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Blog do Luiz Sperry

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TDAH: modinha ou realidade?

Luiz Sperry

30/09/2017 04h01

Todas crianças já escutaram pelo menos uma vez frases clássicas, como:

– Só não esquece a cabeça porque está grudada no pescoço!

–  Parece que tem formiga na cadeira!

Até aí, nenhuma novidade. O problema é que algumas crianças escutam essa frase durante toda sua vida, quase todos os dias. E provavelmente esqueceriam a cabeça, não fosse ela grudada pelo pescoço ao resto do corpo, e talvez ficar sentado durante uma aula de matemática seja mais torturante do que a ideia de sentar no famigerado formigueiro.

Sim, os hiperativos existem. Basta a gente lembrar do nosso tempo de escola, numa época onde não se falava muito disso, e lembrar daquelas crianças que eram um terror para os professores, levantavam, gritavam, passavam mais tempo na sala da diretora do que na sala de aula. Toda turma tinha um ou dois. O desempenho em geral era péssimo, o comportamento, pior ainda. Todo dia um B.O., fosse porque esmagou os tomatinhos da horta no dia da colheita, ou porque mijou nas fichas de rematrícula.

Agora, o TDAH ( a saber, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) virou um campo de batalha ideológico. De um lado, os negacionistas, que dizem que não existe, que é uma invenção da indústria farmacêutica para entupir as crianças de psicotrópicos. De outro, os neuropsiquiatras que acham que tudo que parece TDAH é de fato TDAH, e metem Ritalina na molecada. Ambos os lados estão errados.

Quando a gente atende um hiperativo de verdade e dá o remédio certo ( e aqui no Brasil temos duas opções, metilfenidato e lisdexanfetamina) o resultado é dramático. É que nem botar óculos num míope. O mundo, antes confuso e cheio de incertezas, toma contornos mais nítidos. O tempo fica mais nítido; cinco minutos são cinco minutos. As regras ficam mais nítidas. E mais importante: melhora aquele sentimento de fracasso atrás de fracasso que essas crianças experimentam desde que se conhecem por gente.

Agora, se olhar com cuidado, tem uma monte de coisa que parece TDAH e não é TDAH. Alterações de humor parecem TDAH, quadros de ansiedade parecem TDAH, adolescente fumando maconha parece TDAH, falta de educação parece muito TDAH. Mas não são, e podem piorar se tratados incorretamente. Não é raro chegar a mãe dizendo "Doutor, ele não consegue estudar!" E você descobre que o coitado estuda com celular, tablet, laptop, vendo TV e ouvindo música no fone. Quem conseguiria?

Entre os idiotas da objetividade (salve, Nelson Rodrigues!) que insistem em transformar a psiquiatria num tipo de teste da Capricho, e os negacionistas que se esquecem que, mais importante que a teoria é aquilo que a gente vê com os nossos próprios olhos, existe um monte de gente que poderia viver melhor.

Gente que não aguenta mais esquecer. Não a cabeça, pois bem vimos que ela continua grudada no pescoço. Mas esquece a carteira, volta para pegar, e esquecer as chaves. Volta para pegar as chaves e esquece o celular. Gente que esquece compromissos, está sempre atrasada ou marca duas coisas ao mesmo tempo. Gente que vive aterrorizada com a hipótese (supremo terror) de esquecer o filho dentro do carro. E que,  às vezes,  esquece mesmo.

 

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.