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Blog do Luiz Sperry

TOC não é engraçado: entenda mais sobre o transtorno obsessivo-compulsivo

Luiz Sperry

04/03/2019 04h00

Crédito: iStock

Certamente uma das questões de saúde mental mais abordadas no cinema e na TV é o que nós chamamos de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo). Ao contrário de outras doenças psiquiátricas, o TOC quase sempre aparece ligado a um clima de comédia, como fica bem evidentes em filmes como "Melhor é Impossível" com Jack Nicholson, ou no seriado "Monk", com Tony Shalhoub. Apesar de alguns rituais ligados ao TOC de fato parecerem engraçados, essa abordagem acaba por esconder um grande sofrimento.

Como o próprio nome já esclarece, o TOC tem duas facetas: a obsessiva e a compulsiva. A obsessiva se constitui num pensamento, geralmente desagradável e recorrente. Podem ser desde os mais simples ( "você esqueceu o gás ligado" ou "você esqueceu de trancar a porta") até coisas mais complexas ("se você não se benzer três vezes toda vez que encontrar uma mulher loira na rua o câncer da sua mãe vai voltar"), chegando a coisas eventualmente bastante bizarras. Já a compulsão é um tipo de comportamento, ritualizado e repetitivo cuja função é justamente proteger o sujeito das ameaças que a obsessão anuncia. Nos casos citados aqui, que inclusive são verdadeiros, a compulsão seria o ato de voltar e checar repetidamente gás e porta, ou andar na rua tendo que se benzer repetidamente (com todos os prejuízos práticos e sociais aos quais isso pode levar).

Nesse momento talvez o leitor possa estar imaginando: "Meu Deus! Eu tenho TOC!". Talvez, mas devagar com o andor. Esse tipo de pensamento e comportamento acabam por ser extremamente frequentes. Chamamos popularmente de "manias" ou mesmo em alguns casos de superstições. O que é tão importante quanto à natureza do sintoma obsessivo é a sua quantidade. Se você volta para conferir o gás uma vez por mês ou mesmo uma vez por semana, isso não é TOC. É necessário que os sintomas sejam intensos o suficiente para levar a um sofrimento ou prejuízo mais robusto. Por exemplo, se você vai conferir o gás e a porta tarde da noite, mesmo já tendo conferido e você tendo que levantar cedo no dia seguinte. Aí parece bastante com TOC.

Geralmente o TOC aparece assim, pareado, as obsessões com as compulsões. Mas não é incomum aparecerem compulsões puras (principalmente em crianças) ou obsessões puras. A tricotilomania, que é a compulsão por arrancar pelos e cabelos do corpo (e eventualmente comê-los), é um exemplo clássico de compulsão. As obsessões podem aparecer sem um ritual associado ou mesmo ligadas a outros quadros psiquiátricos.

A gravidade desses quadros também varia muito, podendo ser desde um inconveniente até um TOC grave e incapacitante, com muitas horas de rituais incessantes por dia. De modo que a resposta ao tratamento também é muito variável, com grande dificuldade de remissão nos quadros mais intensos.

A espinha dorsal do tratamento é psicoterapia e medicação. As terapias mais efetivas são as cognitivo-comportamentais. Eventualmente apresentam até resultados superiores ao medicamento. Mas o uso de antidepressivos em altas doses também é muito eficiente no tratamento de TOC, especificamente aqueles com forte ação serotoninérgica, como sertralina, fluvoxamina ou clomipramina. Importante notar que a resposta aos antidepressivos é bastante lenta, às vezes fazendo efeito apenas alguns meses após o início do tratamento.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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