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Conheça as principais emergências médicas psiquiátricas

Luiz Sperry

10/02/2020 04h00

Crédito: iStock

Os serviços de atendimento de emergência quase sempre deixam a desejar no que se refere à psiquiatria. Quase nunca há um psiquiatra disponível e os médicos que não são psiquiatras dificilmente têm o conhecimento técnico para lidar com tais casos. Emergência psiquiátrica é cosa nostra, infelizmente. O resultado é que as urgências e emergências de saúde mental acabam sendo mal cuidadas. São quadros de difícil manejo e requerem respostas rápidas e precisas. Quais são essas situações?

Por definição, são situações que exigem respostas rápidas (as chamadas urgências), ou mesmo imediatas (as chamadas emergências). Ultimamente tenho visto que o termo "urgência" tem sido usado para quase que qualquer coisa. Esses dias cheguei ao cúmulo de ler: "Urgente! Gabigol renova com o Flamengo!". Sério?

Uma emergência psiquiátrica é uma alteração do estado mental que exige uma resposta imediata pois ela coloca em risco a pessoa ou terceiros. O quadro mais emblemático e obvio é o risco de suicídio. Cabe aqui ressaltar que não é a mesma coisa que ideação suicida. Ideação suicida é quando a pessoa pensa em se matar. Muita gente pensa em se matar, isso é de fato um problema mas a grande maioria dessas pessoas não se mata, nem mesmo tenta. Em geral existe um processo entre pensar em se matar e passar essa ideia para a realidade. 

Certa vez recebi uma mensagem no meu celular: -"Doutor, o que acontece se eu tomar tantas caixas do antidepressivo X mais tantas caixas do calmante Y?

-Por que você quer saber?

-Porque eu já tomei."

Aí é um Deus nos acuda, onde está, acha o pai, explica, chama SAMU, resgate, tudo e todos. Deu tudo certo no fim. Mas se tivesse demorado poderia ter dado tudo errado.

Nesse caso foi uma tentativa de suicídio consumada, mas existem outras situações. O surto psicótico por exemplo, é bastante comum. A pessoa passa a ouvir/ver/sentir coisas que não existem, por exemplo vozes, ou passa a acreditar em coisas que não são reais, por exemplo, um delírio de perseguição. Em decorrência disso pode se tornar agressiva ou se colocar em situações de risco extremo.

Outra situação bem mais corriqueira é a crise de pânico. A pessoa sofre de sintomas físicos intensos e acaba parando num pronto socorro médico. Não chega a ser uma emergência, porque se nada for feito a crise acaba passando. Mas é uma urgência na medida que requer uma atitude no curto prazo para controlar a situação, que sem tratamento pode se agravar bastante.

Existem outras urgências e emergências psiquiátricas. E cada uma delas também precisa ser contextualizada de acordo com a vulnerabilidade de cada paciente. Por exemplo uma pessoa com um surto psicótico agudo ou mesmo com planejamento suicida, mas que está internada dentro de um serviço de psiquiatria qualquer está muito mais protegida que um idoso com uma outra psicose que está sozinho em casa.

Interessante que mesmo sendo cosa nostra, os próprios psiquiatras não têm muito interesse em trabalhar em serviços de emergência. Sem dúvida porque é trabalho pesado, com emoções intensas a cada dia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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