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Blog do Luiz Sperry

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O tratamento da depressão vai além dos antidepressivos

Luiz Sperry

03/07/2018 04h00

Foto: Getty Images

Atendo muita gente, todos os dia, com casos de depressão. E sem dúvida percebo, ao contrário do que diz o senso comum, que as pessoas com depressão detestam tomar remédio para depressão. Um comentário leviano que escuto com frequência é: "As pessoas hoje em dia só querem tomar remédio!" ou ainda "Todo mundo quer resolver seus problemas com remédio", entre outras variações. Servem como palavras de ordem numa luta ideológica, mas estão bastante distantes da realidade. As pessoas querem resolver seus problemas, acima de qualquer ideologia.

E se tomarmos a depressão como exemplo, temos alguns caminhos que podem ser seguidos. Os remédios por exemplo. Uma outra palavra de ordem comum é: "A psiquiatria quer resolver tudo com remédio". Claro que quer. Eu adoraria poder resolver todos os lutos, corações partidos, querelas de casais, ausências parentais, falências, demissões em massa e golpes de estado com remédios. O desejo é livre. Mas infelizmente o arsenal psicofarmacológico é bastante escasso nesse aspecto e muitas vezes redundante. Ou seja, existem muitos antidepressivos semelhantes que fazem basicamente quase que o mesmo efeito. Mas sem dúvida estão na primeira linha do tratamento das depressões.

Outro tratamento bastante aplicado é a psicoterapia. Marcadamente as psicoterapias de linha cognitivista têm apresentado resultados bastante bons em relação à remissão de sintomas psiquiátricos no caso da depressão (mas também em relação aos quadros de ansiedade entre outros). Além disso, acredito que o trabalho de psicoterapia permite que a pessoa consiga se situar melhor em relação à sua realidade pessoal e evitar, na medida do possível, situações traumáticas que podem levar a um quadro mais grave. No entanto, apesar de todo sua sofisticação, e talvez justamente por isso, se tornou um método caro e muitas vezes indisponível para as populações mais carentes, que são justamente as que mais se beneficiariam dela.

Psicofarmacologia e psicoterapia são de longe os meios mais utilizados de tratar a depressão. Mas não são os únicos. Menos divulgados, mas impulsionados por uma crescente onda tecnológica vem o que chamamos de meios físicos. O mais antigo e mais conhecido (e controverso) é a eletroconvulsoterapia, ou ECT, ou ainda popularmente, "eletrochoque". Sem dúvida o ECT vale um post inteiro, mas vale dizer aqui que ele é um método válido e extremamente eficiente, além de seguro, de tratar a depressão. Especialmente indicado em risco de suicídio e em gestantes. Mais recentemente foram desenvolvidas a Estimulação Elétrica Transcraniana, a Estimulação Elétrica Profunda e a Estimulação Magnética Transcraniana, sendo que nessa última o estímulo não é elétrico e sim magnético, como o próprio nome diz. Entre todos esses qual o mais eficiente? O ECT, sem dúvida.

Além disso, apesar das evidências não serem tão fortes, existem muitos indícios de que cuidados gerais com a saúde e qualidade de vida têm ação antidepressiva. Posturas como melhorar alimentação, cuidar da qualidade do sono e principalmente a prática regular de esportes têm efeito comparável às medicações. Suplementações vitamínicas específicas também têm tido efeitos positivos, embora em última instância seja mais um tipo de medicação. Mas ao contrário do que ocorre com antidepressivos, posso afirmar, com certeza absoluta, que a esmagadora maioria das pessoas adora tomar vitaminas.

Um grande problema no tratamento da depressão ao meu ver é justamente que as pessoas não querem tomar as medicações. Ou ainda o fazem por tempo insuficiente, levando muitas vezes à cronificação dos casos. Bem, o tratamento da depressão como bem se vê não consiste apenas em antidepressivos. Não quer tomar? Tudo bem, mas não tem sentido deixar de tratar.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.