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Adolescentes que se cortam podem estar em risco iminente

Luiz Sperry

11/06/2018 04h00

Crédito: iStock

Não precisamos fazer muito esforço para perceber que nossa cabeça está configurada de modo a evitar os danos e riscos. Não nascemos assim, mas sem dúvida construímos um sistema de defesa invejável ao longo do nosso desenvolvimento. Depois de enfiarmos o dedo na tomada algumas vezes, tombos e escoriações, aprendemos que algumas coisas podem ser muito dolorosas e devem ser evitadas.

Por isso sempre me causa uma certa aflição quando esse mecanismo de proteção tão comum a nós humanos para de funcionar. Tem sido cada vez mais comum receber crianças e adolescentes que se cortam ou se machucam de alguma outra maneira. O ato de se cortar, chamado por vezes de automutilação, ou cutting, para quem curte anglicismos, não representa por si só uma doença mental, é um sintoma que pode fazer parte de um quadro psiquiátrico ou mesmo aparecer isolado. É possível então que um adolescente se corte sem estar com depressão ou uma outra doença psiquiátrica? Sim, adolescentes, como bem se sabe, não precisam estar doentes para terem comportamentos aparentemente tolos ou irresponsáveis.

Mas em geral não é isso que acontece. Na maioria das vezes a automutilação está sim relacionada a um quadro psiquiátrico mais amplo. Principalmente depressão, sem dúvida, mas alguns casos de ansiedade graves também podem estar associados. E é bastante estabelecido que pacientes com transtorno de personalidade borderline apresentam esse sintoma com frequência, mas aqui cabe a ressalva que o diagnóstico de transtorno de personalidade só pode ser feito após os 18 anos (tendo em vista que a personalidade do adolescente ainda está em formação).

Os cortes têm mais de um significado. Primeiramente têm um significado para quem se corta. Quando a gente pergunta porque as pessoas se cortam, em geral elas respondem “eu queria sentir alguma coisa” ou “a dor no corpo me faz esquecer um pouco meu sofrimento”. Ou seja, esse ato não é algo aleatório e sem sentido, muito pelo contrário, é uma tentativa de superar o sofrimento, não muito diferente do cidadão que, afogado em problemas, enche a cara de bebida para esquecer suas angústias.

Além dessa função para si, os cortes também tem uma função para o outro. Afinal, eles estão na pele, que é justamente a parte do nosso corpo que os outros veem. Não seria incorreto se os considerássemos como uma forma de escrita primitiva de alguém que está tentando se comunicar, mas não consegue fazê-lo através da fala. Daí, sem dúvida, a necessidade primordial de dar fala a esses pacientes, no sentido de expressar em palavras aquilo que se traça na pele.

Por último vale ressaltar que a automutilação é um sinal de alerta. Jovens que se cortam têm risco maior de suicídio. Não é raro os pais falarem: “Eu achei que ela estava querendo chamar a atenção”. Claro que estava. Em geral, a mensagem é para os pais mesmo: “Estou querendo chamar a sua atenção porque estou sofrendo muito e não consigo lidar sozinha”. Reparem que escrevi ela para salientar que as meninas são as principais vítimas, e cabe a nós escutá-las.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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