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Psiquiatria infantil merece cuidado para evitar diagnósticos errados

Luiz Sperry

11/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Não é propriamente segredo que cada vez mais as crianças têm ido ao psiquiatra e têm tomado cada vez mais medicações. Essa nova onda da psiquiatria infantil já dura mais de uma década e não dá sinais de que esteja para acabar. E como consequência, de tempos em tempos somos obrigados a nos questionar se isso faz de fato algum sentido.

Falar em onda é, de certa maneira, impreciso. Uma onda pressupõe um movimento que tenha certa uniformidade no tempo e no espaço. O que vemos hoje em dia na psiquiatria da infância e da adolescência são movimentos muito divergentes de acordo com cada realidade. A maior parte das pessoas ainda sofre com a falta de informação e falta de assistência. A saúde mental sempre foi a área mais precária do nosso sistema público de saúde e os movimentos atuais apontam no sentido de uma precarização ainda maior destes serviços. Enquanto isso, nos grandes centros, nós de fato podemos perceber um aumento na quantidade de diagnósticos, feitos inclusive em idades bastante precoces, assim como no consumo cada vez maior de medicações por esses pacientes.

É um movimento semelhante ao que se observa nos EUA, onde podemos afirmar que de fato houve uma banalização da psiquiatria em certos meios. A afirmação "meu filho tem que tomar Ritalina porque todo mundo na classe dele toma" é o epílogo triste de uma sociedade que não entende o significado de doença, de remédio, de classe e nem de filho.

Em termos gerais, os transtornos mentais da infância podem ser de quatro tipos: autismo, TDAH, transtornos do humor e transtornos de ansiedade. Em todas as quatro áreas temos observado um crescimento nos diagnósticos a cada ano. Uma visão mais cuidadosa nos mostra que as causas são diversas. Uma abordagem mais cuidadosa nos permite fazer alguns diagnósticos mais precisos de depressão e ansiedade em crianças, assim como em adolescentes. Os quadros se manifestam de maneira diferente em idades mais precoces, sendo necessária uma avaliação bastante cuidadosa. 

Mas por outro lado, os critérios de avaliação de TDAH e do agora chamado TEA (Transtorno de Espectro Autista) criaram um ambiente propício ao diagnóstico hiperinclusivo. Ou seja, acaba-se por diagnosticar pessoas que não tem de fato aquele problema. Ou seja, diagnósticos errados. Pessoalmente não enxergo nenhuma vantagem nessa forma de diagnóstico de TEA. O que antes era um assunto já bastante complexo e desafiador agora ficou um pouco pior, ao abarcar sob o mesmo diagnóstico pessoas com disfunções graves de linguagem e comportamento até pessoas que são, em última instância, introvertidas.

Em relação ao TDAH a maior parte dos médicos usa uma lista de sintomas semelhante aos testes de revistas de adolescentes. Todo o contexto em torno daquela criança acaba por ser ignorado. Todos os outros quadros psiquiátricos que poderiam se confundir, como depressão por exemplo, ignorados. E todos nós sabemos que existem crianças mais agitadas e crianças menos agitadas. Uma criança mais agitada dificilmente vai escapar do diagnóstico de TDAH pelos atuais critérios. E acabamos por nos perguntar: toda criança agitada deve ser medicada?

Uma parte disso tudo é reflexo de problemas que não dizem respeito às crianças, mas aos pais. Existem pais que são muito ansiosos e interpretam qualquer dificuldade da criança como algo eventualmente patológico. Existem pais inseguros que fazem meio que o contrário, acreditam que qualquer problema que a criança venha a ter é um sinal de insuficiência deles, e consequentemente acabam sendo negligentes ao relutar muito para procurar ajuda. Existem pais que se agarram a dogmas e mantras rígidos (Teoria do Apego, Teoria do Desapego, Terraplanismo e sabe-se lá o que mais) que acabam por desviar o foco do cuidado direto e atento. E claro, os pais meritocratas, que treinam desde cedo os "futuros campeões" em escolas bilíngues, trilíngues, violino, MMA, snowboard, poesia provençal, tudo isso porque "ele gosta muito" é claro "eu não pressiono a nada, doutor". Sei. Esse caso é um que corre um grande risco de ser medicado para a criança dar conta de uma agenda que é simplesmente desumana. 

Pois bem, como eu disse, essa onda, que por enquanto só é uma onda para quem pode, está longe de acabar. Cuidemos para que os benefícios possam chegar a todos, mas também que os malefícios não cheguem a ninguém.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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