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Quando o efeito colateral de um remédio é a alteração do humor

Luiz Sperry

01/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Não é todo mundo que sabe, mas antes de ser psiquiatra eu quase fui infectologista. Até hoje tenho uma especial admiração pela arte de caçar e matar os micro-organismos hostis. Inclusive trabalhei alguns bons anos, já como psiquiatra, no mitológico Instituto de Infectologia Emílio Ribas, onde eu podia conciliar as duas paixões.

É interessante pensar nisso retrospectivamente porque foi justamente no Emílio Ribas, durante a residência de doenças infecciosas, que eu provavelmente tive o insight de que a frente de batalha era de fato outra. E é inegável o quanto uma doença física é capaz de adoecer a mente, em especial doenças infecciosas como a AIDS.

Além disso é importante ressaltar que muitas vezes o que fazia mal para a mente da pessoa era o tratamento. Naquela época, no começo do século, o nosso principal vilão era o interferon. Era o tratamento para a hepatite C, longo e sofrido. Os pacientes entravam na sala chorando já. Dores pelo corpo, perda de apetite, insônia. E tudo isso para, ao final de um ano, cerca de um terço dos pacientes não responder ao tratamento e ter que fazer tudo de novo.

Eu pensava então que em breve olharíamos para trás e contaríamos para os novos que "antigamente a gente tratava isso com interferon". Pois bem, esse dia chegou. Desde 2017 o protocolo de tratamento do Ministério da Saúde adotou os novos tratamentos e o interferon está deixando a vida de quem tem hepatite C para entrar na história. As novas medicações antivirais (como o sofosbuvir, por exemplo) são muito menos prejudiciais e ainda por cima mais eficientes que os tratamentos anteriores. E duram no máximo 6 meses.

No tratamento da infecção por HIV observa-se um fenômeno semelhante. O tratamento de primeira linha durante mais de uma década foi feito com efavirenz. Esse sim um querido da infectologia, já que quando surgiu era muito superior aos tratamentos de sua época. Mas o ponto fraco do efavirez sempre foi sua propensão a causar justamente alterações de humor. A mais comum era transitória, no começo do tratamento. A pessoa muitas vezes relatava pesadelos intensos ou uma instabilidade emocional excessiva. Diferente do interferon, que derrubava as pessoas quase que literalmente, o efavirenz causa em geral mudanças mais sutis, que muitas vezes não são detectadas pelo médico cuidador.

E é justamente agora que surgiu um novo remédio mais potente como primeira linha (o dolutegravir) que fica mais evidente o quanto essas pessoas ficaram deprimidas ao longo desses últimos anos (ou mesmo décadas). As novas diretrizes para o tratamento de pessoas vivendo com HIV permite a mudança para esquemas com dolutegravir mesmo em pacientes com carga viral indetectável.

Claro que isso não é igual para todo mundo. Tem gente que não sente efeito adverso de nada. Como o Sr. Antônio, que era paciente meu no Emílio Ribas. Certa vez perguntei para ele se havia sido muito difícil o tratamento com interferon. Ele já de pé deu risada e disse, vaidoso:

– Que nada doutor, fiquei ótimo! Até o meu cabelo ficou mais liso!

Sobre o autor

Luiz Sperry é médico psiquiatra formado pela USP em 2003. Adora a cidade de São Paulo, onde nasceu e cresceu. Já trabalhou nos 4 cantos dela, inclusive plantão em pronto-socorro (tipo ER mesmo), Unidade Básica, HC, Emílio Ribas, hospícios e hospitais gerais. Foi professor de psicopatologia na Faculdade Paulista de Serviço Social e hoje em dia trabalha em consultório e supervisiona residentes do HC.

Sobre o blog

Um espaço para falar das coisas psi em interface com o que acontece no dia a dia, trazendo temas da atualidade sem ser bitolado.

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