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Blog do Luiz Sperry

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Como a resposta imune pode afetar nossos sentimentos

Luiz Sperry

22/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Não deixa de ser um certo lugar comum a já tão falada relação entre as doenças mentais e as doenças do corpo. Assim como sabemos que as doenças do corpo podem nos botar todos loucos, sabemos também que as doenças mentais, através de uma série de mecanismos, leva a doenças físicas. Chega a ser quase um clichê. Mas o que nós certamente não percebemos é que essa relação talvez seja muito mais profunda e estrutural do que poderíamos um dia imaginar.

Tudo começou com o Sapiens. Ao longo da evolução, era primordial para nós, bem como para qualquer espécie, sobreviver até a idade de reprodução. Nossos maiores adversários nessa empreitada sempre foram os micro-organismos patogênicos, como vírus e bactérias, que ao longo dos séculos ceifaram bilhões de vidas em todas as idades. Até poucas décadas atrás, tuberculose, malária, tifo e gripe espanhola mataram mais gente que todas as guerras do mundo somadas.

Em virtude disso o Sapiens desenvolveu um potente sistema imunológico, capaz de lidar com uma grande diversidade de doenças. Dados inclusive indicam que houve um aumento da capacidade imunológica na Pré-História, em decorrência do cruzamento de indivíduos Homo Sapiens com outros hominídeos já extintos, como os Homens de Neanderthal e Homens de Denisova. Ou seja, nos tornamos mais fortes porque somos miscigenados, verdadeiros vira-latas antropológicos.

Essa capacidade imunológica toda sem dúvida permitiu que nós conseguíssemos diminuir de forma significativa a morte por infecção na infância. Estávamos aptos inclusive a resistir a doenças de outras espécies, como cães, bois e cavalos, que puderam então ser domesticadas para nosso benefício. A resposta imune se tornou tão sofisticada que podemos perceber alterações comportamentais bastante marcantes na presença de um estado inflamatório. Os mediadores inflamatórios tendem em geral a causar mal-estar, isolamento e diminuição da atividade do indivíduo, o que faz todo sentido, mas causam também um aumento da vigilância, com o intuito de aumentar a segurança contra possíveis riscos.

O que ocorre é que o nosso sistema imune reage muitas vezes de forma exagerada a situações que não são propriamente da alçada imunológica. Situações de estresse como trânsito pesado, dieta desregulada, agressões físicas ou verbais ou ainda privação de sono acabam sendo respondidas com respostas inflamatórias. E essas substâncias inflamatórias acabam levando nosso corpo àquela situação de isolamento e prostração próprias da doença, mas dessa vez sem bactéria. Ou ainda a situação de hipervigilância. Temos aí um possível componente inflamatório tanto da depressão quanto da ansiedade.

Para quem possa estar achando tudo isso uma grande viagem, não é demais lembrar que o interferon, uma substância altamente inflamatória que é usada no tratamento das hepatite (sobre a qual inclusive falei aqui no blog recentemente), é sabidamente causador de quadros depressivos bastante intensos.

E sabemos também que o desfecho final da inflamação é a ativação de substâncias oxidativas, que tem um certo efeito tóxico, em princípio, claro, contra os micro-organismos invasores. Não é à toa que tem surgido uma febre na última década a respeito de agentes antioxidantes, que têm a propriedade justamente de anular esses efeitos tóxicos e diminuir a inflamação de uma maneira geral. Os bem conhecidos ômega 3, por exemplo já tem efeito comprovado no tratamento da depressão ( em doses superiores a 1,5 g por dia).

Não seria um exagero pensar nosso corpo como um estado fortemente militarizado, que se valeu disso para ter sucesso ao longo dos anos. Mas que talvez ultimamente venha pagando o preço de respostas militares para problemas que são de outra ordem.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.