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Blog do Luiz Sperry

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Massacre em Suzano, espancamentos e barbáries: afinal, de quem é a culpa?

Luiz Sperry

18/03/2019 04h00

Crédito: Suamy Beydoun/Agif/Estadão Conteúdo

Vivemos num tempo difícil. Quando comentar o noticiário muitas vezes se confunde com um blog sobre saúde mental e afins, é certeza que algo incomum está acontecendo. Um espancamento aqui, um homicídio ali, um governante que sempre volta e meia fala algo insano. Agora foi o massacre de Suzano, a loucura na sua manifestação mais aberrante.

Por um lado facilita-me o trabalho de caçar pauta que seja do interesse do leitor. As abordagens são diárias: "você viu? o que eles tinham? Será que era culpa da mãe?". Todo mundo começa a especular, porque é inadmissível para o ser humano deixar certas perguntas sem resposta. Nem que tenhamos que recorrer ao velho truque de culpar Deus ou o Diabo por aquilo que não nos faz sentido. O fato de duas pessoas entrarem numa escola, matarem todo mundo e se matarem no final não faz sentido.

Urge então encontrar uma justificativa para isso. Ouvimos de tudo por aí em poucos dias. A culpa é do Bolsonaro. A culpa é do desarmamento. A culpa é da família. A culpa é da falta de família. A culpa é da imprensa, que dá muito cartaz para esse tipo de evento. A culpa é do imperialismo americano, que exporta seu comportamento doentio pelo mundo. A culpa é do videogame, cada vez mais onipresente e violento. A culpa é da internet, que expõe as pessoas a conteúdos muitas vezes chocantes e doentios.

Podemos falar que todas alternativas estão certas em parte, mas todas estão erradas em parte. Porque o mais óbvio muitas vezes não é dito, que é o fato que a culpa do massacre é de quem realizou o massacre. Mas também é evidente que o comportamento dos assassinos é notoriamente doentio, tão doentio que eles mesmos não sobreviveram à sua própria loucura. E se existe algo que é fundamentalmente humano a que nós nos apegamos, mesmo nas condições de maior sofrimento, isso é nosso senso de autopreservação.

Mas sem dúvida há, na atualidade, um sentimento de violência que em parte é propagado pelo governo e seus apoiadores. Historicamente a extrema-direita (assim como a extrema-esquerda) sempre foi adepta de uso político da violência. O governo atual foi eleito com um discurso que enaltecia o uso da violência. Criou um pacote de medidas que entre outras coisas, justifica o homicídio em situações de "medo, surpresa ou violenta emoção". Os autores desse massacre muito provavelmente acreditavam, na sua lógica distorcida, que estavam fazendo justiça. Mas culpar o discurso de ódio do governo de extrema-direita não explica tudo. Inclusive porque todas outras pessoas que vivem sob esse mesmo governo não cometeram massacre nenhum, ao menos não nesses moldes.

Nós também sabemos que a família estruturada e amorosa é um fator de proteção fundamental no desenvolvimento das pessoas. Assim como a exposição a cenas de violência, real ou virtual, abusos e afins, durante a infância, são fatores que predispõe a perpetuação dessa violência na idade adulta. O videogame (que de fato se tornou mais violento), o bullying (que já existia, mas mudou de nome e ganhou requintes de crueldade com o advento da internet) são questões que devem ser consideradas, mas estão longe de serem fatores determinantes numa tragédia dessas.

Os executores dos massacres, se repararmos bem, são sempre homens. Quase sempre jovens, quase sempre brancos. Em geral reclusos e quase sempre emocionalmente imaturos; sexualmente frustrados. O sentimento que relatam (em geral antes, pois é frequente que se matem ao final do ato) é muitas vezes de uma sensação de injustiça, como se o mundo não lhes provesse aquilo a que eles teriam direito. Por serem homens brancos simplesmente. Daí o discurso violento contra mulheres e minorias.

Se há algo que pode explicar, ainda que de maneira muito rudimentar o que se passa com essas pessoas é a própria natureza humana. Existe em cada um de nós uma grande quantidade de violência e destruição, que não some jamais. Ele nunca pode ser extinta, mas pode ser anulada com uma quantidade igual ou maior de amor, nas suas mais diferentes apresentações. Quase sempre nossa energia vital consegue suplantar nossos impulsos mortíferos. Mas tem vezes, devido a nossa vida, genética, família, internet, traumas e afins, que esse processo falha. Como diz a frase bela e terrível de Stephen King: "Monstros são reais, fantasmas também. Eles vivem dentro da gente, e às vezes, vencem".

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.