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Em um mês de isolamento ainda não tivemos um colapso psiquiátrico

Luiz Sperry

20/04/2020 04h00

Crédito: iStock

Não é nada, não é nada, essa semana, dia 16 de abril,  já se completou um mês de isolamento social. Isolamento à nossa maneira, era 70%, caiu a menos de 60%, agora fica em torno dos 50%, mas podemos dizer que a maior parte das pessoas está em casa, por bem ou por mal. E com isso podemos fazer já uma pequena retrospectiva do que se concretizou e o que (ainda?) não aconteceu.

Eu, como operário psi (definição maravilhosa que tomo emprestada ao saudoso professor Oswaldo Di Loreto), estava um pouco apreensivo quanto a uma possível explosão epidêmica de transtornos mentais. O próprio presidente, que tem errado bem mais que acertado, profetizou que as mortes virão "por outros motivos: depressão, suicídio, questões psiquiátricas", e seguiu "o pânico é uma doença e está levando o pessoal ao estresse. Mortes virão". Era uma possibilidade que, até o momento, não se concretizou. Não há nada que nos indique uma explosão no número de suicídios ou de quadros psiquiátricos mais graves.

As pessoas estão de fato muito cansadas, preocupadas, com medo, apreensivas, angustiadas e de saco bastante cheio por conta de tudo que está acontecendo. Mas esses sentimentos fazem parte da reação normal às situações de estresse. Assim como tristeza não é a mesma coisa que depressão, a angústia causada por essas situações também não são a mesma coisa que pânico ou qualquer outra doença. Ser submetido a essas situações constantemente é sim um fator de risco para transtornos psiquiátricos mas, felizmente, não houve uma explosão de casos desencadeados pela nossa quarentena.

Percebemos também que o contato humano faz falta. A vida sexual das pessoas entrou num parafuso, que vai desde "não consigo nem pensar em sexo" até o meme "tesão acumulado, né, minha filha?", que faz uma paródia com a frase célebre do Drauzio Varella. O fato é que o sexo, coito, cópula, ato sexual em si, anda em baixa, por motivos mais que óbvios. Tem muitas coisas que podemos fazer sozinhos, mas algumas só a dois. Havia a expectativa que a reclusão forçada levaria a um aumento da atividade sexual e um baby boom daqui a nove meses, os "filhos da quarentena". Não me parece uma época exatamente promissora para se nascer, mas a gente nunca escolhe quando nasce, nem quando morre. 

Se não estamos vendo um aumento do sexo, estamos sim vendo um aumento da violência doméstica, onde as mulheres são sempre as vítimas preferenciais. Os números de violência são, assim como os da Covid-19, bastante subnotificados, mas foi constatado o dobro de assassinatos de mulheres em São Paulo nas últimas semanas. Também pensando nisso, mas não apenas nisso, a OMS (Organização Mundial da Saúde) sugeriu medidas para o controle do consumo de bebidas alcoólicas, pois o abuso tem sido sim, mais frequente nesse período.

Pode ser que isso tudo vá piorando, porque há um fim do túnel, mas ainda não conseguimos enxergar a luz. Frente à força necessária para manter a disciplina, ainda há a opção de simplesmente sair de casa e fazer o que dá na telha. Sem dúvida isso vai ter seu preço, individual e para o grupo. Mas essa é a regra vigente, a regra do isolamento social, embora um dia, sem dúvida, a Lei Natural dos Encontros vá voltar a valer para todos. A Moraes Moreira, eterno, deixo aqui a minha homenagem.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

Blog do Luiz Sperry