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Blog do Luiz Sperry

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Dois terços dos casos de demência são Alzheimer: saiba mais sobre a doença

Luiz Sperry

22/10/2018 04h00

    Crédito: iStock

Um ano de blog já completado e de repente percebo que esqueci de tratar aqui algo que é absolutamente importante e cada vez mais frequente. Não deixa de ser sintomático da minha parte, já que não é dos assuntos mais saborosos e sempre temos a tendência a postergar aquilo que é amargo enquanto nos esbaldamos com as gostosuras da vida (e da psiquiatria, no caso). Bem, não é o caso de se esbaldar, mas vale um olhar atento no que se refere às demências.

As demências são processos que normalmente ocorrem em idade mais avançada (mais de 60 anos), onde observamos uma deterioração das funções cognitivas. O termo cognitivo deriva do conceito de conhecimento, e por essas funções compreendemos: atenção, percepção, processamento, memória, raciocínio, planejamento, resolução de problemas, execução e expressão da informação. Ou seja, um paciente com demência pode ter algumas ou até mesmo todas essas funções prejudicadas. Mas o eixo central do diagnóstico de um quadro de demência é a perda de memória. Em geral a prevalência é em torno de 10% aos 65 anos, mas cresce conforme a idade avança, chegando a quase 50% aos 85 anos.

Sem dúvida a demência mais conhecida é a doença de Alzheimer. Não sem motivo, é também a mais frequente. As estatísticas variam, mas considera-se que pelo menos 2/3 dos processos demenciais estejam relacionados à doença de Alzheimer, enquanto o outro terço corresponde à demência vascular (ao menos 20%) e outras causas mais raras, como demências dos corpúsculos de Lewy, carência de vitaminas ou relacionadas ao HIV, por exemplo.

Mas o mais importante, o que é a doença de Alzheimer? Ao contrário da demência vascular, que é o resultado da deterioração do cérebro em decorrência de diversos microinfartos, a causa da doença de Alzheimer é mais obscura. Sabe-se que tem um componente familiar importante, mas não definitivo. Os achados nos exames são poucos, nos estágios iniciais os exames são geralmente normais. O que se observa em nível microscópico é a formação das temidas placas de beta amiloide dentro dos neurônios, que parece ser a causa da morte celular que leva à doença de Alzheimer. Mas como isso só é possível de se ver mediante uma biópsia cerebral, esse diagnóstico de certeza só é feito em casos excepcionais.

Mas mesmo assim é possível termos uma margem de certeza razoável para se iniciar um tratamento. As principais medicações –anticolinesterásicos e glutamatérgicos — têm uma ação bastante decepcionante. São capazes de retardar um pouco a evolução da doença, mas dificilmente levam a uma recuperação de fato da memória e das funções cognitivas. Importante lembrar que talvez o principal fator de proteção contra a doença de Alzheimer seja o nível de escolaridade. Parece que um cérebro bastante ativo está menos propenso a adoecer que um ocioso.

Talvez frente a essa realidade seja mais produtivo uma adaptação da família para cuidar do doente. Cuidados com a segurança, orientação no tempo e espaço e uma enorme paciência para as perguntas repetitivas pode ser o mais valioso. Um cuidado com a saúde física também é fundamental, pois mesmo uma simples infecção no paciente com demência pode levar a estados confusionais exuberantes.

Existe a promessa de novos tratamentos mais eficientes, mas nada que possa nos dar a segurança desde já. Então é importante utilizarmos tudo o que temos em mãos, já que a população envelhece cada vez mais e o número de pacientes com demência vai continuar aumentando, muito.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.