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Tratamento psiquiátrico precisa de aliança entre médico e paciente

Luiz Sperry

17/02/2020 04h00

Crédito: iStock

Quando eu falo aqui ou em qualquer outro espaço sobre algum tipo de doença, acabo sempre focando em algum aspecto técnico. Ou é um remédio ou alguma técnica terapêutica, ou ainda mesmo em alguma correlação entre um problema e um fator ambiental qualquer, como dieta ou trabalho. Mas nunca me passou pela cabeça o fato de eu nunca ter falado da aliança terapêutica.

Não é pelo fato de eu ser particularmente esquecido, o que de fato eu sou mesmo. É que essa condição é algo tão óbvia e corriqueira na nossa prática que acabamos por não falar dela, nem ao menos nomeá-la. Ela está ali, acontecendo, mas em geral a gente não pensa: "muito bem, vamos estabelecer uma aliança terapêutica". 

Quando é um processo de análise e psicoterapia, as coisas são mais cuidadosas; têm que ser. Precisa combinar horário, preço, presença, falta, marcação, remarcação, tudo nos conformes, inclusive porque o jeito que a pessoa vai lidar com tudo isso diz muito a respeito dela. Se vai chegar na hora, pagar no dia certo ou não, reclamar, barganhar, tudo isso são questões que podem ser analisadas e utilizadas para se resolver outras questões, fora do ambiente de análise.

Numa relação médico-paciente a situação costuma ser um pouco mais assimétrica, onde o paciente chega com uma demanda que deve ser resolvida. É o clássico: "o que eu faço, doutor?". Nessa situação o médico fica com uma responsabilidade muito maior, enquanto o paciente tende a ser mais passivo. 

Daí podem incorrer dois problemas. O primeiro é um médico desatento, ou por falta de tempo, interesse, ou qualquer outro motivo. Se o médico não está genuinamente interessado em resolver o problema de quem o procura, a chance do tratamento surtir o efeito desejado diminui consideravelmente.

Não estou fazendo um julgamento moral no sentido de demonizar os médicos e mostrar como sou bonzão e diferenciado. Inclusive porque quando eu dava plantão noturno ou no final de semana, há um bom tempo atrás, a qualidade do meu serviço era evidentemente muito pior do que em dias normais, quando eu estava bem dormido e alimentado. Tive que parar, para felicidade de todos, minha e dos pacientes.

O outro problema é um paciente que não está comprometido com o próprio tratamento. Não toma o remédio, não vai na terapia, não bebe tantos litros de água, não faz a caminhada prescrita, não marca a consulta a tempo. Os motivos são vários, mas acabam sempre resvalando naquela tendência sombria, que existe em cada um de nós, inconfessável, de querer que tudo acabe. 

A gente precisa lutar contra essa força. Desistir não é uma opção. E o único jeito é através dessas alianças. A gente não trata uma doença sozinho, é sempre em dupla. Ou melhor, em grupo, porque tem que envolver quase sempre mais de um profissional. Tem que envolver família. A vida a gente vive junto com os outros.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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