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A questão trans ainda incomoda muita gente

Luiz Sperry

20/01/2020 04h00

Crédito: Istock

Quando eu era pequeno não tinha gente trans. Ou melhor, tinha a Roberta Close. E a Rogéria. Nada que se compare com a dimensão que o assunto ganhou hoje em dia, tanto nas mídias como no espaço acadêmico. Apesar da transexualidade ser uma condição bastante rara, provoca reações intensas sempre que o assunto surge.

Pudera, sempre fomos condicionados a pensar nas pessoas na condição de homem e mulher, masculino e feminino. E que o gênero é mais ou menos imutável, a pessoa nasce mulher ou homem e assim permanece por toda a vida. Só que essa classificação não consegue abarcar alguns grupos de pessoas, de modo que o que se viu nas últimas décadas foi o movimento trans ganhar cada vez mais força e visibilidade.

É difícil para as pessoas lidar com isso. Tanto entre as pessoas trans, como entre as pessoas não-trans, também chamadas cis, o assunto sempre é traumático. Mesmo no meio acadêmico há inúmeras controvérsias. Não é incomum ver gente reclamando do tanto de visibilidade que se dá a esse assunto.

Como ficou evidente numa fala recente de Paul Preciado num congresso de psicanálise na França. Preciado é um filósofo espanhol peso-pesado, com uma carreira respeitável e com a peculiaridade de ser transgênero. Pois bem, Paul foi à casa da psicanálise e, de uma maneira muito simpática mas igualmente devastadora, desceu a lenha. Basicamente ele acusou a psicanálise de se manter atrelada a valores morais incompatíveis com a nossa época, agarrada a cânones do passado que não encontram eco na realidade atual. Disse que a psicanálise, se foi revolucionária na sua gênese, ao dar contorno e voz ao corpo da mulher e ao seu desejo, permaneceu aprisionada no binarismo sexual e na manutenção do modelo atual.

A crítica é válida, ainda mais se pensarmos que o saber psicanalítico e seu corpo teórico foram derivados da prática clínica, e daí vem o seu valor inestimável. Mas não se pode negar que a clínica de Freud, Klein e Lacan não é a mesma clínica do século XXI. Novas desafios se impõe para nós e é imperativo que nós possamos estar permeáveis a ela.

Não que seja fácil, eu mesmo tenho dificuldades. Esse papo de "a Pablo" ou "o Thammy" soam estranhos cada vez que tento encontrar os pronomes, assim como o uso do x. Mas o que posso fazer é me esforçar para pensar no assunto e tentar enxergar o diferente. Porque as alternativas são a negligência excludente ou pior ainda, a histeria fóbica e burra daqueles que não entendem nada de nada e se voltam de forma violenta gritando idiotices sobre "ideologia de gênero".

E em ciência, muitas vezes o que é raro abre um caminho para a gente poder entender melhor aquilo que é o comum. As luzes que jogamos sobre a questão da transexualidade vão se refletir sem dúvida sobre as questões dos cis.

Mesmo com todas as dificuldades, bom viver numa época em que temos Pablo Vittar, Thammy Miranda, Laerte, Paul Preciado, Ru Paul, Majur e tantxs outrxs. Esse post é pra vocês.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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