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Suicídio também acomete quem tem estrutura familiar e acompanhamento médico

Luiz Sperry

30/04/2018 04h09

Crédito: iStock

Fui diversas vezes questionado durante essa semana sobre a questão do suicídio, após muita gente ficar impressionada com a morte de dois estudantes em um intervalo de poucos dias. Acabei por sentir a necessidade de falar sobre o assunto, sobre o qual muita bobagem costuma ser dita. Antes de mais nada, para quem não está familiarizado com o tema, cabe esclarecer: o suicídio não é uma doença propriamente dita, mas um desfecho comum que pode ocorrer em diversas doenças.

Muitas pessoas tendem a acreditar que a pessoa acaba com a própria vida em decorrência da depressão. Concordo que, em geral, é a causa mais frequente de suicídio, mas não a única. Outras doenças como esquizofrenia, transtorno bipolar, transtornos de personalidade ou mesmo uso de drogas podem levar as pessoas a isso. Inclusive, também existem casos de pessoas que cometem mesmo sem nenhum antecedente de doença mental. 

Posto isso, vamos aos fatos: as taxas de suicídio estão aumentando em todas as faixas etárias, especialmente entre jovens. Não se trata, todavia, de um fenômeno propriamente novo. Se olharmos na história, diz-se que Marco Antônio e Cleópatra se mataram há mais de dois mil anos. Antes deles, Aníbal, general cartagines que atacou Roma séculos antes, já tinha cometido suicídio. Vieram muitos outros depois, evidentemente.

Não custa lembrar que Romeu e Julieta acabam por se matar ao final da peça. Sim, eu sei que os personagens não existiram na vida real, mas certamente o fato da história terminar assim nos sugere que o suicídio não era algo estranho na época do Renascimento. Assim como para os samurais no Japão medieval, que cometiam suicídio rasgando a barriga com suas espadas.

Apesar de ser algo que sempre esteve ligado à história da humanidade, sua incidência varia ao longo do tempo nos diferentes locais e culturas. Agora, estamos atualmente vivendo uma nova onda, o que sempre é muito angustiante por deixar naqueles que ficam uma angústia evidente de que algo poderia ser feito. É quase como se as mortes por todas as outras causas fossem inexoráveis, mas o suicídio fosse quase como um descuido por parte das pessoas próximas. Isso certamente é um erro.

Imagino que existam doenças de todos os tipos: cardiológicas, neurológicas, oncológicas e por aí vai. Por mais cuidados que tenhamos, os pacientes mais graves sempre acabam morrendo por conta do problema uma hora ou outra. A questão é: se essas pessoas morrem, mesmo tendo cuidados intensivos, por qual motivo quem sofre com um caso psiquiátrico muito grave não pode perecer também? O suicídio ocorre mesmo em pessoas que pertencem a famílias muito amorosas, e mesmo elas sendo acompanhadas por profissionais extremamente competentes.

Mesmo assim, ainda surge a questão: o que pode ser feito a esse respeito? Menos do que se imagina. Tenho sérias restrições a campanhas como Setembro Amarelo, a todos esses meses coloridos inclusive. Acho de mau gosto, ineficazes e que, muitas vezes, flertam com um oportunismo perigoso. Mas admito que num lugar onde não se fala de um assunto tabu, acho válido movimentos que tirem o caráter sinistro de certos assuntos.

Vale ressaltar que sim, o suicídio sempre esteve aí. Sim, ele sempre acometeu todas as idades e classes sociais, ou você achava que Cleópatra, Marco Antônio e os samurais não eram da elite? E, sim, eu sei que Romeu e Julieta são personagens ficcionais, mas eles tinham quinze anos na época. E são ícones tragicamente atuais.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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