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Estaria a era dos antidepressivos chegando ao fim?

Luiz Sperry

15/01/2018 04h15

Crédito: iStock

A época dos antidepressivos começou no final dos anos 80, com o lançamento da fluoxetina (sob a alcunha de Prozac), alardeada como a pílula da felicidade. Desde então, o uso de medicamentos para atenuar a depressão se alastrou pelo planeta, movimentou bilhões de dólares e mudou o jeito com que as pessoas se relacionam com a psiquiatria e até mesmo com suas vidas.

Desse período para cá, muita coisa mudou. Surgiram vários antidepressivos parecidos com a fluoxetina e medicamentos que antes eram restritos aos casos mais graves começaram a ser prescritos e aceitos com naturalidade muito maior. O que era comentado com pudor pelos cantos passou a ser divulgado, glamorizado até. Psiquiatras e remédios caros viraram grife. Houve quem dissesse em alto e bom som que seria uma boa ideia colocar antidepressivo na caixa-d’agua.

Agora, 30 anos depois dessa história, vale fazer uma retrospectiva. A fluoxetina foi o primeiro antidepressivo dos chamados ISRS (inibidores seletivos de recaptação de serotonina), cuja principal vantagem sobre os medicamentos antigos (os chamados tricíclicos) era o perfil de efeitos adversos e segurança. Não dão sono demais, não tiram o sono, não engordam demais nem tiram o apetite, e são pouco tóxicos, o que é muito importante em pacientes com ideações suicidas frequentes.

Os novos antidepressivos são mais seguros que os antigos, mas seu mecanismo de ação é muito parecido. Os mais modernos aumentam a concentração de serotonina em regiões específicas do cérebro, e esse efeito de fato melhora os sintomas de depressão, além de ansiedade e obsessão –eventualmente aumentam a concentração de noradrenalina também, com efeitos semelhantes. Só que aumentar serotonina e adrenalina já era o que os tricíclicos faziam lá no final dos anos 50. Exatos 60 anos depois do surgimento do primeiro antidepressivo, a psicofarmacologia só tem a oferecer medicações serotoninérgicas a adrenérgicas. Sim, existem algumas medicações que atuam de modo um pouco diferente, mas são poucas exceções.

Não que eu seja contra os antidepressivos. Acho que eles são extremamente preciosos, mas não devem ser colocados na caixa-d’água. A prescrição é algo que envolve uma certa responsabilidade médica. Mas o que eu observo é que os tratamentos de primeira linha têm uma eficiência muito semelhante a dos antigos. E continua existindo uma parcela considerável de pessoas que não se beneficiam desses tratamentos. Simplesmente não melhoram.

Os antidepressivos não são as únicas armas farmacológicas contra a depressão. Suplementação com lítio, antipsicóticos, anticonvulsionantes ou mesmo hormônios têm mostrado bons resultados. E existem tratamentos que não são medicamentosos, como estimulação magnética, estimulação elétrica e até mesmo a injustamente maldita eletroconvulsoterapia, conhecida como “eletrochoque”.

Isso tudo sem falar nas psicoterapias, das quais eu também sou fã, a cura pela fala. Em muitos casos ela consegue chegar onde as medicações não chegam. Mas são processos trabalhosos e relativamente caros, o que faz com que sua acessibilidade seja reduzida. Mas isso não quer dizer que seja inviável, como demonstram projetos de psicoterapia na rede pública implementados com sucesso em países como França e Argentina.

Isso nos leva para outra questão fundamental. Nunca as pessoas foram tão diagnosticadas, nunca tomaram tanta medicação e os números não param de crescer. Estamos indo no caminho certo? Nos últimos 60 anos respondemos papagaiando: “Serotonina! Serotonina!”, mas parece que, no fundo, as pessoas não estão vivendo melhor. Não me surpreenderia se as pessoas num futuro próximo perdessem a fé nos antidepressivos (e por conseguinte na psiquiatria). Porque aquilo que a medicação pode oferecer é algo muito distante do que se pode chamar de felicidade.É hora de pensar o que se pode oferecer de verdade, além disso.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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