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Blog do Luiz Sperry

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Você sabe a origem dos nomes de algumas doenças? Conheça os epônimos

Luiz Sperry

26/11/2018 04h00

Crédito: iStock

Quando usamos em alguma área da ciência um nome próprio para designar algo, chamamos isso de epônimo. Há quem os deteste, mas existem aqueles que adoram. Estou entre os últimos evidentemente por uma opção estética, já que o que muitos identificam como fora de moda enxergo como vintage. Mas também porque acho gostoso fantasiar quem foram aquelas pessoas que dedicaram tanto tempo de sua vida a assuntos tão preciosos.

Claro que os epônimos têm lá seus problemas. Eles não explicam nada por si mesmos, são apenas nomes de pessoas. Você pode, por exemplo, saber que Síndrome de Down é uma doença genética caracterizada pela trissomia do cromossomo 21, já que esse é um dos epônimos mais famosos da medicina. Mas a doença poderia ser chamada simplesmente de trissomia do cromossomo 21, como inclusive muitas vezes é. Eu particularmente tenho uma certa facilidade para associar os nomes das pessoas às síndromes, mas nem todo mundo é assim, tanto que os epônimos estão cada vez mais em desuso. Não é todo mundo que associa diretamente a Síndrome de Waterhouse-Friederichsen à necrose hemorrágica das glândulas adrenais por ocasião de meningococcemia.

Obviamente a psiquiatria está cheia de epônimos. No entanto, esses termos foram ficando cada vez mais marginais, sendo que nenhuma doença importante é denominada assim. Exceção feita à consagradíssima Doença de Alzheimer. Nunca vi ninguém se referir à ela como "demência progressiva por beta-amiloides" ou algo semelhante. Importante notar que a Doença de Alzheimer está bem em cima da fronteira imaginária entre a psiquiatria e a neurologia. E os neurologistas certamente são os maníacos do epônimo. Doença de Parkinson, coreia de Huntington, coreia de Sydenham, as demências de Pick e dos corpúsculos de Lewy, afasias de Wernicke e Broca, Doença de Guillain-Barré e paralisia de Bell, só puxando de memória aqui. E isso tudo é doença importante, que faz parte do dia a dia do neurologista, ou quase isso.

Já na psiquiatria propriamente dita talvez o epônimo que mais vemos hoje em dia seja o de Asperger. Há alguns anos era um diagnóstico raro, mas hoje em dia, se você vai a um evento de porte médio, acaba encontrando um ou dois portadores de "Síndrome de Asperger", eue é, em última instância, uma forma menos grave de autismo, com pouco prejuízo de linguagem, sem movimentos estereotipados e com maior capacidade de socialização.

Outra doença relativamente frequente é a Síndrome de Gilles de La Tourrette, ou simplesmente Síndrome de Tourrette. Imortalizada aqui no trópicos por uma propaganda de chocolate (Biscoito! Caramelo! Chocolate!), é uma forma de tiques motores acompanhados de tiques vocais, que geram diversos inconvenientes sociais e bastante angústia nos acometidos.

Partindo para as mais raras, mas nem por isso menos interessantes, temos o magnífico delírio de Capgras, o delírio do impostor. Não é uma doença propriamente dita, mas um sintoma que pode aparecer em diversas doenças, como na esquizofrenia, por exemplo. São pacientes que acreditam firmemente que pessoas próximas de si foram substituídas por impostores, com o intuito de prejudicá-los. O primeiro caso relatado, descrito pelo próprio Joseph Capgras, psiquiatra francês, nos anos 20 do século passado, era uma mulher de 53 anos que acreditava que seu marido, seus filhos e suas funcionárias domésticas tinham sido substituídos por impostores. Inclusive acreditava que ela mesma tinha duas ou três sósias que estavam envolvidas em um plano para roubar sua identidade e herança. Na época devia ser uma tragédia, pois pouca coisa poderia ser feita a respeito.

Existe também o delírio de Fregoli, que é meio que o contrário de Capgras. O doente reconhece estranhos como se fossem conhecidos ou familiares queridos. Mas ao contrário do que se possa imaginar, foi descrito também nos anos 20 do século passado por…Courbon e Fail. Fregoli é uma homenagem ao ator italiano Leopoldo Fregoli, na época famoso por mudar de papel rapidamente.

Para mais epônimos em psiquiatria e neurologia aí vai uma lista bacana.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.