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Vivemos a "era do ego", mas isso não é necessariamente ruim

Luiz Sperry

19/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Tem alguns anos já que me deparei com uma pichação curiosa no muro:

– MORTE AO EGO!

A palavra de ordem era forte. Tive que gastar alguns segundos na interpretação do chamado e cheguei a conclusão de que uma grande injustiça estava sendo cometida naquele espaço urbano. A culpa definitivamente não era do Ego.

O que o autor do picho provavelmente queria dizer era: "Morte a essa sociedade atual, onde o individualismo predomina sobre as relações humanas! Morte a essa sociedade onde o sujeito se fecha em condomínios e muros cada vez mais altos e intransponíveis, de modo a segregar o outro ao invés de celebrar a união! Morte a esse mundo onde os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade não são mais do que palavras ao vento ou cores em velhas bandeiras! Morte ao capitalismo burguês que coisifica as pessoas e as destrói, como meras engrenagens supérfluas de uma máquina monstruosa que não pode jamais parar!". Mas provavelmente, por uma questão de concisão e pragmatismo, demonstrou todo seu poder de síntese e tascou: "Morte ao Ego" mesmo.

Em primeiro lugar, é importante dizer que o Ego não existe. Quero dizer, não existe concretamente, como as plantas, os tijolos ou seu pâncreas. O que chamamos de Ego é uma abstração, criada pela psicanálise e depois reproduzida por outras áreas das ciências. Inclusive Ego já é uma espécie de nome artístico, já que na descrição original em alemão o nome da coisa é Ich, ou seja Eu, em tradução literal.

No conceito psicanalítico, o Ego/Eu é um dos componentes do nosso aparelho psíquico, junto com o Id e o Superego (também chamados de Isso e Supereu, no original Es e Überich). Esses termos descrevem alguns tipos de locais na mente onde ocorrem determinados tipos de eventos psíquicos.

O Id por exemplo, é o local onde nascem os desejos inconscientes. Nem dá pra chamar exatamente de desejo, já que são sensações ainda muito primitivas. É como se fosse um grande balaio de sentimentos, sem forma e sem etiqueta. As coisas no Id não respeitam a nossa lógica nem a nossa temporalidade. Um jeito interessante de ilustrar isso é pensar no funcionamento do sonho. É mais ou menos essa a linguagem do Id. E é fundamental pensar que ele é inconsciente por excelência, conseguimos apenas vislumbrar o que se passa lá, mas não perceber realmente.

Já o Superego é uma instância em parte consciente, onde residem os ideais e valores morais. Ele tem a função de corrigir nossos comportamentos e conduta. Quando você pensa: preciso ser assim ou assado, tem o dedo do Superego aí. Quando você se culpa e se condena por determinada ação, é o Superego que te julga e ele é quem executa a pena. Interessante notar que uma parte dessas ações também se dá de forma inconsciente, como recalcamos pensamentos sem nem perceber.

E o Ego nisso tudo? O Ego tem que resolver esse conflito inevitável, entre o Id desejante, porra-louca e faminto e o Superego controlador e severo. Cabe a ele conseguir dar uma forma aos desejos para que eles possam ser realizados, na medida do possível. Isso sem pisar nas linhas traçadas pelo Superego, pois o castigo pode ser doloroso. Para isso o Ego é dotado das nossas tão celebradas capacidades de razão e lógica. É o Ego que consegue planejar e executar ações, pois é aqui que está nossa percepção de tempo e, claro, consciência da realidade.

Não é exagerado pensar que nós vivamos na Era do Eu. É, sem dúvida, a instância mais turbinada da realidade. O que é inconsciente e subjetivo está totalmente fora de moda, coisa de gente de humanas. O Superego, que já reinou em outros tempos, também não é o mesmo num tempo onde um dos imperativos é "você pode tudo", "tudo está ao alcance de um clique". O Ego, o grande burro de carga da psiquê, está com tudo hoje em dia. Um sinal disso é o sucesso de coaches e afins, que são em última instância, personal trainers de Ego.

Só que é também o Ego quem sofre. O Id não tem consciência e o Supereu não tem dó de ninguém. Existe uma frase célebre que diz que o Ego serve a três senhores tirânicos. O Id, o Supereu e, não podemos nos esquecer, a realidade. Sim esse Mundão-de-Meu-Deus, que não está nem aí para nossas neuroses e nos manda tempestades, acidentes, frentes frias e boletos para a gente ter que se virar. Quando eu digo a gente quero dizer novamente ele, sim, o Ego. Viva o Ego!!!

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

Blog do Luiz Sperry