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Por que algumas pessoas não seguem o tratamento psiquiátrico?

Luiz Sperry

18/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Sempre se fala que uma quantidade enorme de pessoas toma remédio psiquiátrico. Outra parcela considerável faz algum tipo de terapia. E evidentemente existem aquelas pessoas que fazem as duas coisas. Sem falar em outros tipos de tratamento, como mindfullness, métodos físicos e por aí vai. Mas existe uma parcela enorme de pacientes que não toma os remédios ou acaba por não fazer tratamento nenhum.

Os números são sempre bastante altos e variam de doença para doença. Metade dos pacientes com depressão não vão estar tomando corretamente os remédios após 3 meses de tratamento. Pacientes com esquizofrenia têm uma taxa de adesão ao tratamento entre 50 e 60% enquanto os bipolares chegam a parcos 35% de adesão. É muito pouco, ainda mais se considerarmos que, fazendo o tratamento como deve ser feito, a taxa de sucesso já não lá essas coisas.

Por que as pessoas não tomam os remédios? Por que elas não fazem terapia? Provavelmente por vários motivos. Qualquer tratamento médico é difícil de ser seguido. Tem gente que não toma direito porque esquece, enquanto outros não tomam direito porque não foram corretamente orientados ou simplesmente não entenderam. Algum decidem de fato não tomar as medicações e ainda tem uma parte que simplesmente não conseguimos identificar o porquê das falhas de tomadas. 

Quanto mais complicado o esquema medicamentoso, mais fácil de dar errado. Doses únicas diárias são mais fáceis de serem seguidas do que doses divididas em duas ou três vezes. Na psiquiatria temos eventualmente a facilidade de medicações de depósito, que são formas injetáveis que duram várias semanas e são realizadas com data marcada, em geral sob supervisão da família. O problema é que existem poucas medicações disponíveis nessa forma e eventualmente o custo é alto, o que limita essa possibilidade.

Claro que todo tratamento tem prós e contras. Os contras no caso podem ser efeitos colaterais, mas muitas vezes um custo em tempo ou dinheiro. Isso considerando-se uma melhora importante nas medicações psicotrópicas nas últimas décadas a respeito de efeitos colaterias e de segurança. Os remédios não são mais eficientes que aqueles de antigamente, mas são muito mais fáceis de tomar. Mesmo assim, os efeitos adversos ainda são uma questão. Por exemplo, uma grande parte de antidepressivos pode dar ganho de peso ou disfunções sexuais de vários tipos. Psicoterapias em geral não dão ganho de peso ou disfunção sexual, mas vão consumir algumas centenas de reais por mês e algumas horas da sua semana. Até uma inocente exposição ao sol, que aumenta os níveis de vitamina D e melhora os sintomas depressivos pode aumentar o seu risco de câncer de pele.

"Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!". O poema de Cecília Meirelles vem com uma afirmação e com um lamento: "é uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares". Quando a gente não toma um remédio a gente tenta estar ao mesmo tempo nos dois lugares: no de doente e no de saudável. Em alguns quadros, como no transtorno do pânico por exemplo, a melhora às vezes é tão rápida e dramática que é comum a pessoa pensar "será que eu preciso mesmo?". É a vaidade, meu pecado predileto, sussurrando. Cabe aqui a humildade; sim você precisa. Todo mundo tem que fazer o tratamento direito, tem que fazer a terapia, tem que fazer a ginástica, o alongamento, comer as verduras, dormir a noite toda, beber com moderação e tudo o mais. Não tem almoço grátis.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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