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Saúde mental não é um problema só de gente branca

Luiz Sperry

16/12/2019 04h00

Crédito: iStock

A expressão "White People Problems" (problemas de gente branca, em tradução literal) normalmente é usada para descrever algum tipo de drama existencial de quem não tem problema de verdade, uma frescura. Não que sejam restritos a pessoas necessariamente brancas, um negro em última instância pode ter White People Problems, mas num país como o Brasil, onde vigora uma desigualdade racial gritante, a sutileza do termo quase se perde.

Exemplos corriqueiros podem ser vistos todo dia por aí, principalmente nas redes sociais. Coisas do tipo "Você acredita que a gente veio pra praia e não tinha nenhuma garrafa de Absolut? Estamos tendo que beber Smirnoff!!!" ou então: "Não acredito que errei o ponto do Carbonara de novo! Desisto!". Nesse momento você já deve ter entendido o que eu quero dizer, mas talvez se pergunte, que raios isso tem a ver com psiquiatria e saúde mental?

Nada e tudo. Embora a psiquiatria e a psicologia clínica nas suas mais variadas formas se proponham a resolver uma série de questões uma parte importante dos pontos que se apresentam acabam por ser questões eminentemente referentes à classe média. Mas então você está dizendo que doença mental é frescura? Claro que não, estou dizendo que as doenças precisam sempre ser abordadas numa dimensão cultural.

E isso não se aplica apenas quando falamos de saúde mental. Quando a gente fala sobre a epidemia de HIV/AIDS na África, por exemplo, estamos sendo bastante imprecisos, porque os números alarmantes de Botsuana e África do Sul contrastam com a prevalência baixíssima em países do norte do continente, como Egito ou Tunísia. Assim como os dados em diferentes regiões do Brasil podem variar enormemente, assim como em diferentes populações dependendo da sua vulnerabilidade.

Em saúde mental ocorre algo semelhante. A própria psicanálise foi construída sobre um alicerce cultural totalmente White People Problems. A teoria foi desenvolvida por pensadores judeus no Império Austro-Húngaro com o intuito de tratar a burguesia local. Com o tempo foi se disseminando para a Europa Ocidental, notadamente França e Inglaterra, mas sem perder jamais seu caráter burguês. Isso não é necessariamente um defeito, porque na clínica o sofrimento aparece de diversas maneiras e cabe a nós tentar ajudar as pessoas de acordo com as suas demandas. Mas certamente é uma limitação do método. Quando surgem questões novas e até mesmo novas formas de adoecer, como por exemplo essa epidemia de adolescentes que se cortam e se matam, enxergo a psicanálise fazendo um grande esforço para alcançar e se adaptar às novas situações, mas já bem longe de sua zona de conforto.

Com a psiquiatria ocorre algo semelhante. A psiquiatria moderna de algoritmo, supostamente biológica, se presta muito a manter as pessoas funcionais. Mas não tem a menor ideia do que fazer quando se depara com um problema da dimensão da Cracolândia. Aí ela perde a pose, se encolhe, recua e acaba por se esconder atrás da polícia. Falta criatividade e falta coragem.

A dimensão cultural da assistência fica evidente em situações do nosso dia a dia. Para muitas pessoas, tomar remédio é inconcebível, assim como para outras fazer psicoterapia simplesmente não faz sentido, assim como a eletroconvulsoterapia ou a internação.

Tenho atendido nesse último mês um caso muito grave de um rapaz com risco altíssimo de suicídio. Recomendei fortemente à família que ele fosse internado, fiz carta, tentei ser persuasivo e tentei ser enérgico. Nada fez com que aquela família internasse o menino. Simplesmente a ideia de internação era para eles inconcebível. A própria condição da doença era muito difícil de ser compreendida na totalidade. Claro que nossas clínicas de internação em psiquiatria não cultivam uma fama que seja muito favorável, mas a situação era dramática; ainda é. E provavelmente, em meio aos meus problemas de gente branca do ano novo, certamente eu carregarei junto essa questão, mais profunda e dolorosa. São ossos do ofício.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

Blog do Luiz Sperry