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Barreiras da transexualidade foram quebradas e nada mais será como antes

Luiz Sperry

08/01/2018 10h39

A filósofa norte-americana Judith Butler, 61, em conferência no Sesc Pompeia, em São Paulo, realizada em novembro último (Sesc-SP/Divulgação)

Nesse ano que passou, creio que a questão psiquiátrica que ganhou maior visibilidade foi a da transexualidade. Falo assim no plural porque transexualidade não é uma só, são diversas. É uma questão delicada, que mexe com valores que estão muito arraigados na nossa cultura. Homem é homem, mulher é mulher, certo? Depende. O assunto não é novo, bem se sabe, mas em 2017 muitas barreiras foram ultrapassadas.

Quando fui escrever essa introdução, por um momento cogitei me referir à transexualidade como transtorno mental. E, de fato eu estaria embasado, já que a transexualidade consta na lista de transtornos mentais do DSM e CID, que são os manuais diagnósticos americano e da OMS (classificados como disforia de gênero e transtorno de identidade sexual, respectivamente).

Por outro lado, algo me causa um desconforto nessa classificação. Porque se a gente chama de transtorno/doença, a gente assume uma postura de que aquilo que é trans é necessariamente um problema. E isso é justamente o contrário do que eu imagino, que a nossa identidade não deveria ser um problema, deveria ser uma solução. A gente remete para um tempo onde essa questão se confundia com as psicoses, submetendo os pacientes a situações trágicas, como fica bem ilustrado no filme “A Garota Dinamarquesa” (2015). Tendo isso em vista, vou chamar aqui a transexualidade de condição.

Teve trans na novela, teve trans no “Fantático”. Teve a morte da Rogéria, a “travesti da família brasileira”. Teve o assassinato de Dandara e outros 441, contabilizados. Fora tantos outros mortos, ainda anônimos nas estatísticas. Teve Judith Butler no Brasil. Por essas e por outras, no ano que passou muita gente teve que fazer o exercício de pensar um pouco no que é a questão trans. Para quem não é trans –pessoas chamadas cientificamente de cis– é um pouco difícil imaginar como seria estar num corpo que não se reconhece como seu.

Mas na verdade não é tanto. Imagine, inicialmente, aquela situação do livro “A Metamorfose”, do autor Franz Kafka. Você acorda transformado em um inseto gigante. Obviamente, você não vai assumir seu lado inseto e ficar confortável com isso. Você, provavelmente, vai se sentir um prisioneiro nesse corpo bizarro e ficar bastante apavorado. Seguindo a mesma linha de raciocínio, imagine que você acorde um dia com o sexo trocado. Talvez você ache muito divertido, provavelmente não. É mais ou menos assim que os transexuais se sentem, inicialmente. Prisioneiros em um corpo trocado.

Essa é uma condição delicada. Cabeça de homem num corpo de mulher, cabeça de mulher num corpo de homem. Em princípio tem dois jeitos de resolver: ou troca a cabeça ou troca o corpo. Desde sempre, tem se tentado trocar a cabeça, ou seja, fazer com que o pensamento se adeque aos órgãos sexuais. Tem sido um fracasso retumbante. Mais recentemente, tem se tentado o contrário, mexer no corpo para que ele entre em sintonia com a auto-imagem. Tem funcionado, libertar as pessoas de seu corpo-prisão é um processo emocionante.

Esta minha explicação é evidentemente bastante simplista. Como falei no primeiro parágrafo, as transexualidades são diversas. Tem a/o transexual que que trocar para o sexo oposto. Mas tem também os não-binários que não se identificam com o sexo oposto. E as travestis que tem uma identidade feminina mas transam como homens. E por aí vai. Tem todo o grupo que chamamos de Queer, que as vezes aparece na sigla LGBTQ, que são essas manifestações de gênero não convencionais.

Como por exemplo Pablo Vittar, que não é trans, porque se identifica como homem, portanto, cis. Mas se veste, eventualmente, de mulher e assume essa persona artística. E brilhou no ringue, no deserto e no Rock in Rio. O que fazer com isso? Sugiro fortemente não fazer nada. O problema é que essa questão trans provoca emoções tão profundas nas pessoas que dificilmente se passa incólume por tudo isso.

Tomemos, por exemplo, a visita de Judith Butler ao Brasil. Sua simples presença no Brasil gerou reações inflamadas de gente muito mal informada (e mal intencionada também), contra a suposta “ideologia de gênero”. Queimaram fantoches da “bruxa”, juntaram monarquistas com neonazistas. Tudo contra uma palestra que Butler não ia fazer, já que veio ao Brasil falar de democracia e sionismo. Butler, inclusive, acusa a tal “ideologia de gênero” de ser uma invenção do cardeal Ratzinger (que depois se tornaria o Papa Bento XVI) para desviar o foco do acobertamento dos casos de pedofilia por parte do Vaticano por décadas (ou seriam séculos?). Vale a pena ler os comentários dela mesma sobre toda essa questão.

O que está cada vez mais evidente para mim é que os velhos dogmas de que órgão genital define gênero e gênero define com quem você transa, estão caindo por terra. Estudos recentes americanos e britânicos mostraram um alto grau de tolerância em relação às questões de gênero entre adolescentes de 13 a 20 anos. E mais da metade deles se define como “algo que não 100%” heterossexual. Tem algo novo acontecendo, e apesar dos ataques raivosos, nada será como antes novamente.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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