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Ano Novo, vida nova. Será?

Luiz Sperry

06/01/2020 04h00

Crédito: iStock

Temos uma fascinação por números redondos, viradas de ano e datas comemorativas em geral. De maneira mais ou menos mística, atribuímos a certas datas específicas poderes sobrenaturais. Um deles é exatamente esse que passou agora, o Ano Novo, uma festa que chamamos eventualmente pelo seu nome francês, Réveillon.

Uma grande parte das pessoas viaja para o litoral e, exatamente à meia-noite,  milhões correm para a praia. Segue-se então um ritual de tradição umbandista: pular as ondas para se conseguir as bençãos da senhora Iemanjá, o poderoso orixá dos mares. Ironicamente, no maior país católico do mundo, ninguém consegue reunir tantos fiéis num ritual simultâneo como a senhora Iemanjá. Ao pular sete ondas, ganhamos o direito de fazer sete pedidos para o ano vindouro, com grande chance de sucesso. Não fosse assim, o que levaria as pessoas a enfrentar a descida da praia, a falta d'água, o calor, a cerveja quente e todos os tipos de insalubridades que estão associados a esse momento sublime? É sem dúvida uma demonstração de fé.

Chegamos então à parte que me toca, que são os tais sete pedidos. O que convém pedir e o que não convém pedir? Nessas alturas do campeonato talvez você possa pensar, corretamente, que não faz diferença, já que o ano passou, o ano chegou, e talvez você nem lembre exatamente de todos os pedidos que fez embriagado de champagne demi-sec, tropeçando nas cangas desse litoral abençoado. Não importa.

O que realmente importa é que existem dois tipos de pessoa: os que sabem lidar com a frustração e os que não sabem. Se você está entre os que sabem lidar com a frustração, pode pedir o que quiser. Dinheiro, amor, sexo, poder, aumento, a cabeça dos inimigos. Tudo isso cabe nas suas sete ondas. Porque quando este ano que se inicia chegar ao final, provavelmente tudo vai estar igual, o dinheiro, o amor, o sexo e, obviamente, as cabeças dos inimigos. Se você não liga para a frustração, toma mais champanhe, pula mais sete ondas, e segue a vida.

Agora se você é do tipo que não lida bem com a frustração, atenção. Deve-se tomar alguns cuidados com os desejos, porque esses desejos vão se tornar aquilo que nós chamamos curiosamente de "resoluções de Ano-novo". Que de resoluções não tem nada, são muito mais algo próximo do desejo infantil do que uma resolução certeira e estabelecida. Se você pedir mundos e fundos, quando chegar lá por setembro ou outubro você vai começar a perceber que dos seus sete desejos, aquele de poupar uma parte do seu salário não passou do Carnaval, os dez quilos que você queria perder agora são doze e o tênis novo de corrida ainda está com a etiqueta. Vai bater um desespero e o sonho vai virar angústia.

Nesse caso, sugiro que você redimensione suas metas. Nada de sete desejos, escolha um, no máximo dois. E tente, se possível, estar mais atento aos meios que aos fins. Perder peso ou ganhar dinheiro são metas sujeitas a diversas variáveis que não dependem totalmente de você. Mas se você se empenhar em fazer exercícios três vezes por semana, ou dedicar uma parte do seu tempo para afiar o seu inglês e finalmente poder botar isso no seu currículo sem se sentir uma farsa, a chance de sucesso aumenta.

Caso contrário, se tudo der certo para nós, teremos outra chance na próxima virada. Praia, roupa branca, oferendas ajudam. A paciência da senhora Iemanjá é infinita.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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