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Por que não podemos simplificar o suicídio? Fatores importantes sobre isso

Luiz Sperry

08/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Durante um evento em Aracaju, com a presença do governador de Sergipe e do Ministro de Minas e Energia, o empresário Sadi Gitz ergueu-se da plateia e bradou: "Governador, o senhor é um grande mentiroso!". Dito isso, sacou uma arma, apontou para a própria cabeça e disparou.

O evento, como não podia deixar de ser, foi amplamente divulgado pela imprensa. Apesar de suicídios ocorrerem a todo momento, não é comum toda essa dramaticidade no desfecho. E foi igualmente rápida a resposta das pessoas, sem nenhum pudor em dizer que o caso era uma "consequência do desespero do empresariado em decorrência da política econômica do governo", assim como obviamente relacionaram a morte a "quinze (sic) anos de governo petista". Houve ainda quem tirasse sarro e dissesse algo na linha "coitadinho do empresariado brasileiro". Em todos os casos é notável como o suicídio, uma vez consumado, gera uma inquietação estranha nas pessoas e as leva a falar essa quantidade enorme de bobagens.

Tenho cá algumas teorias. Em geral as pessoas tendem a se sentir desconfortáveis frente ao inexplicável. A dificuldade das pessoas em manter a boca fechada parece estar relacionada com a inclusão do suicídio nessa categoria. Porque em geral as pessoas têm várias impressões incorretas sobre o suicídio, a ver.

Em geral o suicídio é creditado como uma consequência mais grave de alguém com depressão. Isso não é exatamente incorreto, mas é apenas uma das possibilidades de apresentação do fenômeno. Apesar da forte correlação entre suicídio e doença mental, (principalmente transtornos de personalidade, transtornos do humor e abuso de substâncias), cerca de 10% dos suicidas não apresentam nenhum antecedente psiquiátrico.

Outro dado normalmente desconhecido é que o suicídio ocorre mais em idosos que em pacientes mais jovens. E também é mais frequente em homens do que em mulheres. Os homens inclusive tem preferência por métodos mais violentos e eficazes como enforcamento e uso de arma de fogo (quando disponível). E sim, armas de fogo em geral aumentam o risco de morte por suicídio.

Mas a incidência costuma variar muito de um lugar para outro. Na Grécia a incidência de suicídio é de aproximadamente 5 para cada 100.000 habitantes enquanto na igualmente europeia Lituânia chega quase a 40 casos para os mesmos 100.000 habitantes. Já no Cazaquistão é algo em torno de 30 para 100.000 enquanto no vizinho Irã tende quase a zero. Para efeitos de comparação, no Brasil está em 5/100.000 e a média mundial é de cerca de 15/100.000 (os dados foram compilados em estudo da revista científica The Lancet).

Podemos perceber que há uma grande quantidade de perguntas sem resposta. Ou seja, ainda sabemos muito pouco sobre o assunto. Os dados inclusive não são totalmente confiáveis, pois em muitas culturas o suicídio é visto como algo desonroso, de modo que os dados estão sempre subnotificados. E mesmo nos grupos com alto risco, como pessoas com transtornos de humor, transtorno de personalidade ou com antecedente de automutilação, as medidas de prevenção estão longe de serem satisfatórias.

Suporte psicológico, controle dos meios de suicídio (como armas de fogo ou veneno em casa), acompanhamento médico ajudam, apesar de suas limitações. Políticas públicas, como proteção física em pontes e viadutos ou controle da informação de suicídio em linhas de trem e metrô também estão associados à diminuição da incidência de casos. O uso de medicações psiquiátricas pode ter benefício em alguns casos, como o uso de lítio em pacientes bipolares, mas em alguns podem eventualmente aumentar o risco de suicídio, como o uso de antidepressivos em adolescentes. Ou seja, sair medicando todo mundo indiscriminadamente não é uma boa medida de controle de suicídio, ok?

O suicídio nunca é decorrente de uma única causa. Estão relacionados com a genética, a gestação, a infância, a estrutura familiar, o ambiente social, a cultura, enfim, com toda história de vida da pessoa. Querer simplificar a questão apenas vai levar a mais erros e medidas ineficazes.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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