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Por que as doenças mentais estão aumentando enquanto a saúde geral melhora?

Luiz Sperry

27/01/2020 04h00

Crédito: iStock

Definitivamente não estou entre as pessoas que acreditam que o mundo esteja piorando. Apesar de reconhecer alguns retrocessos bastante óbvios, não faço parte daqueles que acreditam num passado bucólico onde tudo era melhor e mais fácil. Nem mesmo a idade, fator grave de risco para tal comportamento, foi capaz de me fazer sofrer desse saudosismo delirante.

Quase tudo melhorou. As tecnologias são melhores e estão à disposição de muito mais gente do que estavam há décadas atrás. As pessoas vivem mais e melhor. Temos tratamentos e cura para doenças que eram outrora devastadoras. Mas quando a gente fala de doença mental, os dados são certamente mais sombrios.

De forma lenta, porém consistente, o número de novos casos não para de aumentar, de forma consistente, em todo o mundo. São cerca de 300 milhões de pessoas com depressão, 250 milhões de pessoas com transtornos de ansiedade, mais de 150 milhões de dependentes químicos (não incluídos aí os tabagistas), 50 milhões de bipolares e um outro tanto equivalente de pacientes com demência, segundo estimativas da OMS (Organização Mundial de Saúde). Nenhuma dessas doenças parece estar diminuindo sua prevalência.

A pergunta que não quer calar é: por que as pessoas têm ficado mais doentes? Num momento em que se tem mais acesso a alimentação, conhecimento, serviços de saúde, além de menos guerras e miséria do que antigamente, era de se esperar que as doenças mentais diminuíssem.

Mas o que ocorre é justamente o contrário.

O primeiro fator é justamente um viés. Por ser um assunto meio obscuro e um tabu na maior parte dos lugares, foi só mais recentemente que o conhecimento sobre as doenças mentais foi ocupando o lugar social que lhe cabe. Ou seja, antes disso as doenças já estavam lá presentes, mas não havia condição técnica de um diagnóstico correto ser feito, porque não havia o encontro do doente com o serviço e o profissional adequado.

Associado a isso temos também uma mudança nos critérios diagnósticos de algumas doenças, ou seja, é a medicina mudando a fronteira entre o que é normal e aquilo que é considerado patológico. Se por um lado isso permite que uma quantidade maior de pessoas possa usufruir de um possível tratamento, por outro leva também a uma medicalização da vida cotidiana com a finalidade de se vender antidepressivos e afins.

Esses exemplos mostram que parte desse aumento pode ser decorrente de uma maior notificação de casos já existentes, mas não de um aumento real na prevalência dessas doenças. Ao lado disso é preciso pensar que houve também um envelhecimento da população. Quando as pessoas envelhecem são acometidas por diversas doenças decorrentes do envelhecimento, e os transtornos mentais não são uma exceção. A população idosa apresenta uma quantidade maior de doenças mentais, que em geral são mais graves do que as mesmas doenças nos jovens, pois são acompanhadas de outras mazelas de ordem física. E acabam justamente por ser menos tratadas, pois grande parte dos sintomas é ignorada por ser associada a "coisas da idade". 

Outra questão da qual gosto de falar é a relação entre as doenças físicas e as doenças mentais. Sob esse ponto de vista, haveria uma resposta imunológica do nosso corpo a situações de estresse, causada por uma hiperreatividade imunológica de um sistema que já não tem tantos micro-organismos para combater. Enquanto as doenças mentais e as doenças degenerativas foram crescendo nas últimas décadas, as doenças infecciosas tiveram uma queda bastante significativa.

Há ainda uma questão cultural. A conectividade excessiva à qual estamos expostos é um fator de estresse constante, que inclusive tem mostrado uma marca gritante na psicopatologia transgeracional. Os jovens e adolescentes de hoje que foram criados com rede desde sempre apresentam quadros clínicos e respostas que são bastante diferentes das gerações anteriores, que por sua vez não estão livres desses fatores.

No meu tempo, e talvez no seu, leitor, não tinha nada disso. Não tinha internet, não tinha 3g, não tinha celular, era uma maravilha. Quando eu cheguei aqui, isso aqui era tudo mato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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