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Covid-19 e a síndrome de Estocolmo: estamos nos afeiçoando à situação?

Luiz Sperry

22/06/2020 04h00

Crédito: iStock

Essa semana se completaram três meses de isolamento social. Mais isolado para alguns, menos para outros, expondo, sem a menor sombra de dúvida, que é para quem pode, não para quem quer. Todo mundo errou, no sentido de que a epidemia foi muito mais grave e impactante do que poderiam imaginar mesmo as mentes mais pessimistas e doentias, entre as quais eu me encontro. E a pergunta que já fiz nesse espaço várias vezes segue sem resposta: quando termina?

Parece que o alerta do Dr. Dráuzio Varella lá atrás está se fazendo valer: "Esquece sua vida normal. Vai demorar muito tempo pra voltar". Alguns dirão que estamos começando a sair disso, balela. Não estamos saindo de nada, essa tentativa pífia e atabalhoada de abertura só vai nos levar a outros fechamentos posteriores e a uma progressão mais arrastada e sofrida. Serão muitos meses com muitas mortes ainda para contar e é certeza que chegará em pelo menos 100.000 por aqui.

Até aí nenhuma novidade, é o preço que se paga pela escolha feita lá em 2018. O fenômeno mais interessante é uma certa resignação que já podemos ver a esse respeito. Se antes todos estavam ansiosos contando os dias para poder sair às ruas e encher o peito de ar puro, respirar o amor aspirando liberdade, agora parece que algumas fichas andaram caindo. Quem levantou essa questão foi um paciente meu, que disse que estamos vivendo numa Síndrome de Estocolmo.

Como assim Síndrome de Estocolmo? Para quem não é familiarizado com a expressão, Síndrome de Estocolmo é o processo no qual a pessoa que sofre algum tipo de violência persistente acaba por se afeiçoar ao seu algoz. O termo surgiu após um ataque a um banco nos anos 70, onde os reféns acabaram por tomar o lado dos assaltantes no processo que se seguiu. Claro que o processo não surgiu aí, nem deixou de existir depois disso.

Recentemente temos exemplos culturais bastante claros de como isso funciona, como na série "La casa de papel", onde parte dos reféns acaba por tomar o lado dos sequestradores (e eventualmente se apaixona por eles) ou no famigerado filme porno soft "365 dias", onde um milionário sensual sequestra uma moça com a intenção de que ela se apaixone por ele. Apesar de experiências como sequestro e abuso serem na sua esmagadora maioria bastante traumáticas, não é impossível que esses desfechos ocorram.

Mas qual seria o nosso sequestro? Bem, de fato estamos quase todos vivendo num tipo de cativeiro, onde o grande carcereiro, o nosso grande algoz, é o próprio coronavírus. O monstro de dimensões microscópicas tem pautado a vida e o funcionamento do mundo todo esse ano. E se demonstrou um negociador implacável. Aqueles que não atenderam às suas demandas, indivíduos ou governos, pagaram caro. 

O que ocorre é que quem pode tem se adaptado bem a essa nova realidade. Cada dia aumenta o número de pessoas que dizem que estão melhor agora do que antes. Nada de trânsito, nada de chefe, nada de almoço por quilo com os colegas nem sempre tão queridos. Claro que o medo de ficar doente, com milhares de casos novos por dia e milhares de mortes decorrentes, ainda é um fator bastante pesado. Perguntou meu paciente: "Se tudo abrisse amanhã, você sairia para ir num restaurante, por exemplo?"

Não tive que pensar muito para responder que não, de jeito nenhum. Agora que consegui uma esteira emprestada,  estou pronto para ficar por aqui,  atendendo à distância,  por muitos e muitos meses. Não que eu goste disso ou tenha dificuldades sociais, muito pelo contrário. Só acho que não vale a pena nesse momento correr esse risco. Mas sob um enfoque psicológico o covid-19 é algo muito conveniente. Podemos colocar a culpa sempre nele: não cumpriu o prazo? "Essa pandemia está tudo uma loucura!". Não consegue ficar com ninguém? "Não tem como nessa pandemia!" Sua casa está de pernas pro ar? "Ah, a covid…"

Isso se explica porque a gente tende a investir de erotismo situações dolorosas justamente para que elas sejam menos dolorosas. Isso acontece na Síndrome de Estocolmo, mas acontece também quando você acorda todo empolgado, termômetro marcando 12 graus Celsius, e vai fazer 300 agachamentos e 600 abdominais. Ainda tira foto sorrindo e acha bacana. Não é, é triste, mas a gente acredita que é gostoso para um benefício outro. Ou não?

Entendo também que essa realidade não é plausível para todo mundo. Tem um monte de gente que não tem como ficar em casa, ou não consegue ou mesmo não quer. É para isso que precisam existir medidas de suporte para que isso possa acontecer para o maior número possível de pessoas. Embora o ministro acredite que a gente pode ficar mal acostumado com os 600 reais.

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Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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