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O Carnaval é uma defesa contra nossas angústias

Luiz Sperry

12/02/2018 04h15

Crédito: iStock

“Carnaval, Carnaval, Carnaval, eu fico triste quando chega o Carnaval.” Mentira, não é tanto assim. Se por um lado não compartilho da ofegante epidemia do mês de fevereiro, por outro, sempre gostei de festa –no sentido amplo da palavra. De modo que não é raro que eu me embrenhe por aí na festa do Momo, sem mais nem porquê.

Antigamente, eu ficava um pouco constrangido. Quem era de Carnaval vivia fazendo mil planos, viagens, fantasias, desfiles e blocos. Eu ficava meio de canto, sem entender o motivo de tanta empolgação com a festa vindoura. E claro, acabava indo junto no embalo. Nesses embalos, já parei na Sapucaí, desfilando pela Salgueiro, interior de São Paulo, Salvador, na Barra-Ondina e Praça Castro Alves, bloquinho em Santa Teresa e o melhor Carnaval de todos, que é o de Recife e Olinda.

Impossível não se contagiar com a euforia. Mas cabe também uma leitura, porque não deixa de ser muito estranho esse negócio todo. Fico pensando que características levaram essa nação a ter esse espasmo de alegria anualmente. E parece que, a cada ano, cresce. Antes, eram quatro dias. Agora tem bloco saindo três semanas antes e vai continuar saindo depois. O Carnaval está aumentando.

Impossível fugir de uma análise sociológica. Somos uma colônia de jesuítas, filhos bastardos da Contra-Reforma. A moral católica sempre imperou por aqui, com seus pecados e restrições. Restrições essas que se intensificam justamente no período da Quaresma, que vai da Quarta-Feira de Cinzas à Semana Santa.

Daí é um passo para imaginarmos o povo se esbaldando antes da proibição maior. Mas e os outros países católicos? Aí entra um segundo fator que é nossa composição étnica, que é única. A gente bem percebe que o catolicismo penetrou de maneira heterogênea em diferentes segmentos sociais. Não é à toa que as duas maiores potências carnavalescas do Brasil sejam as antigas capitais, Rio e Salvador, que concentram uma população negra maciça. O Carnaval é anticlerical e africanista.

Mas a questão social não explica tudo. O Carnaval tem a ver com sermos um país triste. É uma resposta à colonização, à violência, à miséria, à ditadura e por aí vai. O Carnaval é uma defesa contra nossas angústias.

Por um momento, podemos esquecer o perrengue do dia a dia, trânsito, doença, violência e simplesmente brincar de ser quem a gente quiser. É uma sensação de poder incrível, validada pela massa. Por isso, o folião quer te levar junto. Um homem vestido de mulher cantando na rua é um louco; mil homens vestidos de mulher cantando na rua é um bloco.

É o que chamamos defesa maníaca, quando atravessamos um problema partindo da premissa de que nós somos nada menos que o máximo. Se prestar atenção, repare que vivemos a época do “Yes, we can!” (sim, nós podemos, em tradução livre para o português). Que é uma premissa irreal, porque, infelizmente, a gente não pode tudo. Lamentável, não? O Carnaval é um sintoma social.

Não é coinciência que, com o país enlouquecido e de pernas para o ar, o Carnaval venha tão forte esse ano. Semana passada fugi de um bloquinho infantil na porta de casa somente para ser encurralado por outro bloco, esse de adultos, no meu consultório, onde tentei refúgio. Parece que as pessoas têm muito do que se defender esse ano.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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