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Blog do Luiz Sperry

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E se a psiquiatria estiver errada e suas doenças não forem só cerebrais?

Luiz Sperry

2025-03-20T19:04:00

25/03/2019 04h00

Crédito: iStock

"E se a psiquiatria estiver errada?" Esbarrei esses dias nessa provocação deliciosa e pertinente. Apesar de ser crítico da psiquiatria (e não só dela, mas de tudo que há entre o céu e a terra), talvez eu não tivesse me perguntado exatamente sob esse viés mais radical. A questão que se faz é justamente: e se as premissas neuropsiquiátricas da psiquiatria de que as doenças mentais são em última instância doenças cerebrais estiverem, fundamentalmente, erradas?

Essa não é uma questão propriamente nova. A possibilidade de se considerar ou não doenças mentais como doenças cerebrais já vem de longe. É meio que ponto pacífico que nossas emoções e sentimentos são decorrentes em última instância do nosso funcionamento cerebral. Mas a teoria neuropsicológica das doenças mentais pressupõe que cada doença decorra de um (ou vários) processos biológicos específicos que poderiam ser medidos quimicamente ou em última instância por um exame de imagem. E a partir daí, corrigidos com um fármaco específico.

É uma teoria bastante ousada, mas já contemplada por Freud no "Projeto para uma Psicologia Científica" em 1895. Freud não sabia, nem tinha como saber, uma fração mínima do que se sabe do funcionamento neurológico atualmente. Tanto que não conseguiu dar sequência ao seu trabalho, indo por outros caminhos diferentes da neurociência. Hoje em dia o conhecimento do funcionamento de neurônios ( e outros componentes igualmente importantes do nosso sistema nervoso) evoluiu de forma surpreendente. Mas ainda assim é impossível se estabelecer o conceito de doença neuropsiquiátrica como almejado pela psiquiatria atual.

Isso leva a um impasse. Por um lado a psiquiatria excluiu qualquer hipótese psicopatológica que não o conceito de que "doença mental é doença cerebral". Por outro lado não consegue estabelecer nenhuma correlação mínima de cérebro e doença, substituindo por uma crença quase que mística de que "deve ser orgânico", "deve ser neuronal".

É nesse contexto que me deparei com um livro genial "Our Psychiatric Future" (Nosso Futuro Psiquiátrico) de Nikolas Rose, editora Polity Press, ainda não lançado no Brasil. Ele levanta questões que eu acredito serem fundamentais no que se refere às políticas de saúde mentais atuais. Uma das questões principais seriam: com essa quantidade imensa de diagnósticos, que atingem praticamente todas as faixas etárias, bilhões gastos em pesquisa e medicações, milhões de pessoas tomando remédios todos os dias, podemos dizer que chegamos a uma situação melhor atualmente? Se considerarmos que o número de suicídios continua aumentando, será que estamos indo de fato no caminho certo?

Outra coisa que sempre digo, é o fato de, mesmo após bilhões de dólares serem gastos, não há nada nos últimos 30 anos que seja realmente novo na psicofarmacologia. Medicações novas lançadas com algum estardalhaço, como vortioxetina, lurasidona ou a escetamina,  apesar de terem seu valor, estão longe de serem de fato revolucionárias.

E aí entra sem dúvida a questão econômica já que uma quantidade enorme de tratamentos não-convencionais são via de regra relegados a um segundo plano. A ideia é sim de medicalizar e mais, farmacologizar as questões humanas. A resenha do livro cita uma reportagem muito oportuna, que comenta sobre a possibilidade de se criar uma pílula para se tratar a…solidão! É isso mesmo, a que ponto chegamos, não?

Mas, e se a psiquiatria, após todo o conhecimento de neurotransmissores, receptores, plasticidade neural, segundos mensageiros, inositol fostato, GSK 3 beta e o escambau, depois de tudo isso, não puder nos oferecer mais nada? Será que ela vai voltar, como era no início, a flertar com a psicologia, com a psiquiatria social e, quem diria, com a psicanálise, em busca de uma saída diferente?

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.