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Depressão e fast-food: quem come "lixo" fica doente

Luiz Sperry

03/02/2020 04h00

Crédito: Istock

Estava conversando com um paciente com depressão, ele me contando sua dificuldade para emagrecer. Pudera, desde a infância sua dieta circulava entre salsichas, nuggets de frango, molho de tomate industrial e outros dejetos da indústria alimentícia. Claro que tinha um arroz e feijão e uma salada de alface e tomate de vez em quando, mas a regra era trevas.

Não acredito que as pessoas fiquem deprimidas por causa de fatores estritamente biológicos. Acho que ter uma vida boa, se divertir, ter relacionamentos bons no trabalho e no amor são os principais fatores para a gente não ficar doente. "Muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão" escreveu mil vezes Jack, em "O Iluminado". O personagem no caso não virou exatamente um bobão, ficou louco de pedra e tentou matar a família. É uma obra de ficção, mas a frase é muito válida. Se a pessoa come muito mal, dorme muito mal e vai se envenenando aos poucos isso com certeza vai contribuir para que ela vá parar no fundo do poço. 

As duas coisas estão ligadas. Em geral as pessoas dedicam cada vez menos tempo para o preparo e o consumo das refeições. Com onze milhões de desempregados no país, ninguém pode vacilar, porque tem fila para pegar a sua vaga. Com isso as pessoas se submetem a rotinas de trabalho cada vez mais pesadas e comem cada vez pior. Entre restaurantes por quilo, deliverys, bandeijões e dogões, as pessoas vão se desnutrindo a cada dia.

A gente tem em mente que a comida típica de um lugar é o que se come no dia-a-dia, mas isso não é verdade. Com a urbanização maciça do país, come-se parecido em quase todos os grandes centros. Come-se muita comida processada, e consequentemente, pouca comida fresca de qualidade. 

Em relação à depressão especificamente, sabemos que existem diversos nutrientes que têm relação com a doença. Pessoas com deficiências de certas substâncias tendem a ter mais depressão e a ter depressões mais graves. Entre essas se sobressaem os ômega 3, que são um tipo de gordura, as vitaminas do complexo B, sais minerais e alguns aminoácidos, que são os constituintes das proteínas.

Os ômega 3 são normalmente encontrados em peixes, mais em uns do que em outros (principalmente em peixes de água fria, como salmão ou sardinha). Populações com alto consumo de pescados apresentam menos depressão que populações com baixo consumo. O próprio ômega 3 entre 1,5 e 2g ao dia tem ação antidepressiva.

Os carboidratos são importantes porque são fundamentais no metabolismo do triptofano, que é o aminoácido que vai virar serotonina no cérebro. Por isso quem faz as famosas dietas low carb tem um risco maior de ficar deprimido.

O mesmo vale para proteínas. Como nós somos capazes de produzir apenas uma parte dos aminoácidos do nosso organismo, a outra parte tem que vir da dieta (os aminoácidos chamados essenciais). Por isso é importante ter uma dieta com proteína de diversas fontes, o que é um problema para quem tem uma alimentação vegetariana ou vegana.

E não para por aí. As vitaminas do complexo B, presentes numa grande variedade de alimentos, é muito importante para o funcionamento cerebral, em especial o ácido fólico, também conhecida por vitamina B9. Tenho utilizado um vários casos a sua forma ativa, o metilfolato de cálcio, que ajuda a potencializar o efeito dos antidepressivos e é muito seguro.

Enfim, dá para perceber que talvez a grande questão seja justamente esse papo de "grande variedade de alimentos". Não existe super-alimento que vai suprir tudo. Não dá para comer a mesma coisa todo dia; nem arroz e feijão. E se te der uma vontade imensa de comer um hot dog, vá lá e coma. E não pense mais nisso nos próximos 30 dias.

Para saber mais: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2738337/

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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