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O caso do psiquiatra que não era um psicopata

Luiz Sperry

16/03/2020 04h00

Crédito: Istock

O caso do Dr. Fallon é muito interessante. Ele é um pesquisador na Califórnia, há décadas dedicado à pesquisa em neurobiologia. Até que um dia, ao analisar imagens cerebrais, achou que os seus colegas haviam lhe pregado uma peça. Entre imagens que eram para ser supostamente normais, havia uma com alterações profundas, que sugeriam ser um caso grave de psicopatia. Foi conferir de qual paciente era e viu que eram imagens dele mesmo.

A pesquisa era o seguinte. Ele queria comparar o cérebro de pacientes psicopatas com o cérebro de pessoas normais, ou pelo menos não psicopatas. É o que chamamos em pesquisa de grupo controle. Como é comum nesses casos, ele usou como controle imagens de voluntários da família dele, inclusive o próprio. Só que na hora da análise, deu no que deu. Das duas uma, ou havia algo errado com a teoria, ou havia algo errado com ele. Como ele, o respeitável Dr. Fallon, pai de família, cidadão de bem, poderia ser um psicopata? O professor bonachão passou a se analisar sob esse novo ponto de vista e concluiu: sou um psicopata prossocial!

Você deve a este momento estar se perguntando: que raio seria um psicopata prossocial? É o seguinte: a psicopatia é o nome mais popular de um transtorno de personalidade, a saber o transtorno de personalidade antissocial. As pessoas com esse transtorno em geral compartilham algumas características psicológicas e comportamentais. A principal característica psicológica talvez seja a falta de empatia em relação aos outros. Dificilmente mudam seu jeito de ser, mesmo com punições severas, raramente sentem culpa. Quanto ao comportamento, não vêem muito sentido em obedecer regras e normas sociais, que são quebradas de acordo com a conveniência, daí o nome antissocial do transtorno.

O tal do psicopata prossocial seria alguém que tem algumas características psicológicas do psicopata antissocial mas não tem as alterações antissociais de comportamento. Seria um psicopata que segue as regras e normas da sociedade. Mas existe isso? Não! Pelo diagnóstico vigente, para ser um psicopata de verdade você tem que ter o combo completo: alterações psíquicas e comportamento antissocial.

O que o Dr. Fallon fez foi tomar o exame como prova definitiva do diagnóstico, e isso ainda não existe em psiquiatria. O que não quer dizer que a pesquisa do Dr. Fallon seja desimportante ou incorreta. Na verdade ele acabou por confirmar que as alterações observadas -diminuição de substância cinzenta no córtex pré-frontal e diminuição das amídalas cerebrais- têm uma forte correlação com psicopatia. Ele investigou a história de sua família e descobriu que havia sete assassinos ou suspeitos de assassinato entre seus antepassados. Um tataravô matou a própria mãe. Uma prima foi acusada, e absolvida, de matar o pai e a madrasta com um machado. Uma família violenta ao que parece.

O erro dele foi um erro de método de pesquisa. O grupo controle estava fortemente enviesado e nunca poderia ter sido usado nessa situação. O que na verdade é uma questão desafiadora para toda pesquisa que se faz em saúde mental. Com quase 200 doenças catalogadas, é muito difícil achar indivíduos que não tenham nenhum dos problemas listados. Os normais não existem.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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