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Blog do Luiz Sperry

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Psicodoping: conheça o uso de remédios para ir melhor em provas e concursos

Luiz Sperry

17/12/2018 09h55

Crédito: iStock

Quando a gente pensa em doping uma série de imagens vêm à nossa cabeça. Quase todas elas ligadas à área esportiva: a imagem icônica de Ben Johnson cruzando em primeiro lugar a linha de chegada dos 100 m rasos nas Olimpíadas de Seul, ou o ciclista Lance Armstrong, que de modelo de superação foi convertido em modelo de trapaça. Ambos tiveram suas carreiras enterradas por verdadeiros escândalos relacionados ao uso de substâncias proibidas. E mesmo outros ídolos, como Maureen Maggi ou César Cielo, apesar de continuarem competindo, foram suspensos e tiveram a imagem seriamente arranhada pelo mesmo motivo.

Pouco se fala do psicodoping, o doping neurológico ou ainda "aprimoramento cognitivo farmacológico". À semelhança do doping clássico, seria o uso de substâncias para se conseguir uma melhora de performance e, geralmente, conseguir alguma vantagem em algum tipo de prova e/ou concurso. Obviamente a diferença é que o efeito desejado da substância é sobretudo neurológico e não físico. Isso leva médicos e pacientes a se colocarem frente a escolhas e dilemas que se pautam por conceitos ainda bastante obscuros.

O assunto, visto sob essa ótica, pode parecer bastante atual, mas na verdade não é. Tomando-se a definição ao pé da letra, aquele canecão imprescindível de café que você toma de manhã pra ir trabalhar é um psicodoping –uso de substância exógena com intenção de melhorar a performance neurológica. A humanidade sempre esteve em busca dessas substâncias, daí nosso apego a bebidas que contenham substâncias neuroestimulantes, como cafeína (presente não apenas no café, mas também no guaraná), a teanina (encontrada no chá verde) ou mesmo a cocaína (que os povos altiplânicos usavam com moderação há séculos e os europeus resolveram purificar e usar em doses cavalares).

Talvez o evento novo seja o surgimento nas últimas décadas de novas substâncias, desenvolvidas pela indústria farmacêutica, que se prestem a ser utilizadas com esse fim. A mais utilizada é o metilfenidato, já velha conhecida desse blog. Trata-se de medicação para o tratamento do déficit de atenção e hiperatividade, disponível no mercado sob as marcas Ritalina e Concerta. Coloca-se aí a primeira questão: é ético a prescrição de metilfenidato para um paciente que não tenha déficit de atenção com o intuito de melhorar seu desempenho intelectual?

Como em toda pergunta pertinente, a resposta é depende. O doping esportivo é ilegal e antiético porque os competidores partem de um acordo prévio de que isso não deve ser utilizado entre eles. Inclusive muitas vezes são muitas vezes lesivos à própria saúde. A testosterona e seus derivados, umas das principais substâncias utilizadas com essas intenções, elevam o risco de diversos tipos de câncer e aumentam bastante o risco cardiovascular. A velha cafeína, por outro lado, em dose moderada (até 5 espressos por dia), tem efeito cardioprotetor. Qual o efeito do metilfenidato, da lisdexanfetamina e da modafinila no nosso corpo e mente a longo prazo?

Aí que entra o problema. Essas medicações foram desenvolvidas e estudadas para o uso em pacientes com TDAH (no caso do metilfenidato e da lisdexanfetamina) ou com narcolepsia e hipersonia (no caso da modafinila). Não há testagens consistentes em pacientes que fizeram uso em condições diferentes dessas. Ou seja; não há nesse momento embasamento científico para esse tipo de prescrição. E aí entra um dilema médico. Há um princípio moral da bioética que ainda é hoje válido: primum non nocere. Ou seja: primeiro, não prejudicar. Você dar uma substância para uma pessoa que não está doente e submetê-la a um risco de algum prejuízo pode sim ser uma falta ética. Mas não necessariamente, pois há que se pesar os riscos e benefícios. A melhor resposta é depende.

Mas fica uma questão para você, leitor, pensar consigo mesmo antes de dormir –ou não — na intimidade do seu lar. Vale a pena?

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.