Dadas as limitações do que um estudante de medicina pode fazer, posso dizer que ao menos em um caso específico consegui desenvolver habilidades bastante satisfatórias: unha encravada. Fosse você atendido por mim, por qualquer motivo,  era grande a chance de sair com as unhas encravadas todas operadas.

Lembrei dessa questão das unhas encravadas por conta de outra situação mais pertinente. Toda vez que alguma celebridade comete suicídio, o assunto ganha a mídia e segue uma discussão sobre o tema, em geral bastante rasa e improdutiva. Agora foi o apresentador Anthony Bourdain. Viajava pelo mundo todo, tinha o emprego dos sonhos de muita gente, uma namorada linda, tomava cerveja com o Obama. Nada disso serviu. E aí surge a grande pergunta fundamental: O que funciona contra os suicídios?

Quase nada. Em geral fazemos a leitura de que nada se faz a respeito dos suicídios por incompetência ou má fé. Acredito que as pessoas não fazem porque não têm a menor ideia do que fazer. Apesar de nunca haver tanta gente em tratamento psiquiátrico e tomando medicação, as taxas de suicídio aumentaram nos últimos anos. Ou seja, o tratamento das doenças mentais com remédios psiquiátricos não tem demonstrado uma medida eficaz, do ponto de vista epidemiológico, no controle do suicídio.

Aí que volto à questão da unha encravada. Uma unha encrava porque, em última instância, ela não cabe naquele dedo. Começa então a apertar as bordas e a causar grande dor e sofrimento. Não adianta tomar remédio, fazer retoques, colocar algodão; é tudo paliativo. A unha volta a encravar semanas depois.

Com as pessoas ocorre algo semelhante. Tem gente que simplesmente não cabe na vida que tem. A tendência atual de querer sempre mais pode ser uma cilada. E o trabalho terapêutico se torna justamente esse: adequar a vida das pessoas àquilo que elas de fato são. Assim como as unhas, das quais a gente tira uma banda e elas, mais estreitas, param de importunar, podemos readequar a vida das pessoas aos seus desejos, ou ao menos parte deles.

Uma prova objetiva de que isso funciona é um trabalho dinamarquês muito bonito que mostra como um grupo de pessoas com alto risco de suicídio que foi submetido a algumas sessões de psicoterapia teve um risco de morte menor em comparação com pessoas que não fizeram a terapia. E o mais interessante é que mesmo décadas depois esse efeito positivo se manteve.

A psicoterapia pode fazer isso, adequar nossa vida a quem nós somos, e fazer doer menos. Porque se a unha dói demais, um dia a gente perde a paciência e acaba cortando o dedo fora.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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