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Considerações sobre a quarentena: o que observo como psiquiatra nesses dias

Luiz Sperry

30/03/2020 04h00

Crédito: iStock

Não seria possível falar de outra coisa, preso aqui em casa pela necessidade maior de isolamento. Todo psiquismo, o meu, o teu, o de todo mundo, está focado numa coisa só: o que vai acontecer com a gente. Só posso fazer algumas considerações, médicas e mentais, que acho importantes.

Primeira consideração: o confinamento já está deixando as pessoas desesperadas. Essa semana já observei alguns colapsos entre os pacientes que atendo. Gente que estava bem, com pouca medicação ou nenhuma, que tombou devido ao isolamento. Recebi mensagens de madrugada de gente perguntando se podia voltar a tomar o remédio ou fazer quarentena na casa da mãe. Gente se acabando de chorar por mais uma semana sozinho em casa. Isso me faz recordar um ensinamento que aprendi da grande professora Eliane Berger, alguns anos atrás. A gente consegue lidar com as perdas; dói, mas passa. O que adoece a gente, mesmo, é a solidão.

Segunda consideração: essa angústia bate mais forte nos idosos, que são quem mais sai de casa e fura a quarentena. Todo mundo que saiu para ir no bar, mercado, restaurante ou banco disse que só via os idosos em todos esses lugares, principalmente nos bancos. O que é de certa maneira assustador, já que é meio que um consenso que as formas mais graves da doença incidem justamente sobre essa parte da população. Quando a ficha cair talvez seja tarde demais.

Terceira consideração: existe uma certa dicotomia entre saúde versus economia no debate por esses dias. Essa discussão é falsa, ela já ocorreu na Itália há 30 dias e o resultado está aí. Colocações pueris, como colocadas por gente de grana que não quer perder dinheiro (Justus, Hang, Durski) flertam com a possibilidade, delirante, de que é possível afrouxar um pouco as restrições agora para que a economia não sofra tanto. O governo ainda tenta se agarrar a isso. Como se fosse possível haver um controle sobre a disseminação do vírus. A Itália tentou fazer isso, os EUA também, hoje são os países com os dados mais graves da epidemia. Obviamente os resultados econômicos vão ser muito piores lá também.

Quarta consideração: sobe muito a moral dos profissionais de saúde e educação entre a população. Os profissionais de saúde pelos motivos óbvios, de estar a frente num combate a uma epidemia sobre a qual pouco se sabe, além do fato de que é doença altamente contagiosa e pode causar um tipo de pneumonia fatal numa parte dos casos. O risco para médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros profissionais envolvidos é muito alto. Já os professores tem sido louvados por uma questão mais prosaica. O convívio forçado dos pais com os próprios filhos por um período prolongado, além de tentativas de educar os pequenos em casa, tem nos mostrado o quão difícil e trabalhoso é educar um ser humano (se é que isso é realmente possível).

Quinta e última consideração: não sabemos quanto tempo isso vai durar. E epidemia evolui de maneiras diferentes nos diferentes países. Em geral tem se mostrado grave e fatal, mais fatal que todas as última desde a gripe espanhola, numa época em que nem havia UTI, ventilação mecânica e inúmeros recursos que temos hoje. Em tempos de crise, vale a prudência.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

Blog do Luiz Sperry