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Blog do Luiz Sperry

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Saiba como equilibrar sua economia psíquica em 2019

Luiz Sperry

31/12/2018 04h00

Crédito: Istock

Escrevo essas mal traçadas linhas no clima opressivo da capital paulistana de pós-Natal. Calor insuportável, tempo e espaço distorcidos pelo cansaço e pela sequência desumana de convescotes e comemorações. Não sabemos ao certo em que dia estamos, mas suspeitamos que logo ali vem 2019, com suas promessas e ameaças, tão logo pulemos as tais ondas, em geral no número de sete. Esse é o último post do ano e devemos nos apressar, inclusive porque as estradas não estão para brincadeira nessa época. 

Essa bem conhecida correria de fim de ano não é propriamente uma novidade para ninguém. Todo ano é assim, todo ano a mesma angústia de terminar o que tem que ser terminado e partir. Tive uma analista que me dizia que a angústia é uma boa guia, há que se atentar a ela. E quando a população inteira se queda angustiada, temos a obrigação de atentar para o fenômeno que se apresenta a nós. Que desespero é esse, meu Deus?

Bem, não é exatamente uma coisa, são várias. Tem a questão das festas, da família, da lembrança dos queridos que partiram. Mas eu tenho uma forte convicção de que nosso aparelho psíquico segue uma dinâmica econômica. Como no balancete da firma, é energia que entra e energia que sai. Algumas coisas que fazemos e experimentamos nos propiciam um influxo de energia, nos energizam. Outras acabam por drenar nossas energias, descarregam.

Apesar dos leitores do blog às vezes demandarem respostas mais categóricas como: "10 maneiras incríveis de recarregar suas energias", sinto informar que estas experiências são pessoais e intransferíveis. O que é um prazer para um, pode ser um martírio para outro e vice-versa. Tem gente que tem uma semi-ereção só de cogitar fazer uma trilha na Ilha Bela, por exemplo, enquanto para outros o programa possa ser um sofrimento comparável a enfiar os dedos na tomada ou algo do gênero.

Mas para você que gosta de dicas maravilhosas podemos pensar, juntos, o que é que carrega suas baterias e o que as esvazia. Uma boa dica é esse movimento de fim de ano. Viajar carrega as baterias, tomar sol, namorar, beber com os amigos, encher a pança com comidas gostosas, cair no mar então, nem se fala. Assistir a um filme maravilhoso, a uma exposição memorável ou mesmo a um jogo de futebol épico são coisas capazes de nos deixar em estado de graça por dias a fio, às vezes semanas. Grandes livros são boas pedidas, porque além de perdurarem na nossa imaginação, podem ser saboreados lentamente, por vários dias, no ritmo que a gente quiser. Pode ser que você não curta tudo isso tanto quanto eu, mas creio que esses programas são quase unanimidades.

Assim como são unanimidades também algumas situações que drenam nossa energia vital. Trabalhar demais nos consome, ficar muito tempo no trânsito também. Doença física, nossa e dos outros é um redemoinho energético brutal, mesmo para nós, cuidadores supostamente saudáveis. Dores físicas e dores crônicas podem acabar com a gente se não forem cuidadas. As próprias doenças mentais são causa e consequência desse desbalanço. Comer porcamente e ser sedentário tira nossas energias. E a solidão, é claro, que talvez seja a situação mais perigosa de todas.

Um problema é que as pessoas tendem a ser extremamente criativas nas combinações para gastar energia. Trabalham um monte, atravessam as cidades como se não houvesse amanhã, cultivam suas lombalgias e neuroses com grande afinco. E mesmo cercadas de gente, preferem os prazeres solitários da tela do celular.

Por outro lado existe uma tendência de sermos muito restritos no quesito de recarregar as energias. Quem gosta de futebol assiste futebol o tempo todo, respira futebol só fala de futebol. Quem gosta de transar passa o dia e à noite tentando achar alguém para transar, quem gosta de beber, bebe sempre que pode e assim por diante. Só que nesse caso, você não está carregando nada, porque a sua curtição já passou para a esfera da compulsão e compulsão não faz bem para ninguém, seja de sexo, drogas ou Netflix. A arte está em conseguir diversas fontes de energia diferentes, de modo que nenhuma fique sobrecarregada.

Bem, esse é o último post do ano, talvez eu tenha me alongado, o que talvez não seja ruim, apesar da Lia Bock dizer que "post bom é post curto". Alguns leitores discordam, querem que eu fale mais, talvez se iludam pensando que eu tenha algo mais a dizer. Talvez eu tenha, mas não hoje. As estradas estão terríveis nesta época do ano.

Um enorme abraço e feliz 2019 a todos!

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.