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Blog do Luiz Sperry

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Transtornos mentais são considerados doenças? Entenda

Luiz Sperry

04/02/2019 04h00

Crédito: iStock

Nessa semana que se passou fui informado que uma leitora protestou a respeito do meu texto anterior: "TDAH não é uma doença. É um transtorno do neuro-desenvolvimento, de acordo com o DSM 5. Sugiro revisão para evitar mais estereótipos em torno desses transtornos". Ao ser informado pelo UOL, solicitei a manutenção do termo doença, que coexiste com o termo transtorno nesse e em outros artigos, quase que como sinônimos. Mas não por teimosia apenas, de modo que fiz outra postagem para explicar por que não alterei a postagem.

Antigamente, no mundo da psiquiatria, tudo era doença. Maníacos, melancólicos, alienados, todos esses eram tratados como doentes e, muitas vezes, segregados em instituições asilares. Algo bastante parecido com o que é descrito n'O Alienista, de Machado de Assis. Desenvolveu-se então no campo científico o que chamamos de psicopatologia, o estudo das doenças mentais, construindo um corpo teórico com o objetivo de tentar dar um sentido e talvez estabelecer possíveis causas para essas doenças.

Como a ciência neurobiológica nunca teve uma explicação convincente para formar um conceito de doença. Para tal, é necessário uma causa, causando uma disfunção conhecida, levando a determinados sintomas clínicos. Por exemplo, uma bactéria invade teu pulmão, causa uma reação inflamatória, levando a tosse, febre e secreção. A isso chamamos pneumonia. Nas doenças mentais nunca pudemos ter essa clareza. Apoiou-se então a psicopatologia em conceitos filosóficos, como a fenomenologia, ou psicológicos para construir sua teoria. As doenças seriam então decorrentes do ambiente, das relações parentais ou sociais.

O que ocorreu é que a psiquiatria fez um movimento dentro da ciências médicas com a intenção de se tornar mais científica, mais médica. Um marco importante foi o lançamento do DSM III, em 1980. O DSM é o manual diagnóstico e estatístico elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, com diversas intenções. A principal talvez seja funcionar como um dicionário clínico, para se padronizar as doenças mentais. Ou seja, quando se fala depressão, por exemplo, nos referimos a uma situação com tais características pré-determinadas, e assim por diante. A partir do célebre DSM III o que se definiu foi que essas acepções teóricas psicopatológicas não eram adequadas ao funcionamento da psiquiatria como ciência médica e resolveu-se eliminá-la. Surge dessa época o conceito de "transtorno" como um certo equivalente de "doença", não porque se quisesse de fato mudar o estigma que existia (e existe) sobre as doenças mentais. O fato é que o tal "transtorno" não precisava ser validado cientificamente como no caso das outras doenças. Era só preencher determinados critérios, descritivos, e já se conseguia fazer o diagnóstico. "Preenche critérios" se tornou a expressão de ordem da psiquiatria contemporânea. Mas e quanto às teorias que então propunham a origem e os mecanismos de instalação das doenças? Foram substituídos por uma palavra: "biológico". Ou seja: deve ser biológico, embora a gente não saiba exatamente qual neurônio ou mesmo qual região do cérebro responda por essa função.

Por outro lado entendo que a expressão doença mental seja um pouco pesada e muitas vezes afaste as pessoas do tratamento e dos cuidados necessários ao invés de aproximá-las. É por isso que tento usar os dois termos, como sinônimos (apesar de não serem). Inclusive o próprio DSM usa, se você ler com atenção a palavra "doença" inúmeras vezes, logo em sua introdução, mostrando que o termo "transtorno" é muitas vezes insuficiente para dizer o que a gente quer dizer.

Para saber mais do DSM, um histórico de Christian Dunker e Fuad Kirillos Neto.

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Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.