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Blog do Luiz Sperry

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O papel da família no surgimento de doenças mentais

Luiz Sperry

2014-01-20T19:04:00

14/01/2019 04h00

Crédito: iStock

Uma das críticas que sem dúvida é muito pertinente quando pensamos a maneira que a psiquiatria funciona hoje em dia é quanto à relevância do papel das famílias no processo do adoecimento mental. Depois de mais de um século de vigoroso desenvolvimento científico nessa área, o papel dos antecedentes e constituição familiar tem sido relegados a um plano secundário na clínica atual, em uma evidente tentativa de simplificação que pode acabar complicando a abordagem terapêutica.

A influência das estruturas familiares é variável de acordo com o modelo psicopatológico adotado. Os modelos psicanalíticos creditam a elas uma importância quase total naquilo que chamamos de psicopatogênese (a origem das doenças mentais). Por outro lado uma abordagem mais "neurocientífica" –colocado aqui entre aspas porque não existe de fato uma psicopatologia neurocientífica que faça jus ao nome — talvez possa creditar às famílias unicamente um punhado de genes como contribuição na formação do sujeito. Assim como não creio que seja responsabilidade dos pais tudo de bom e de ruim que ocorre na vida de alguém, também acho muito improvável que a nossa configuração genética seja determinante de tudo que vá ocorrer com a gente ao longo da nossa vida.

Não porque eu queira achar ou seja dado a fortes convicções. Sou um homem e um profissional de pouca fé, o que me torna talvez um pouco mais prudente quanto a vereditos definitivos. O que me faz acreditar que esses fatores não são exclusivos são justamente as observações que faço todo dia.

Como já afirmei mais de uma vez, o ser humano é fortemente cultural, e a família sem dúvida é a principal fonte de cultura e informação que uma criança recebe em sua vida. Por outro lado, meios com grande homogeneidade cultural podem produzir sujeitos com grande variabilidade psíquica, o que nos faz pensar que cultura, pai, mãe e criação às vezes não é 100%. Na outra ponta é mais fácil de ver ainda. Em estudos com gêmeos idênticos, que em princípio compartilham do mesmo DNA, observou-se que a incidência de esquizofrenia é algo em torno de 50%. Outros estudos mostram números ainda maiores. Mas não é 100%. Ou seja, mesmo sendo a esquizofrenia uma doença com fortíssimo componente genético é impossível dizer que ela é geneticamente determinada.

Além dessa questão da psicopatogênese a família tem um papel fundamental no tratamento dos transtornos mentais. É fácil imaginar que uma família que tenha continência e atenção consiga levar o doente aos serviços necessários e supervisionar sua evolução ao longo do tempo. Mas às vezes mesmo uma família continente impede a melhora de seus entes queridos. Em muitos casos o doente permite que os transtornos que acometem os outros não sejam percebidos ou relevados, como se ele ocupasse um papel de bode expiatório. E quando o paciente começa a dar sinais de melhora e sair daquele papel que lhe foi determinado, todos conspiram para que ele retorne a ele (em gera inconscientemente, claro). Como dizia o célebre psicanalista Pichon Riviére, "o membro mais forte da família é o que enlouquece". E permite com isso uma certa proteção à loucura dos mais fracos.

Ele acreditava tanto que um doente era resultado de um processo familiar que chegava a medicar famílias inteiras com antidepressivo. Nunca ouvi falar de alguém que tivesse reproduzido esse método. A gente não faz isso, mas não deixa de ser um modelo de comprometimento familiar com o tratamento. E isso é fundamental.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.