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BBB e Pugliesi mostram como quarentena nos faz regredir emocionalmente

Luiz Sperry

04/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Nessa semana que passou, chamaram a minha atenção alguns fenômenos em particular. Como estamos todos nós num grande experimento, vão acontecendo coisas estranhas desencadeadas pelos fatos atuais. E como estamos todos conectados, a tendência é que a reação de um se espalhe ao outro de forma rápida e descontrolada.

O primeiro evento fora da curva foi a reação um tanto violenta contra a blogueira Gabriela Pugliesi. Gabriela é pessoa importante no mundo da internet, tem mais de 4 milhões de seguidores que acompanham sua rotina de ginástica e dieta. Pode ser chamada de influenciadora digital sob qualquer ponto de vista. Pois bem, a colega blogueira, sabidamente, pegou covid-19 logo no começo da epidemia, num casamento funesto da irmã, onde inúmeros convidados e funcionários foram contaminados. Há suspeitas de mortes em decorrência, inclusive de uma gestante. Ela teve a doença, compartilhando seu sofrimento com os milhões de seguidores.

O pecado mortal foi a ostentação. Ou melhor, a soro-ostentação. Uma vez que já teve a doença, Gabriela sentiu que seria de bom tom fazer uma pequena festinha com outros influenciadores na sua residência. Isso a opinião pública não perdoou. Isso numa época em que se cultua a ostentação nas suas mais diversas formas. O que só mostra como as pessoas têm sentimentos absolutamente conflitantes em relação ao isolamento. E quando a gente quer fazer muito uma coisa, se amarra, se controla, ou às vezes nem se controla tanto, mas finge que se controla, e aí vem alguém e faz, é o fim. Esse modelo serve para várias coisas, inclusive para o confinamento.

É por um mecanismo semelhante que parte da população também têm repudiado a postura do presidente Jair Bolsonaro frente à pandemia. Tendo vindo ele num vôo dos EUA com vários infectados, fez diversos testes, os quais não quer mostrar para ninguém. Agora tem uma ordem judicial, porque suspeita-se que todo esse desleixo do mandatário em relação às medidas de segurança sejam decorrentes de ele já ter tido a covid-19 e acreditar que esteja imune à famigerada "gripezinha". 

Um aparte: não há evidência que sustente que quem já pegou e se curou não possa pegar novamente. Algumas doenças virais a gente pega uma vez na vida e não pega de novo, como catapora e sarampo. Outra doenças a gente pode pegar várias vezes, como no caso da gripe (influenza) ou da dengue. Na dengue, em particular, uma segunda infecção tem o risco de ser inclusive mais grave que a primeira, como no caso da terrível dengue hemorrágica.

Pois bem, mesmo assim as pessoas, na sua angústia e ignorância, preferem acreditar que estão protegidas uma vez que tiveram a doença e se curaram. Parece ser o caso do político, parece ser o caso da blogueira. Mas o meu espanto foi maior quando percebi durante essa semana que diversos pacientes meu estavam no mesmo pique de festinhas e resenhas por aí. Influenciados talvez pela influencer, percebi que essa resposta exagerada pode demonstrar mais uma reação aos próprios pecados do que aos pecados do outro. Ou ainda: "eu estou aqui sofrendo, fazendo tudo isso escondido e você tem a cara-de-pau de botar no Instagram?"

Isso me leva a outro fenômeno que chamou a atenção nesta semana, que foi a final do BBB. Não assisti ao programa, não porque eu seja contra, mas porque eu tenho mais o que fazer. Mas todos que tem redes sociais acabam sabendo de tudo que se passa na grande gincana televisiva. Me questionei então por que essa temporada foi tão mais arrebatadora que as outras. Uma das respostas é que não tem nada ao vivo acontecendo, não tem campeonato de nada, não tem novela. As atenções foram todas justamente para o jogo que é na verdade uma quarentena, só que com pessoas desconhecidas que querem te passar a perna. E essa edição é especial, porque ela é com pessoas quase famosas. É diferente ter um programa com anônimos que não têm nada a perder e com pessoas que têm algo a perder. Ver alguém cair de uma posição conquistada é algo que ativa sentimentos humanos de inveja e sadismo. 

Os sentimentos sádicos e invejosos fazem parte da nossa personalidade. São características que vêm lá detrás, da nossa infância. Com o tempo nós vamos aprendendo a lidar com isso sem nos tornarmos pessoas perigosas. Mas existem situações, quando a realidade é muito desfavorável, que nosso psiquismo regride, e voltamos a nos tornar um tanto mais primitivos. É exatamente isso que está acontecendo agora. Tanto o sadismo e a agressividade desencadeados pelo BBB quanto a falta de noção das festinhas de quarentena são reflexos do estresse ao qual estamos todos submetidos.

Não há a menor dúvida de que devemos estar atentos a isso e tentar manter nosso funcionamento mental, na medida do possível, responsável. Não está sendo fácil e o pior ainda está por vir. Como tenho problemas de saúde demais e seguidores de menos, não posso me dar ao luxo de correr esse risco.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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