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Antipsiquiatria diz que saúde mental é mito: não concordo, mas faz sentido

Luiz Sperry

2024-06-20T19:04:00

24/06/2019 04h00

Crédito: iStock

"Saúde Mental é um mito". Quem diz isso é a professora Bonnie Burstow, da Universidade de Toronto. Ela é uma das principais personalidades de um movimento de décadas chamado de Antipsiquiatria. E ela não tem pudores em dizer que a psiquiatria tem que ser banida.

O que vem a ser a antipsiquiatria? Em última instância é um movimento de crítica à psiquiatria tradicional, que ganhou força principalmente nos anos 1960. Entre as críticas estavam principalmente o uso da psiquiatria como forma de controle social, o poder totalitário das instituições psiquiátricas sobre seus pacientes e a eficácia questionável de seus métodos. Ainda que a professora Burstow não negue a existência do sofrimento psíquico, ela diz que essa classificação e o manejo das supostas "doenças mentais" seria arbitrária e ineficiente.

Talvez seja importante salientar que não compartilho dessa opinião. Mas sem dúvida existe fundamento em uma grande parte das críticas que a antipsiquiatria faz da psiquiatria.

Em primeiro lugar, a psiquiatria é usada, sim, como forma de controle social, ainda hoje. Basta estar atento ao noticiário para ver que a nova legislação de "saúde mental" (olha ela aí) facilita a internação involuntária de pacientes. Considerando-se que não há igual fomento para as outras modalidades de tratamento, fica evidente que a política é de esvaziar as Cracolândias e não fornecer um tratamento de fato para a questão do sujeito. É a psiquiatria fazendo papel de polícia higienista.

Outra questão importante é a da medicalização da psiquiatria. O número de diagnósticos cresceu tanto que hoje em dia é muito difícil se conseguir alguém que não tenha diagnóstico nenhum. Anos atrás, num estudo importante da USP, uma professora precisou de um certo grupo de pessoas consideradas normais para testar uma medicação. O caso virou uma epopeia, pois foram testadas mais de mil pessoas para se conseguir um pequeno grupo de normais, e ficou tão famoso que virou o grupo de "normais" da psiquiatria e todo estudo que pretendia comparar com "normais" passou a utilizá-lo.

Obviamente todas as pessoas por conseguinte anormais são clientes em potencial, podendo ser medicadas e movimentando uma indústria que envolve bilhões de dólares por ano. Mas ninguém naquele momento pensou: se preciso de milhares de pessoas para separar 50 normais meus critérios devem estar errados. Inclusive o foco que é dado aos tratamentos medicamentosos tende a ser muito maior que a tratamentos não medicamentosos. Sabemos que exercícios regulares três vezes por semana ou exposição ao sol diária são tão eficazes quanto antidepressivos, mas quantos psiquiatras de fato prescrevem esses tratamentos?

Inclusive serve de motor para críticas antipsiquiátricas esse exercício de fé que a psiquiatria demanda ao falar genericamente de "doenças orgânicas". Ora, o que temos até agora são arremedos de princípios orgânicos surrupiados da farmacologia (bloqueio D2 melhora psicose, aumento de serotonina melhora ansiedade e depressão) mas com lacunas enormes que não podem dar corpo a nada que se pretenda a ser científico de fato.

Lembrando inclusive que próprio fundador do movimento da antipsiquiatria, Ronald Laing, rejeitou o termo. Dizia ele que praticava então a "verdadeira psiquiatria".

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.