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Postura à mesa nas festas de final de ano lembra transtornos alimentares

Luiz Sperry

30/12/2019 04h00

Crédito: iStock

Peru, farofa, lombo, tender, bacalhau e arroz, com uva passa ou não. Panetone, chocotone, rabanada, toneladas de frutas e castanhas, além do famigerado pavê. Bebidas de todos os tipos em grandes quantidades. As festas de fim de ano são normalmente associadas a uma grande esbórnia alimentar em todos os sentidos. O excesso é a regra.

Isso acaba por nos lançar a uma postura frente à comida: ou a gente come ou não come. Sem forçar muito a barra, colocamos muitas vezes o pé nas águas do que seria um transtorno alimentar. Um transtorno alimentar é isso: uma exacerbação, muitas vezes trágica, do conflito comer/não comer.

Os mais conhecidos são a anorexia e a bulimia, também chamados de anorexia nervosa e bulimia nervosa. Muito frequentemente associados a comportamentos purgativos severos e/ou restritivos, nas suas formas graves podem ser fatais. Felizmente são raros, embora formas mais leves sejam relativamente frequentes e apareçam muitas vezes associadas a outras doenças mentais, como ansiedade, depressão ou outros transtornos do impulso.

O elemento central dessas doenças é o que a gente chama de imagem corporal. É o jeito que a pessoa se vê no espelho. E aí surge uma primeira diferença entre anorexia e bulimia. A anorexia apresenta uma distorção da imagem brutal: a pessoa se enxerga gorda mesmo estando excessivamente emagrecida. É um pouco assustador você colocar o braço da paciente de 38 kg ao lado do braço de outra mulher com mais de 70 kg e perguntar: "Qual braço é mais gordo?" e ela responder "O meu, é claro!".

É como se a imagem percebida fosse daquelas salas de espelho de distorcem e alargam tudo. Só que o tudo no caso é apenas o corpo da pessoa doente.

Já no caso da bulimia, a doença é diferente. De fato é frequente que a pessoa também tenha uma distorção de imagem, mas dificilmente é tão severa. Inclusive o próprio tipo físico é diferente. Enquanto as anoréxicas quase sempre estão muito abaixo do peso esperado, as bulímicas em geral tem um peso normal para sua altura. São acometidas por episódios de compulsão alimentar, quando ingerem uma enorme quantidade de comida de uma vez só, seguidos pelos chamados episódios purgativos, onde tentam compensar o excesso de comida, em geral vomitando tudo, tomando laxantes ou fazendo uma quantidade enorme de exercícios.

O eixo central das doenças também é um pouco diferente. Nos dois quadros podemos perceber um grande medo de engordar, mas existem diferenças sutis. A anoréxica, apesar de ser muito magra, sempre se acha gorda e sempre quer emagrecer mais. A bulímica não se acha tão gorda assim, mas morre de medo de engordar.

Claro que essas questões não se referem ao alimento em si, ele é apenas a simbologia de um tipo de prazer sexual que não pode se realizar. É notável a aversão que as características sexuais do próprio corpo causam nas pacientes anoréxicas. Inclusive até recentemente era ainda um critério diagnóstico a ausência de menstruação, algo muito comum nesses casos justamente em decorrência da desnutrição extrema. O corpo ideal é o corpo infantil.

As questões relativas ao comer e à imagem corporal são típicas do nosso tempo. As ordens conflitantes "coma" e "seja magro" estão por aí todo santo dia.

Por enquanto só desejo a vocês que aproveitem as festas de fim de ano, onde quer que vocês estejam.

Feliz 2020!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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