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Blog do Luiz Sperry

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Psicose: como é conviver com situações de alucinações e delírios

Luiz Sperry

22/01/2018 04h00

Crédito: iStock

-Mas doutor, é psicose?

A família fica muito assustada com a possibilidade. Pudera, entre todas as perturbações mentais, a psicose é muito emblemática. Já desde antes do filme célebre de Alfred Hitchcock, os estados psicóticos causavam terror e fascínio. Hoje em dia, ainda dão muito pano pra manga, se pensarmos como a psicose é tratada e o quanto de psicose há dentro de nós.

A psicose não é exatamente uma doença, mas um tipo de sintoma que pode aparecer em várias doenças –ou até mesmo em quem não está doente. As classificações do que é psicose são variáveis. Com o intuito de simplificar essa questão, a psiquiatria hoje admite que psicose são as situações em que as pessoas tem alucinações ou delírios.

Chamamos de alucinação quando percebemos como real algo que simplesmente não existe. Por exemplo, se eu escuto uma voz falando comigo e ninguém mais escuta, provavelmente estou alucinando. Se enxergo ratos e baratas entrando no meu quarto à noite, também (claro, desde que não hajam ratos e baratas, de fato, no quarto). Isso é uma alucinação.

O delírio é um pouco diferente. O delírio é uma ideia. Mas um tipo de ideia que não corresponde com a realidade. O pensamento "Eu tenho um chip implantado na minha cabeça", por exemplo, provavelmente é irreal. Além disso, o delírio é uma ideia que não cede frente aos argumentos lógicos. Você pode explicar, fazer tomografia, ressonância e de nada vai adiantar. A pessoa continua acreditando que o tal chip está lá.

E, em terceiro lugar, o pensamento não pode ser culturalmente compartilhado. Para os ateus, por exemplo,  não faz muito sentido imaginar que Maria engravidou virgem de Deus, na forma de um Espírito Santo, que era uma pomba, e nasceu Jesus, que também era Deus, mas era mortal e foi crucificado, mas ressuscitou. Mas isso tudo é amplamente aceito na cultura cristã. Portanto, não é delírio.

A psicose pode estar presente em várias doenças diferentes. Esquizofrenia sempre tem psicose; no transtorno bipolar também é bastante comum. Existem surtos psicóticos desencadeados por drogas. Doenças clínicas, como infecções, podem desencadear surtos, principalmente em idosos. Depressões graves podem ter sintomas psicóticos associados. Em geral são quadros graves e exigem um cuidado especial da família e da equipe de tratamento. É a principal causa de internação em psiquiatria.

Isso é a psicose do ponto de vista da psiquiatria. Que não é o mesmo ponto de vista da psicologia ou mesmo da sociologia. Um outro jeito de definir psicose é como um tipo de funcionamento onde a realidade está distorcida. E aí que está a parte mais interessante, porque isso acontece com todo mundo. A gente pega algo ruim que está dentro da gente ou algo que a gente pensa e transfere isso para o mundo externo. É quase automático, quer ver?

Se você está dirigindo e toma uma fechada, a tendência é que você imediatamente enxergue o outro como inimigo. O chefe te passou a perna? Por pouca coisa ele pode virar o demônio na sua mente. Caixas preferenciais, cotas em universidade, qualquer coisa que acreditamos que nos ameace, pode desencadear as respostas.

Chamamos esse funcionamento de psicótico por esse processo, que transfere parte da nossa agressividade para o mundo, para o outro. O que não quer dizer que os inimigos não existam. Mas sempre desconfie de discursos que tendem a generalizar. Os negros isso, os brancos aquilo, os homens isso, as mulheres aquilo. No fundo, pode ter uma psicose aí, no sentido "Eu sou muito bom, quem é diferente de mim é mau".

Lembrando que estamos em ano eleitoral. A psicose caminha junto com a política. Tem um livro muito bacana de Laure Murat, chamado "O homem que se achava Napoleão" que fala exatamente disso.  Não é à toa que a época do surgimento dos hospitais psiquiátricos e da própria psiquiatria moderna seja justamente o período napoleônico. A imagem do louco fantasiado de Napoleão é tão forte que persiste até hoje. Pelo andar da carruagem, parece que vai ser um ano quente por aqui. Os discursos estão afiados, e não enxergo neles consideração pelo outro. Se me perguntarem, eu digo:

-Sim, é psicose.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.