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Coronavírus: como o isolamento está mudando as pessoas

Luiz Sperry

04/04/2020 04h00

Crédito: iStock

Na semana passada ressaltei como estava grande a moral dos profissionais de saúde, por conta do enfrentamento à epidemia de covid-19. Isso é um fato, porque há um reconhecimento, real de que quem trabalha com isso está incorrendo num grande risco de infecção e morte. Dessa forma, não posso comparar o meu trabalho, no desconforto do meu lar, comparável ao trabalho do front. Sendo assim, é da retaguarda que faço minhas observações.

A quarentena segue, sem previsão de terminar. Mais uma semana que passou rápido para uns, devagar para outros. Parece que a percepção do tempo foi a primeira vítima, os dias de semana tem cara de final de semana e vice-versa. Entrou abril e tudo ainda está com cara de março. Fiz aniversário e nem cantei parabéns. E a notícia ruim é que não tem prazo para acabar, a curva está embicando para cima, vai embicar mais quanto mais pessoas forem testadas. Não existe nenhum epidemiologista sério que possa estabelecer, nesse momento, um prazo para o pico e a queda do número de casos. As pessoas estão ficando asfixiadas pelo desemprego de agora e pela recessão que certamente virá.

Mas existem também, pasmem, as notícias boas. Porque se no começo foi o baque, aquela percepção de "isso não pode estar acontecendo", agora parece que as ideias e os afetos vão se assentando aos poucos. A minha impressão, pessoal, é que o baque é mais forte porque ele vem justamente numa era onde as questões narcísicas e individuais estão no ápice. Querendo ou não, vivíamos a ilusão de que tudo estava ao nosso alcance. O futuro nos apresentava um horizonte distante, mas possível. 

De repente o desejo pessoal foi completamente solapado e o futuro se tornou radicalmente incerto. Quem estava lá em cima foi arrancado das alturas e jogado numa realidade confinada, em nome do coletivo, algo que estava fora de moda desde o século passado. Até desavenças políticas até então intransponíveis foram colocadas de lado por ora, em nome do bem comum. Dia após dia o ser humano vai mostrando porque triunfou nesse planeta, mostrando sua capacidade assombrosa de adaptação. O desespero inicial que nos tomou de surpresa vai dando lugar a uma resignação áspera, mas adequada. Como disse o quase onipresente Drauzio Varella, "esquece sua vida normal, vai demorar muito tempo para voltar".

Adapto-me também eu. No início acreditei que seria muito difícil dar conta de toda minha clínica psiquiátrica e psicanalítica à distância. Mais uma surpresa; a demanda aumentou, inclusive de casos novos. Pessoas que vinham de uma situação de fragilidade considerável demonstraram ser capazes de se adaptar à situação de modo invejável. As pessoas estão sendo colocadas à força em contato com seus próprios sentimentos, e quem já faz isso em análise parece que tem estado um passo à frente. 

Agora o Ministério da Saúde resolveu nos convocar, preciso fazer um cadastro. Talvez eu precise ir de fato para o front, todo paramentado de cabo a rabo, atender covid-19 num hospital de campanha improvisado. Cada vez mais pacientes, cada vez menos médicos, a ponto de um psiquiatra ter que atender uma insuficiência respiratória. Que Deus nos proteja.

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

Blog do Luiz Sperry