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Blog do Luiz Sperry

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As doenças mentais podem se tornar crônicas

Luiz Sperry

10/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Existe uma questão importante sobre as doenças mentais no que diz respeito à sua duração. Um dos pontos fundamentais é saber se aquilo vai passar ou se será um tormento eterno. Porque um dos medos que vem junto com a doença é o de ficar doente para sempre.

Para a gente falar disso precisamos ter alguns conceitos claros. Algumas doenças são agudas. Ou seja, elas vêm e passam. Gripe é uma típica infecção aguda, assim como uma diarreia geralmente é aguda. Crises psicóticas podem ser agudas. Ou mesmo quando vai a uma festa e bebe todas, você tem uma intoxicação alcoólica aguda.

Já outras doenças são crônicas. Como é o caso de hipertensão arterial ou diabetes. Essas doenças não passam. Uma vez diabético, sempre diabético. Com as doenças mentais é igualzinho, como no caso da esquizofrenia. Uma vez esquizofrênico, sempre esquizofrênico.

Ainda há um terceiro caso muito importante que são as doenças recorrentes. São doenças que vão e voltam, sendo que nesse meio tempo você fica assintomático. Não consigo imaginar um correlato clínico que se encaixe perfeitamente, talvez alguns tipos de câncer que mesmo depois de tratados voltam a reincidir. Certamente a depressão e o pânico se comportam assim.  

Por isso o tratamento das doenças mentais e sua duração são tão variáveis. Crises agudas de depressão podem ser tratadas farmacologicamente por períodos inferiores (mas não muito) a um ano. Psicoses agudas induzidas por droga podem remitir com poucos dias de medicação ou mesmo sem medicação nenhuma.

Já nas doenças crônicas, como a esquizofrenia ou transtorno bipolar, diz a boa prática que a medicação deve ser mantida o tempo todo. Na esquizofrenia porque cada crise traz consigo uma potencial sequela para o futuro. No transtorno bipolar porque as crises seguem um fenômeno chamado kindling, que consiste em crises sequencialmente mais frequentes e graves no caso de não tratamento. Um estabilizador de humor evitaria, em tese, novas crises.

Mas nas doenças recorrentes a medicação pode ser utilizada. Ou não. Numa depressão recorrente muitas vezes é preferível manter o antidepressivo continuamente a expor o paciente ao risco de novas depressões e suas dolorosas consequências. Mas esse é um pressuposto que não pode ser extrapolado para todos os casos: depende do tipo de depressão e da relação que cada pessoa tem com seu antidepressivo. Tem gente que toma o antidepressivo e não está nem aí, tem gente que tem uma série de problemas decorrentes disso.

Enfim, via de regra, apesar do uso crescente de medicação psiquiátrica, ainda existe uma parcela muito grande da população sem tratamento adequado. Acho que um fator muito importante é o papel cultural que a psiquiatria ainda ocupa no imaginário das pessoas. O tratamento das doenças mentais de fato existe há cerca de 100 anos. A eletroconvulsoterapia existe há cerca de 80 anos e a psicofarmacologia há menos de 70. Antes disso era camisa de força e manicômio. Ou seja, as pessoas não estão habituadas a cuidar da saúde mental.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.