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Blog do Luiz Sperry

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Por que os zumbis são os monstros que representam a nossa geração?

Luiz Sperry

2008-10-20T18:04:00

08/10/2018 04h00

Créditos: iStock

Sem dúvida podemos dizer que o mundo muda rapidamente. Basta olhar para trás e ver que o jogo da cobrinha no celular já ficou obsoleto há pelo menos dez anos, assim como tantas outras coisas como o telefone fixo e até mesmo o quase recente DVD. Em consequência disso, o jeito das pessoas se relacionarem e sua visão de mundo acaba por mudar também, levando a novas formas de diversão e a novas formas de sofrimento. Se podemos dizer que, por um lado, o sofrimento sempre fez parte da vida, podemos dizer também que de certa maneira somos assombrados por novos monstros.

Essa sacada dos monstros da atualidade versus monstros de antigamente não é minha. Devo dar os créditos ao meu querido amigo André Perfeito, economista brilhante e gênio da raça que devaneia publicamente sobre os mais diversos assuntos. Tem um tempo já que ele falou que os monstros culturalmente em voga dizem muito sobre o espírito de um tempo.

O vampiro por exemplo, era a criatura paradigmática do século XIX. Frente à questão moral vitoriana, os conflitos sexuais se confundem, ou mesmo se associam com a questão da morte. Ceder ao desejo e à tentação podem ser mortais. A premissa de poder e vida eterna trazem consigo um preço alto, de se viver eternamente nas sombras. Os vampiros são encantadores porque sempre nos jogam na consideração de que poderia ser gostoso ser um deles. Uma parte da gente se identifica porque essa coisa de voar e morder pescoço faz parte do imaginário humano. O vampiro representa a impossibilidade da realização de um desejo, ou pelo menos o risco que isso representa.

Já na segunda década do século XXI, essa questão da repressão sexual ficou um pouco deslocada. Não que as pessoas sejam todas sexualmente bem resolvidas, longe disso. Mas a dinâmica da atualidade passa por outras questões como: quem sou eu? Ou ainda: o que eu deveria ser? Mais do que o nosso desejo, cada vez mais inacessível, a demanda é por uma resposta a um desejo do outro, um desejo coletivo que se coloca de maneira massificada. O sujeito da contemporaneidade é pressionado imensamente por ideais de performance, metas, padrões estéticos e comportamentais que são humanamente inalcançáveis. Não é de se estranhar que ele se sinta quase sempre um fracassado. Formam-se então hordas do nosso monstro contemporâneo, os zumbis.

Os zumbis são pessoas entregues à compulsão. Não tem espaço para a reflexão, pois tempo é dinheiro. Repetem maquinalmente comportamentos repetitivos, absortos em seu mundo interior. Alheios ao que se passa em volta, tem uma dificuldade enorme de perceber o que se passa em seu entorno . Sem que tenhamos percebido, vivemos a Era dos Zumbis. Desde o sucesso estrondoso de "Walking Dead", mas passando também por "Eu Sou a Lenda", "Guerra Mundial Z" ou a sequência de "Resident Evil", a temática zumbi se resume num punhado de gente lutando contra uma maioria que sucumbiu a um tipo de praga, e age compulsivamente no sentido de devorar os humanos restantes. Antropofagia sem metáforas.

Fora da ficção, a Cracolândia, com sujeitos fisicamente alquebrados, se esgueirando pelos cantos seria o exemplo mais óbvio. Mas os bandos de adolescentes (e adultos) lado a lado, vidrados nos seus celulares não são muito diferentes. Ou gamers, jogando online durante horas a fio, sem mesmo ver a luz do sol. Ou ainda famílias inteiras, assistindo séries intermináveis (o que deu origem ao neologismo hediondo "maratonar"). Não são poucos os momentos em que nós já nos comportamos como as criaturas horrendas e destrutivas as quais rejeitamos nas telas. Ao menos os vampiro nos despertavam a fantasia de como seria ser um. Os zumbis nós de fato vamos nos tornando, pouco a pouco. E muitas vezes nem chegamos a perceber.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.