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Será mesmo que os casos de depressão estão aumentando na quarentena?

Luiz Sperry

11/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Tem um trabalho bem interessante da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) que vem medindo os níveis de depressão durante a quarentena. Como era de se esperar, o número de pacientes supostamente com depressão está aumentando durante a pandemia, assim como casos de ansiedade. Os dados não são propriamente surpreendentes, mas não devem ser tomados ao pé da letra. Eu explico o porquê.

Em primeiro lugar, talvez você tenha se atentado ao supostamente que usei no parágrafo anterior. Não é um vício de linguagem, nem uma tentativa descabida de se relativizar os dados. Mas o estudo foi feito por telefone, através de um questionário padronizado. Apesar de não ser tão distante do que se faz em pesquisa médica, não é exatamente o que se faz numa pesquisa, de modo que os resultados estão sujeitos a pequenas variações e vieses. O que não invalida a pesquisa, ao meu modo de ver. 

Não tenho acesso aos dados originais da pesquisa, pelo simples fato de não terem sido ainda publicados na íntegra. O que há disponível é uma prévia no site do The Lancet que aguarda revisão, assinada pelos pesquisadores Alberto Filgueiras, da UERJ, e Matthew Stults-Kolehmainen, da Universidade de Yale. Posso supor que a partir da primeira pesquisa, que era um estudo transversal, foi feita outra 30 dias para comparação longitudinal.

Pois bem, o que os dados mostram? Segundo Filgueiras, entre as duas avaliações, a prevalência de depressão e ansiedade quase que dobraram entre o final de março e o final de abril. O que era algo em torno de 4 a 5% aumentou para 7 ou 8%. Acredito que seja mais importante que estejamos atentos ao crescimento do número do que ao número em si. Como nas análises da epidemia propriamente dita, há diversas variáveis de confusão, mas um número que dobra é algo que devemos olhar com cuidado.

Foram observados também fatores de risco aumentado para depressão e ansiedade. São fatores de risco: ser mulher, ter que trabalhar fora, ter idoso em casa, ter uma vulnerabilidade aumentada ao coronavírus (como asma, por exemplo), baixo nível educacional, idade (surpresa, pior entre os jovens). Como fatores de proteção foram identificados a prática de exercícios, a psicoterapia online e a presença de crianças em casa.

Isso significa então que nós estamos com um aumento dos casos de ansiedade e depressão? Provavelmente sim. E você deve reparar que uso novamente um advérbio aqui, e não é por vício de linguagem ou por mais uma tentativa, vã, de não me comprometer inteiramente com o que digo. O provavelmente se deve ao fato que uma depressão ou uma ansiedade nem sempre são uma depressão ou uma ansiedade.

Usemos um exemplo palpável. A pessoa está em casa, muitas vezes sem trabalhar, muitas vezes sem renda, os boletos entrando por debaixo da porta não respeitam a quarentena. O dia todo sentado naquele sofá mole demais ou na cadeira dura demais, o sono cada vez pior. Ela achou que seria boa ideia tomar umas biritas de noite para ajudar, só para descobrir uma semana depois que atacou a gastrite. Isso em parte também devido à dieta que foi para o espaço, afinal cada ida ao mercado é um risco a mais, tudo vira lanche e petisco.

Essa rotina por si só, já abre espaço para alterações do sono, alterações da alimentação, diminuição da produtividade, preocupações constantes. Pronto, basta mais um ou dois passos e você consegue um diagnóstico de depressão, ou de ansiedade. O que, ao pé da letra, não está incorreto. Mas a pergunta que deve ser feita é: o que um diagnóstico de depressão ou de ansiedade pode ajudar alguém que sofre, em última instância, de quarentena? Dar antidepressivos para as pessoas nessa situação é de fato uma indicação? Claro que os remédios podem ajudar, mas tem problemas que são da vida, não?

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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