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Doença mental torna alguém mau caráter? O problema do tweet de Felipe Neto

Luiz Sperry

09/12/2019 04h00

Reprodução / Twitter

Começou com um tweet do Felipe Neto, falando sobre o governo e doença mental. Os seguidores replicaram e comentaram, até que alguém sabiamente observou: doença mental não é mau caratismo. Mas porque essa associação é feita com tanta frequência?

Neste caso, disse Felipe Neto, o youtuber mais influente do país: "Pré-requisito para ser indicado para algum cargo desse governo: ter doença mental". E foi seguido por comentários como: "Esse governo é uma espécie de catálogo 3D do CID-10" ou ainda o bem menos sutil: "Doença mental=ruindade, espírito de porco, criminosos, gente com gosto de sangue na boca".

Essa confusão acontece, entre outras coisas, porque tendemos a ter um raciocínio linear, no qual a loucura/doença mental é vista sempre como uma coisa ruim enquanto a sanidade é sempre positiva. De fato isso faz um certo sentido, e já estou nessa área a tempo demais para não cair nessa onda de que doença mental não é necessariamente ruim. O problema da questão está justamente no termo linear. Se alinharmos todos os quadros mentais num único fio, indo do mais louco ao menos louco, o único jeito que vamos conseguir olhar para essa linha é olhando para dois polos, o louco (e consequentemente ruim) e o são (consequentemente bom). É uma armadilha mental, porque temos a tendência de simplificar as coisas que não compreendemos direito para que elas façam sentido, mas no final chegamos a uma situação que não corresponde à realidade.

E como a gente poderia compreender isso de uma maneira mais condizente com a realidade? A gente poderia montar um gráfico, relacionando o nível de doença mental e outros traços de caráter e personalidade. Ter doença mental não é definitivamente nem uma medida de bondade nem de maldade. Existem pessoas muito doentes e muito cruéis, assim como existem pessoas muito doentes e bondosas, não doentes cruéis e não doentes bondosas. E entre isso, muitos outros tons de cinza que é onde em geral se encontra a grande maioria das pessoas.

Esse modo de enxergar as coisas, não linear, chamado dimensional, é bem mais interessante e nos livra de algumas distorções, embora ele mesmo tenha suas limitações. A começar porque comparar gravidade de doenças diferentes é algo complicado. Comparar padrões de caráter é complicado. E vale sempre ressaltar: doença mental e caráter são alguns dos incontáveis traços que compõem nossa personalidade, estão muito longe de definir quem realmente somos.

Posto isso, volto à discussão original: teria esse governo uma quantidade maior de pessoas com doença mental do que o usual? Obviamente a bola da vez era o novo presidente da Funarte, Dante Mantovani, terraplanista confesso, que entre outras declarações, disse que: "o rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto, que por sua vez ativa uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo".

Não sou médico dele, mas posso dizer que se ele acredita nessas coisas de verdade, deveria procurar ajuda profissional. Quando a gente acredita em algo que em última instância não é verdade, podemos estar delirando. Assim como outros ministros da chamada ala circense do governo, que acreditam que estão numa cruzada pelos valores cristãos contra a doutrinação marxista globalista, paranoia pura. Sim, provavelmente esse governo tem uma quantidade maior de pessoas com transtorno mental que em qualquer governo anterior. Vale a pena lembrar que qualquer governo já reúne, em princípio, uma quantidade de psicopatas maior do que a população em geral.

E em tempo: não tenho nada contra o Felipe Neto, apesar de achar a colocação infeliz, como os próprios comentários confirmam. Trata-se de pessoa que admiro muito e com a qual concordo em grande parte das vezes.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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