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Blog do Luiz Sperry

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A psicoterapia está fadada ao fim? Entenda como ela é encarada hoje

Luiz Sperry

05/11/2018 04h00

Crédito: iStock

Já tem alguns anos que Elisabeth Roudinesco, psicanalista e historiadora francesa fez um questionamento perturbador: estaria a psicanálise se tornando uma especialidade apenas para analistas? Para que serve a psicanálise? Eu ampliaria um pouco essa questão e perguntaria: psicoterapia serve para quê?

Bem, talvez seja importante salientar para o leitor que não está familiarizado com esse universo o que as psicoterapias fazem. São via de regra terapias clínicas que buscam tratar algum problema de ordem emocional por meio da fala. É um tipo de tratamento que se faz por meio da conversa e da relação das pessoas. Serve para tratar uma série de questões e ajudar os pacientes a encontrar soluções para diversos problemas da sua vida.

Tudo começou há algum tempo. Via de regra tomamos como marco do surgimento da psicoterapia o nascimento da psicanálise, no final do século 19. Foi um método desenvolvido por Sigmund Freud –razão pela qual gosto de chamá-lo de "Pai-de-Todos" — e logo chamou a atenção pelo seu caráter obviamente revolucionário.

Freud amealhou diversos discípulos ao longo dos anos, os quais muitas vezes deram continuidade à sua obra. Por outras vezes discordaram das teorias fundamentais do mestre e criaram dissidências importantes. Uma parte dessas dissidências mantém uma certa fidelidade ao pensamento original de Freud, como é o caso de Lacan, Klein ou Winnicot. Outra parte, principalmente a corrente americana, se distanciou bastante do pensamento freudiano e psicanalítico, mas foi por outros caminhos igualmente válidos. Surgiram então diversos ramos de psicoterapia como comportamental, cognitiva e a psicologia do self.

Posto isso, é válido dizer que todas as psicoterapias se encontram em crise na atualidade. Na sociedade da produtividade e da velocidade, métodos prolongados e custosos, como as psicoterapias em geral são, acabam por parecer obsoletos. As pessoas, ao contrário de décadas atrás, tem muito mais resistência ao tratamento psicoterápico do que ao tratamento medicamentoso psiquiátrico, que já foi um bicho-de-sete-cabeças para a maior parte da população. Hoje, não é mais.

Frente a isso podemos perceber que as psicoterapias de fundamentação cognitiva e comportamental conseguiram uma certa primazia acadêmica, por uma razão que parece bastante clara. Dentre as lentas, são as mais rápidas. Por outro lado, atuam de forma muito sintônica ao tratamento médico psiquiátrico, focado de forma ferrenha na remissão de sintomas. Ou seja, abre ao meu modo de ver, muito pouco espaço para outras áreas do funcionamento psíquico do paciente em comparação às psicoterapias psicanalíticas.

Mas mesmo assim a própria psicanálise não se livra de críticas. Ao não se propor atualmente a se prestar como elemento de "cura" (e coloco entra aspas porque o que seria essa cura dá muito pano pra manga, e não quero falar disso aqui), ela tem que ter uma proposta. Não consigo ver a psicanálise de outra forma que não uma técnica de autodesenvolvimento, uma maneira de termos mais recursos emocionais para lidar com esse mundo digamos, difícil, que se nos apresenta.

De qualquer forma, mesmo com todas as críticas de todos os lados, as psicoterapias permanecem intocadas numa questão. Nada consegue substituí-las. Nem remédio, nem dinheiro, nem esporte, nada. Ainda não chegou o dia em que a humanidade poderá se dar ao luxo (?) de abrir mão desses recursos tão preciosos.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.