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Crises de pânico passam e não deixam sequelas, mas é preciso tratar a causa

Luiz Sperry

16/09/2019 04h00

Crédito: iStock

A cena era frequente. Entrava uma mulher, jovem pela emergência, normalmente em maca ou cadeira de rodas, trazida por um acompanhante muito aflito que gritava com todos em volta reclamando da nossa falta de atenção. Era um Deus-nos-acuda no pronto socorro. Mas desde muito cedo a gente aprende a identificar, pelo bater das pálpebras e pelas mãos contraídas: era uma crise de pânico.

Em geral ficávamos, nós, tomados de um sentimento de ultraje. Estávamos no PS para "salvar vidas" e entrava a paciente causando aquele furor, como uma tempestade, sem deixar pedra sobre pedra na sala de emergência. Monitorizada a paciente, uma ampola de diazepam depois, tudo voltava ao normal.

Toca a gente a explicar que aquilo era uma crise de pânico e a pessoa, imediatamente mais calma, dizer que já tinham falado isso para ela, mas ela não acreditava, como é que podia, ela SENTIA o coração disparado. Ela inclusive já tinha ido em 400 cardiologistas, neurologistas e afins e feito TODOS os exames e tinham todos dado normais, como é que era possível.

Pois é, é assim mesmo. Os exames não mostram nada, mas a doença mostra tudo. 

Do ponto de vista neuropsiquiátrico existe um jogo entre duas regiões do cérebro. O córtex pré-frontal e a amídala. Essa amídala cerebral é o centro que dispara essas reações primitivas, de ansiedade extrema, que por sinal são muito adequadas a situações de fato extremas. Não confundir com a amídala que existe na nossa garganta e não serve para muita coisa além de proporcionar amidalites e fazer sofrer.

Já o córtex pré-frontal serve, entre outras coisas, para controlar essas respostas exageradas e conseguir planejar soluções menos radicais. Ou seja, durante uma crise de pânico temos uma diminuição da atividade pré-frontal e um aumento da atividade da amídala.

Essa resposta parece ter muitas vezes um sentido. Não é de se estranhar que a crise de pânico seja tão mobilizadora, ela é um pedido muito determinado de ajuda. Sendo assim, não faz sentido passar despercebida ou ser discreta. A crise obriga a pessoa a parar de fazer tudo que está fazendo e procurar um serviço médico. Ela vem carregada da simbologia mais forte que existe: um risco iminente de morrer. Causa um incômodo que podemos comparar com o choro de um bebê. Se os bebês chorassem baixinho ninguém viria acudí-los.

A parte boa da estória é que a crise de pânico não mata ninguém. Apesar do desconforto imenso, ela passa sem deixar sequelas. Geralmente responde bem ao tratamento com antidepressivos, mas atenção! Ela tem uma causa, que deve ser tratada. Não adianta tomar o remédio e continuar fazendo as mesmas coisas do mesmo jeito. Senão ela volta.

Ao menos hoje em dia quando vejo uma crise de pânico a minha reação é bem mais simpática. Penso que vai passar e, em última instância, aquela vida vai ser salva.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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